Al Drago/The New York Times
Al Drago/The New York Times

Trump perdeu a batalha, vencerá a guerra?

Presidente americano recuou, mas ninguém jamais poderá dizer que ele é complacente com a imigração ilegal

Fareed Zakaria / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2018 | 05h00

Os democratas estão exultantes com o fato de Donald Trump precisar voltar atrás na sua política de separação de famílias de imigrantes na fronteira. E há boas razões para comemorar: a medida adotada por ele era mesquinha e desnecessária. Mas eu pergunto se este episódio será assim tão ruim para o presidente como acham seus opositores. Com esta disputa, Trump lembrou seus eleitores que pretende ser duro na questão da imigração.

A crueldade do presidente facilitou a oposição a sua política. Mas em sua satisfação com este mais recente tropeço do governo, os democratas podem estar caindo numa armadilha. A pergunta mais abrangente com certeza é esta: deve o país aplicar suas leis de imigração ou, se não fizer, deve ceder?

De acordo com relatório das Nações Unidas, no ano passado, os Estados Unidos se tornaram o principal destino de requerentes de asilo, com um aumento de 44% de centro-americanos, quase a metade do total, com um contingente de 140 mil. David Frum sugere no Atlantic que a maior parte dessas pessoas provavelmente vai para os EUA para fugir da pobreza e não da violência (que vem diminuindo) e muitos esperam que, trazendo os filhos consigo, possam evitar uma punição. 

+ Abrigos detêm crianças com menos de 5 anos retiradas de pais na fronteira americana

É por isso que, ao ser indagada em 2014 sobre as dezenas de milhares de crianças desacompanhadas que chegaram à fronteira, a candidata Hillary Clinton respondeu: “Temos de enviar uma mensagem clara: só porque seu filho chega à fronteira isso não significa que ele deve permanecer. Não queremos enviar uma mensagem que contrarie nossas leis ou incentive mais crianças a empreender essa jornada perigosa”.

A imigração se tornou um tema que galvaniza intensamente um grande grupo de americanos, o que, em grande parte, tem raízes no racismo, mas representa também um tipo de nacionalismo exacerbado. Numa era de globalização descontrolada, as pessoas querem acreditar que ainda mantêm um sentido de estabilidade e controle.

Tendência. O nacionalismo existe há séculos, mas hoje, de certo modo, é uma doutrina que ainda sobrevive. O grande tema do século 20 era a perda da fé. Em meio à ascensão da ciência, do socialismo e do secularismo, as pessoas perderam a fé nos dogmas e nos deveres da religião. Mas isso não mudou a realidade de que elas queriam alguma coisa em que acreditar e com a qual pudessem ter um vínculo emocional e profundo.

O nacionalismo tornou-se esse substituto para muitas pessoas da direita, que o adotaram com um apego forte e quase místico. Para muitos da esquerda, pelo contrário, o nacionalismo é mais uma afinidade irracional de um grupo de pessoas com quem alguém compartilha uma fronteira arbitrária.

+ Advogados de crianças imigrantes denunciam caos e negligência

Por que, digamos, um católico devoto em New Hampshire deveria sentir uma ligação maior com um ateu radical que vive 4 mil quilômetros distante na Califórnia comparado com um católico a algumas centenas de quilômetros distante, no Canadá? Mas este tem sido o poder do nacionalismo que continua a levar as pessoas a grandes atos de coragem, lealdade, crueldade e ódio.

A imigração é a prova de fogo do nacionalismo, talvez porque outras fontes desapareceram ou se tornaram politicamente abomináveis. Houve um tempo em que o nacionalismo, em muitos cantos do globo, estava profundamente entrelaçado com a religião ou etnia. Mas, à medida que as sociedades ocidentais ficaram mais diversificadas e grupos minoritários dentro delas afirmaram as próprias identidades, ficou mais difícil definir o nacionalismo pelos velhos parâmetros. Então o que resta? Como definir uma nação?

Para os americanos, as ideias e a ideologia sempre foram fundamentais. É por isso que ser comunista é visto como “antiamericano”. Mas, além da ideologia, existe também, mesmo nos EUA, uma concepção mais emocional de nação. E a imigração se tornou um substituto desse sentimento profundo – de que o país tem de ser capaz de se definir, decidir quem ele permitirá que entre no seu território e seus cidadãos terem mais prerrogativas que os estrangeiros.

As soluções para o sistema de imigração dos EUA são complicadas. Mas os democratas fariam bem em se lembrar também dos simbolismos, o que Bill Clinton e Barack Obama nunca esqueceram, razão pela qual sua retórica e suas ações no campo da imigração foram muito mais centristas do que as de muitos líderes democratas atuais.

Aparências. Em política, as pessoas se lembram de coisas simples. Por exemplo, em uma pesquisa realizada nos anos 80, foi perguntado a um indivíduo se ele votaria em Ronald Reagan ou em seu oponente, o democrata Walter Mondale, para presidente. “Votarei em Reagan”, ele respondeu. “Mondale é comunista.” Ao que o entrevistador disse que isso não era verdade. E o homem respondeu: “Talvez não seja. Mas ainda assim votarei em Reagan. O que sei é que ninguém nunca disse que ele era comunista”. Donald Trump pode ter perdido desta vez. Mas ninguém jamais achará que ele é complacente com a imigração ilegal. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.