Alex Brandon / AP
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Trump pode ter triunfo em política externa se fechar acordo com Irã

Caso isso venha a ocorrer, Trump poderá afirmar que, embora tenha adotado um enfoque não convencional, conseguiu o que ninguém achava possível

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 05h00

Donald Trump parte para o seu quarto assessor de segurança nacional em menos de três anos e fica claro que a sua política externa está em frangalhos. Apesar de todas as bravatas do presidente não há neste momento nenhum acordo com China, Irã, Coreia do Norte, com o Taleban ou entre israelenses e palestinos.

Trump informou ao mundo que era um excelente negociador. Mas além de mudanças insignificantes no caso do Nafta (acordo comercial para a América do Norte) e um pacto comercial com a Coreia do Sul, Trump fez pouco. E existem muitas razões. Seu governo tem sido caótico e indisciplinado.

A rotatividade da equipe de alto escalão foi maior em dois anos e meio do que em muitas administrações durante todos os seus anos de mandato.

O problema central é que Trump, apesar das suas bravatas, é um mau negociador. No caso de Kim Jong-un e do Taleban, ele cedeu um poder de influência crucial desde o início. Os norte-coreanos queriam reuniões diretas com o presidente dos EUA havia décadas e a resposta sempre foi que isso ocorreria apenas depois de eles fazerem concessões.

Trump esperou com charme convencer Kim a renunciar a suas armas nucleares. Até agora Kim está vencendo por um a zero.

No caso do Afeganistão, Trump condenou Obama por anunciar prazos para a retirada de tropas americanas, alegando que isso permitiria ao inimigo ficar à espreita. Mas fez algo similar, anunciando repetidamente sua vontade de se retirar e sendo surpreendido pelo fato de que o Taleban procurou tirar vantagem disso.

Analise a confusão: Trump demitiu o assessor de segurança nacional John Bolton aparentemente porque Bolton foi contra um acordo com o Taleban. Mas cancelou as conversações com o Taleban, concordando efetivamente com Bolton.

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Com a saída de Bolton, Trump tem a oportunidade de realmente fazer alguma coisa - um novo acordo nuclear com o Irã. O restabelecimento de sanções determinado por ele tem sido surpreendentemente e brutalmente eficaz.

O Irã simplesmente não consegue fazer grandes transações sem usar o dólar, e assim, o sistema financeiro dos EUA.

O Irã é uma antiga e orgulhosa civilização e uma potência regional sagaz. Não irá se render. Mas poderá concordar com um novo acordo. Caso isso venha a ocorrer, Trump poderá afirmar que, embora tenha adotado um enfoque não convencional, conseguiu o que ninguém achava possível.

Para isso dar certo, Trump terá de vencer seus assessores mais beligerantes e encontrar um caminho para uma real negociação. Os iranianos provavelmente só se sentarão à mesa se as sanções forem suspensas durante as conversações.

E desejarão redigir todas as mudanças feitas como medidas adicionais para implementação do acordo de 2015, e não como um novo pacto.

O objetivo de Trump deve ser a anuência dos iranianos a uma ampliação do espaço de tempo no caso de partes do acordo em aproximadamente cinco anos.

Negociação sobre papel do Hezbolah é possível

Ele não conseguirá muitos avanços no tocante ao arsenal de mísseis balísticos do Irã - Teerã considera seu arsenal uma defesa contra o enorme Exército saudita (o país tem amargas lembranças do tempo em que ficou impotente diante de Saddam Hussein durante a guerra Irã-Iraque).

Quanto às outras atividades regionais do Irã, seu apoio ao Hezbollah, por exemplo - talvez os iranianos se mostrem dispostos a conversar, mas Trump tem de analisar se esse assunto levará a uma conversa interminável envolvendo Israel e o Oriente Médio.

Além disso, caso o Irã concorde com alguma contenção nestas áreas, os EUA terão de reciprocamente fazer concessões - digamos, um abrandamento de outras sanções impostas ao Irã. Duvido que Trump ou o Congresso estejam dispostos a isso.

E o mais importante, para conseguir um acordo com o Irã, Trump tem de trabalhar contra seu impulso fundamental de sempre clamar vitória.

Talvez isso funcione nas atividades comerciais onde há uma única transação, embora explique a razão de tão poucas pessoas voltarem a fazer negócios com ele novamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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