REUTERS/Jonathan Ernst (E) Aaron P. Bernstein (D)
REUTERS/Jonathan Ernst (E) Aaron P. Bernstein (D)

Trump põe um linha-dura contrário ao pacto com Irã para chefiar diplomacia

Presidente americano demite Rex Tillerson, que se atrevia a discordar de algumas de suas posições, e coloca no lugar o diretor da CIA, Mike Pompeo, conhecido pela agressividade em política externa

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

13 Março 2018 | 20h27

O presidente Donald Trump demitiu nesta terça-feira, 13, o secretário de Estado, Rex Tillerson, e colocou no comando da diplomacia americana o atual diretor da CIA, Mike Pompeo, um “falcão” mais alinhado com sua agressiva visão de mundo. Ambos são contundentes críticos do acordo em torno do programa nuclear do Irã, que Trump mencionou como um dos exemplos das divergências que o levaram a afastar Tillerson.

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 Para o lugar de Pompeo, o presidente nomeou Gina Haspel, que será a primeira mulher a dirigir a CIA. Depois do atentado de 11 de setembro de 2001, ela dirigiu uma prisão clandestina da agência na Tailândia que usava tortura em interrogatórios de suspeitos de terrorismo.

Assessores de Trump disseram que a mudança ocorreu agora porque o presidente gostaria de ter seu “novo time” no Departamento de Estado para preparar o encontro que ele planeja ter em maio com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un. Tillerson estava na África quando a reunião foi anunciada e não foi consultado por Trump.

No domingo, Pompeo afirmou que os EUA não farão nenhuma concessão a Pyongyang e exigirão a desnuclearização da Península Coreana. Mas ele e sua equipe na CIA estavam entre os mais céticos na administração em relação à possibilidade de sucesso de conversas diplomáticas com Kim.

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Durante a campanha, Trump prometeu que abandonaria o acordo nuclear com o Irã, que também foi assinado por China, Rússia, França, Inglaterra e Alemanha em 2015, na gestão Barack Obama. Mas o pacto continua em vigor, graças em parte à posição de Tillerson favorável a sua manutenção. 

“Eu e Rex temos conversado sobre isso há algum tempo”, disse Trump na Casa Branca, depois de anunciar a demissão do secretário de Estado no Twitter. “Nós nos damos bem, na verdade muito bem, mas nós discordamos em (certos) assuntos. Quando você olha para o acordo do Irã, eu acho que é terrível e suponho que ele pense que é ok. Eu quero rompê-lo ou fazer alguma coisa e ele tinha uma posição um pouco diferente.”

Quando o acordo foi assinado, Pompeo era senador e fez tudo o que pôde para tentar inviabilizá-lo. Em entrevista concedida no fim de 2014, ele defendeu bombardeios como uma alternativa viável ao pacto. “São necessários menos de 2.000 lançamentos para destruir a capacidade nuclear iraniana. Esse não é um obstáculo intransponível para as forças da coalizão”, declarou, sugerindo que uma ação do tipo teria apoio de aliados dos EUA.

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Trump está isolado na questão iraniana. Todos os demais signatários do pacto defendem a sua manutenção, sob o argumento de que Teerã está cumprindo o que prometeu. Logo depois que o presidente deu aval inicial à manutenção do acordo, em meados do ano passado, Pompeo manifestou a expectativa de que a posição mudaria no futuro. “Quando nós definirmos nossa estratégia, eu estou confiante de que vamos ver uma mudança fundamental”, declarou durante fórum de segurança do Aspen Institute.

Melvyn Levitsky, professor de Relações Internacionais da Universidade de Michigan, avaliou que Pompeo não terá o papel de “força moderadora” dos impulsos de Trump desempenhado hoje por Tillerson e o secretário de Defesa, James Mattis. 

“O ponto positivo é que ele é próximo do presidente. Mas se ele tiver uma visão que é estritamente coincidente com a de Trump ou não se manifestar quando discordar dela, isso pode ser negativo”, afirmou Levitsky, que foi embaixador dos EUA no Brasil nos anos 90. Em sua opinião, Trump é “errático e impetuoso” e precisa de assessores que sejam capazes de questionar suas decisões.

O acordo com o Irã é o ponto em que pode haver maior mudança na política externa dos EUA com a troca de comando no Departamento de Estado, afirmou Hal Brands, professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins. “Rex Tillerson não era um secretário de Estado forte, mas ele era um dos principais conselheiros do presidente que se posicionavam contra a saída dos EUA do acordo.”

Ex-CEO da Exxon Mobil, Tilleson não foi informado com antecedência de que seria afastado. “O secretário não falou com o presidente nesta manhã e não está ciente do motivo (da demissão)”, disse o subsecretário de Estado para Diplomacia Pública, Steve Goldstein. 

Em seu discurso de despedida, Tillerson não fez nenhum agradecimento a Trump e deu uma resposta indireta à maneira com que foi tratado ao falar dos valores que promoveu, entre os quais mencionou “respeito mútuo”. O secretário ficará no cargo até o dia 31, enquanto Pompeo passa pelo processo de confirmação pelo Senado.

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