Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

Trump põe metas em risco ao atacar republicanos

Presidente dos EUA bate boca com senador do próprio partido e arrisca perder maioria legislativa crucial para aprovar sua agenda

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2017 | 05h00

A tensão entre Donald Trump e os congressistas de seu próprio partido se aprofundou desde o domingo, quando um dos mais proeminentes senadores republicanos questionou em público o preparo do bilionário para ser presidente e afirmou que seu comportamento impulsivo pode provocar uma 3.ª Guerra.

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Trump respondeu com ataques no Twitter. No mais recente, postado ontem, ele ridicularizou a altura de Bob Corker, o senador do Tennessee de 1,70m que preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado. A troca de farpas ocorreu a poucos dias da votação do Orçamento no Congresso, cuja aprovação é fundamental para o sucesso da proposta de reforma tributária delineada pela Casa Branca no mês passado.

Com 52 das 100 cadeiras do Senado, os republicanos têm uma margem estreita e não podem perder mais do que dois votos. Corker é um conservador do ponto de vista fiscal e manifestou reservas em relação ao projeto tributário, que corta US$ 1,5 trilhão em impostos, mas não detalha como o buraco será coberto.

Quase nove meses depois da posse, Trump não conquistou nenhuma vitória de peso no Congresso. Sua principal promessa de campanha, revogar o Obamacare, naufragou no Senado em razão da dissidência de três republicanos. Ainda assim, o presidente atacou Corker em uma série de tuítes. Trump disse que o senador “implorou” por seu apoio na disputa do próximo ano e não teve coragem de se candidatar à reeleição quando ele foi negado.

O senador respondeu na mesma mídia social. “É uma pena que a Casa Branca tenha se tornado uma creche para adultos. Alguém obviamente não foi trabalhar nesta manhã.” Horas mais tarde, Corker deu uma entrevista ao jornal New York Times, na qual afirmou que Trump trata a presidência como um reality show. “Ele me preocupa. Deveria preocupar qualquer um que se importa com nossa nação.”

O senador negou que tenha implorado pelo apoio de Trump e descreveu o presidente como um mentiroso contumaz. “Eu não sei por que o presidente tuíta coisas que não são verdadeiras”, disse.

“Corker é cético em relação ao impacto do corte de impostos sobre o déficit público e Trump precisa de todo o apoio possível para sua reforma tributária. Esse não é um bom momento, do ponto de vista legislativo, para ter uma briga com senadores republicanos”, disse Kyle Kondik, do Centro para Política da Universidade da Virgínia.

Existem dúvidas sobre a posição de outros dois republicanos na votação da reforma tributária: o libertário Rand Paul e o veterano de guerra John McCain, alvo de ataques do presidente. No entanto, os arroubos de Trump, seu comportamento errático e sua tendência de criticar parlamentares de seu partido podem ter um efeito mais amplo. 

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“O maior dano que Trump está provocando agora é que os republicanos estão perdendo confiança em sua capacidade de contribuir para o processo legislativo”, disse o cientista político Arthur Lupia, professor da Universidade de Michigan. Ainda assim, ele vê chances de aprovação de alguma versão da reforma tributária. “Os republicanos estão desesperados por uma conquista legislativa e essa pode ser sua maior chance.”

Na opinião do historiador Julian Zelizer, da Universidade Princeton, o choque entre Trump e Corker vai além das divergências entre presidente e partido. “Corker está questionando publicamente se ele é qualificado para ser presidente, do ponto de vista emocional e mental. Isso é diferente do que vimos antes.”

Ao New York Times, o senador disse que suas declarações refletiam preocupações que a maioria de sua bancada expressa em conversas privadas. “Não creio que ele esteja sozinho”, observou Zelizer. O que deu a Corker a liberdade de se manifestar publicamente foi sua decisão de não se candidatar à reeleição no próximo ano.

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