Paul A. Robbins/Forest Service/W.Post
Paul A. Robbins/Forest Service/W.Post

Trump pressiona para liberar exploração madeireira em Tongass, maior floresta dos EUA

A medida afetaria uma abrangente política da administração Clinton de proteção ambiental, conhecida como Roadless Rulle, que tem sobrevivido a décadas de ataques legais

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 07h45

O presidente americano, Donald Trump, instruiu seu secretário da Agricultura, Sonny Perdue, a tentar liberar mais da metade da Floresta Nacional de Tongass, no Alasca, de restrições de desmatamento impostas há quase 20 anos. A informação foi divulgada pelo jornal The Washington Post, citando três pessoas com conhecimento no assunto, após uma discussão privada entre o presidente e o governador do Estado, Michael Dunleavy. 

A medida, se avançar, sujeitará parte da Tongass, de 16,7 milhões de acres, a potenciais projetos de extração de madeira, energia e mineração. A medida afetaria uma abrangente política da administração Clinton de proteção ambiental, conhecida como Roadless Rulle, que tem sobrevivido a décadas de ataques legais. A política, assinada dias antes de o presidente deixar o cargo, em 2001, impediu a construção de estradas em mais de 50 milhões de acres de florestas nos EUA

De acordo com o Post, Trump assumiu um interesse pessoal sobre "manejo florestal", um termo que ele disse no ano passado ter "redefinido" desde que assumiu o cargo, em 2017.

Políticos têm, há anos, disputado o destino da Tongass, um enorme trecho do sudeste do Alasca repleto de antigos pinheiros, cedros e rios ricos em salmão. O presidente George W. Bush tentou reverter a política de Clinton, mas foi impedido por um juiz federal.

A decisão de Trump tem um peso, no momento em que os funcionários do Serviço Florestal haviam planejado mudanças no sentido contrário para o gerenciamento da floresta, retomando uma batalha que o governo anterior pretendia resolver.

Em 2016, no governo Obama, a agência finalizou um plano para eliminar gradualmente  a prática de extração de madeira na Tongass em até uma década. O Congresso determinou que mais de 5,7 milhões de acres da floresta devem permanecer protegidos sob quaisquer circunstâncias. Se o plano de Trump for bem sucedido, isso poderá afetar 9,5 milhões de acres.

A madeira corresponde a uma pequena fração dos empregos no sudeste do Alasca - pouco menos de 1%, de acordo com a organização de desenvolvimento regional Southeast Conference, comparado aos 8% do processamento de frutos do mar e aos 17% do turismo. 

Mas os habitantes do Alasca, incluindo o governador republicano e a senadora Lisa Murkowski, do mesmo partido, pressionam Trump a isentar seu Estado da regra ambiental, que não permite estradas, exceto quando o Serviço Florestal aprova projetos específicos, e impede a extração comercial de madeira. 

Em um comunicado, Murkowski disse que toda a delegação do Alasca no Congresso e o governador procuraram bloquear a política de Clinton. “Nunca deveria ter sido aplicada ao nosso Estado e está prejudicando nossa capacidade de desenvolver uma economia sustentável para a região Sudeste, onde menos de 1% da terra é privada”, disse ela. 

Os líderes do Alasca encontraram agora um poderoso aliado no presidente Trump. Falando a repórteres em 26 de junho, após se encontrar com ele durante uma escala do Air Force One para reabastecimento na Base Aérea de Elmendorf, o governador disse que o presidente "acredita nas oportunidades no Alasca". "Ele tem feito tudo o que pode para trabalhar conosco em nossas preocupações de mineração, de extração de madeira; falamos sobre as tarifas também. Estamos trabalhando em um monte de coisas juntos, mas o presidente se importa muito com o Estado do Alasca."

Trump expressou apoio para derrubar as isenções em Tongass durante a conversa com o governador, de acordo com três pessoas que falaram sob condição de anonimato sobre o assunto. No início deste mês, Trump disse a seu secretário para emitir um plano com esse objetivo, segundo as fontes.

Não está claro quanto de extração de madeira ocorreria na Tongass se as restrições federais fossem levantadas porque o Serviço Florestal teria de alterar seu plano de manejo para uma potencial nova venda de madeira. O plano de 2016 identificou 962.000 acres como adequados para exploração comercial e sugeriu que não mais do que 568.000 acres deveriam ser utilizados.

John Schoen, um ecologista aposentado da vida selvagem que trabalhou na Tongass para o Departamento de Pesca e Caça do Alasca, foi coautor de um documento de pesquisa de 2013 que descobriu que aproximadamente metade das grandes árvores antigas da floresta tinham sido derrubadas no século passado. As grandes árvores remanescentes fornecem um hábitat crítico para os ursos marrons, os cervos Sitka, uma ave de rapina chamada North Goshawk e outras espécies, acrescentou.

Trump tem conversado frequentemente com seus assessores sobre como administrar as florestas do país e assinou uma ordem executiva no ano passado com o objetivo de aumentar a exploração madeireira, agilizando as revisões ambientais federais desses projetos. 

O presidente foi amplamente ridicularizado depois de sugerir durante uma visita a Paradise, a comunidade californiana devastada por um incêndio em 2018, que os Estados Unidos poderiam conter esses desastres seguindo o modelo da Finlândia, que não sofre graves incêndios florestais porque o país nórdico dedica "muito tempo" a capinar suas florestas. / W. POST

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