Frederic J. Brown/AFP
Frederic J. Brown/AFP

Trump põe em xeque sonho republicano

Ameaça do magnata de se candidatar como independente complica conservadores

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2015 | 06h00

Prestes a se enfrentar em seu primeiro debate na televisão, os pré-candidatos republicanos têm uma missão coletiva se quiserem que qualquer um deles chegue à Casa Branca: conter o fator Donald Trump. O magnata embaralhou a disputa à presidência dos EUA e ameaça sair como candidato independente, uma atitude que também teria grande consequência para o Partido Republicano. 

O primeiro debate, quinta-feira na Fox News, será decisivo para mostrar quem tem força para seguir lutando pela indicação da legenda para a disputa, apesar de a eleição ocorrer somente no ano que vem. Apenas 10 dos 17 pré-candidatos poderão participar do debate e o critério é o desempenho nas pesquisas de intenção de voto, que Trump passou a liderar com folga com relação ao segundo colocado, Jeb Bush. 

“O Partido Republicano está tendo um colapso nervoso agora e não sabe o que fazer. Eles não têm um plano B”, afirmou ao Estado o professor de história da política americana da Universidade de Boston, Thomas Whalen. 

O professor lembra que havia uma crença de que a próxima eleição seria outra disputa de um Bush contra um Clinton, se referindo à ex-secretária de Estado, Hillary, provável candidata democrata, e ao irmão de George W., pré-candidato republicano. No entanto, Trump, que vem irritando muita gente com declarações controversas e preconceituosas desde que lançou sua candidatura, em junho, mudou os rumos da disputa. “Os democratas não poderiam estar mais felizes”, diz Whalen. 

Ao apelar para a base mais conservadora, especialmente com as críticas aos imigrantes nos EUA, Trump ameaça alienar o voto latino. Como reiterou o professor, será praticamente impossível o Partido Republicano chegar à Casa Branca sem ganhar o voto hispânico.

Esse discurso à extrema direita, explica Whalen, funciona muito bem para a indicação do partido, que tem uma grande parcela de eleitores conservadores, mas será um desastre nas eleições gerais, quando precisará dos moderados e dos independentes. “É a receita para a derrota.”

O debate, segundo a cientista política Lynn Vavreck, da Universidade da Califórnia, será a oportunidade para um ou dois dos pré-candidatos melhor colocados se sobressair e ganhar mais atenção. Quem sabe, depois, subir nas pesquisas e se aproximar de Trump. 

Segundo Whalen, os candidatos se armarão com tudo que puderem para chamar a atenção do público, já muito focada em Trump. Por outro lado, destaca Whalen, esses adversários não podem radicalizar demais o discurso. Se não mudarem a abordagem sobre imigração, por exemplo, poderão liquidar as chances do partido. 

Ele lembra o caso de Mitt Romney, que concorreu com Barack Obama em 2012. Moderado, endureceu seu discurso para garantir a indicação republicana. Depois, diz o professor, Romney não teve tempo de recuperar seus eleitores e ainda foi criticado por mudar demais suas posições. “Se quiserem ganhar as eleições gerais, eles têm de se voltar para o centro. Isso vale para os dois partidos.”

No entanto, se com Trump está complicado, pior ainda será se ele decidir se lançar como independente. Ele apelaria aos eleitores conservadores dos dois partidos, mas afetaria muito mais o republicano. Na opinião de Lynn, é muito difícil conquistar votos de delegados do Colégio Eleitoral em uma candidatura independente e o eleitor sempre tem medo de “desperdiçar” o voto em quem não pode vencer. Mas é algo que não está descartado. 

Whalen lembra que outros candidatos insurgentes – democratas e republicanos – já tentaram a façanha antes. Ele lembrou o caso de sucesso do bilionário texano Ross Perot, que em 1992 obteve quase 20% dos votos, facilitando a vitória do democrata Bill Clinton. 

“O que o torna diferente de casos de insurgentes do passado é que, além da quantidade de dinheiro que tem à sua disposição, ele já atraiu muita atenção não só da mídia tradicional, mas das mídias sociais também”, afirma o professor, explicando que isso já o tornou um candidato “muito familiar” aos eleitores.


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