Trump pode deixar legado vergonhoso se sair rapidamente da Síria

Presidente tem oportunidade de mudar de rumo, sem se comprometer a reconstruir a Síria, mas mostrando gratidão aos curdos pela ajuda na derrota do Estado Islâmico

Eli Lake / W. Post, O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 05h00

O ataque do regime de Bashar Assad a Duma parece minar a própria intenção simplista dos EUA de deixar rapidamente a Síria. Se Donald Trump for adiante com a advertência a Assad, Rússia e Irã, ele estará levando a missão dos EUA na Síria além do objetivo de combater o Estado Islâmico (Rússia e Irã também lutam contra o EI e afirmam que a oposição a Assad vem desses jihadistas ensandecidos). 

Trump usou forças especiais, bombardeiros e aliados dos EUA (principalmente os curdos) para destruir bases do EI na Síria. Isso é positivo. Entretanto, como Barack Obama, Trump vem tendo o cuidado de não perturbar os planos sinistros da coalizão Rússia-Irã-Assad de tentar consolidar o poder no país que vem sendo destroçado desde 2011. Não se trata apenas de ataques com gás. A cidade de Ghouta, como Alepo anteriormente, está sob sítio. Alimentos e remédios não têm chegado a moradores. 

Há também o problema da expulsão de sírios. Mais da metade da população ficou sem casa. O ditador sírio propôs recentemente uma lei que permite ao governo apropriar-se de casas abandonadas. Mouaz Mustafa, diretor da Força-Tarefa Emergencial Síria, disse isso possibilitará ao regime recompensar seus aliados iranianos com as residências de famílias de milicianos forçadas a fugir. 

Esse quadro assustador deveria levar o mundo civilizado a se unir contra a barbárie, mas os EUA têm uma responsabilidade especial. Apesar das vitórias de Assad e seus protetores russos e iranianos na Síria, a guerra está longe do fim. O leste do Rio Eufrates, por exemplo, que os EUA e aliados curdos libertaram do EI, ainda não está com Assad.

Trump tem aqui uma oportunidade de também mudar de rumo. Ele não precisa se comprometer a reconstruir a Síria. Mas no mínimo poderia mostrar gratidão aos curdos pela ajuda na derrota do EI. Isso exigiria uma política de pelo menos proteger o leste da Síria da máquina de guerra de Assad.

A alternativa é a catástrofe e a desonra. Se Trump insistir em sua promessa de sair da Síria, estará deixando povos que libertou do EI expostos à expulsão e ao massacre. Estará ajudando o Irã a concluir sua ponte terrestre para o Mediterrâneo. E terá comprometido sangue e recursos em favor da estratégia dos inimigos dos EUA. Tal legado envergonharia qualquer presidente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

* É JORNALISTA

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