Mauricio Lima/The New York Times
Mauricio Lima/The New York Times

Trump contraria Pentágono e inicia retirada total de tropas da Síria

Presidente garante que EUA derrotaram o Estado Islâmico e defende volta de todos os 2 mil soldados que estão no país; decisão é contestada por militares e analistas

Redação, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2018 | 12h37
Atualizado 20 Dezembro 2018 | 15h51

WASHINGTON - Os Estados Unidos começaram nesta quarta-feira, 19, a retirar suas forças militares da Síriae o presidente americano, Donald Trump, voltou a defender a volta de todos os 2 mil soldados que ainda estão no país. Segundo ele, os “EUA derrotaram” o Estado Islâmico. A decisão, porém, é contestada por militares de alta patente. Analistas acreditam que a retirada pode permitir o renascimento do EI, favorecer Irã e colocar os curdos em risco.

“Derrotamos o EI na Síria, minha única razão para estar lá durante a presidência”, escreveu Trump no Twitter. Momentos depois, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, disse que parte dos soldados já está voltando para casa e uma “nova fase” da campanha americana no país vai começar, mas não deixou claro quantos permaneceriam na Síria. 

O debate já ocorreu uma vez. em 2017, mas uma retirada total opõe o presidente ao Pentágono e a Israel, que acreditam que ela reforçaria a presença na Síria dos russos e dos iranianos, que lutam ao lado do Exército do ditador Bashar Assad.

Além de ser uma vitória para Assad, que desde a entrada da Rússia como aliada, em 2015, recuperou território e garantiu sua permanência no poder, a retirada pode ajudar o Irã. Também aliados dos russos e apoiadores de Assad, os iranianos usam partes do território sírio para transportar armas e soldados para o Oriente Médio, inclusive para o Hezbollah, no Líbano. O secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, e altos funcionários do Pentágono ainda tentam convencer o presidente a não retirar todos os soldados. 

Há duas preocupações principais. Primeiro, há sinais de um paulatino ressurgimento do EI, um reagrupamento militar ordenado que, se não for sufocado, pode criar uma nova onda de conquistas territoriais. Nos últimos dois anos, o EI perdeu cerca de 90% do território que havia conquistado entre 2014 e 2015. Mas, segundo o Pentágono, o EI tem 30 mil soldados entre a Síria e o Iraque.

A segunda preocupação são os aliados americanos. A retirada seria uma traição aos curdos das Forças Democráticas da Síria, que tiveram papel fundamental na expulsão do EI de seus redutos no país. Sem a proteção americana, os curdos ficariam vulneráveis à ofensivas militares da Turquia, que os associa à guerrilha separatista curda turca do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). 

Os curdos almejam criar um Estado próprio numa vasta extensão territorial que inclui partes da Síria, do Iraque, do Irã, da Turquia e da Armênia. Eles são organizados em diversos grupos e países. 

Hoje, as Forças Democráticas da Síria, lideradas pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG) curdas, controlam 30% do território sírio. Combatê-las nunca foi uma prioridade para o regime de Assad. Para Damasco, a prioridade é acabar com os grupos de oposição jihadistas, apoiados pela Arábia Saudita. 

Nos últimos dias, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, prometeu lançar uma nova ofensiva contra os curdos na Síria. O objetivo da Turquia é estabelecer uma “zona segura” entre o território controlado pelos curdos e a fronteira turca. O ataque poderia colocar as tropas dos EUA em perigo, especialmente se eles defenderem seus aliados curdos. Em vez de lidar com o dilema, Trump pode ter pensado que é melhor sair agora.

“A missão militar americana na Síria se tornou muito confusa, cheia de riscos e requer avaliação”, afirmou ao site Vox Mara Karlin, analista de segurança que trabalhou por mais de uma década no Pentágono. “Mas terminá-la unilateralmente, sem coordenação significativa com nossos aliados, é imprudente e pode causar um efeito cascata regional.”

O Pentágono e o Departamento de Estado relutam em deixar a Síria antes de um acordo de paz definitivo. Em uma série de reuniões e teleconferências ao longo dos últimos dias, Mattis e outras autoridades da área de segurança tentaram dissuadir Trump da ideia. Uma possibilidade em discussão, segundo autoridades, seria uma retirada gradual dos soldados americanos. Mas Trump parece preferir retirar todas as suas forças o mais rápido possível. / W.POST, NYT e AFP

 

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