Doug Mills/NYT
Doug Mills/NYT

Trump pressionou Departamento de Justiça para alegar fraude eleitoral, diz jornal

'Deixe o resto comigo' e com os aliados do Congresso, disse o ex-presidente aos integrantes do Departamento, segundo documentos obtidos pelo The New York Times

Katie Benner, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 13h27
Atualizado 30 de julho de 2021 | 13h38

WASHINGTON - O ex-presidente americano Donald Trump pressionou altos funcionários do Departamento de Justiça no final do ano passado a declararem que a eleição foi fraudada, embora eles não tivessem encontrado evidências de fraude generalizada. A intenção de Trump seria usar essas alegações do Departamento de Justiça para que ele e seus aliados no Congresso pudessem anular os resultados da eleição, segundo novos documentos fornecidos aos congressistas americanos e obtidos pelo jornal The New York Times.

Os pedidos são mais um exemplo de um presidente interferindo em uma agência que normalmente é independente da Casa Branca para promover sua agenda pessoal. Eles também são o exemplo mais recente da ampla campanha de Trump durante suas últimas semanas no cargo para deslegitimar os resultados eleitorais.

Os pedidos aconteceram durante um telefonema em 27 de dezembro no qual Trump pressionou o procurador-geral da época, Jeffrey A. Rosen, e seu vice, Richard Donoghue, sobre as alegações de fraude eleitoral, que o departamento havia refutado. Donoghue advertiu que o Departamento de Justiça não tinha poder para alterar o resultado da eleição. Trump respondeu que não esperava isso, segundo as anotações que Donoghue fez para lembrar a conversa. “Basta dizer que a eleição foi fraudada, deixe o resto comigo” e com os aliados do Congresso, Donoghue escreveu resumindo a resposta de Trump.

Trump não deu nome aos legisladores aliados, mas em outros momentos durante a ligação ele mencionou o deputado Jim Jordan, de Ohio, a quem descreveu como um “lutador”; o deputado Scott Perry, da Pensilvânia, que na época promoveu a ideia de que a eleição foi roubada de Trump; e o senador Ron Johnson, de Wisconsin, a quem Trump elogiou por "chegar ao fundo das coisas".

O Departamento de Justiça forneceu as anotações de Donoghue ao Comitê de Supervisão e Reforma da Câmara, que está investigando os esforços do governo Trump para reverter ilegalmente os resultados eleitorais.

As anotações conectam os aliados de Trump no Congresso com sua campanha para pressionar os funcionários do Departamento de Justiça a ajudar a minar, ou mesmo anular, os resultados eleitorais.

Os legisladores não responderam aos pedidos de comentários feitos pelo The New York Times. No final das contas, Jordan votou para anular os resultados das eleições em Estados-chave, mas minimizou seu papel na campanha de pressão do presidente. Perry continua a afirmar que Trump venceu as eleições, mas não está vinculado aos esforços da Casa Branca para mantê-lo no cargo. E Johnson, cuja campanha Trump recentemente endossou, afirma que “é razoável ter dúvidas sobre a integridade da eleição”, embora tenha reconhecido Joe Biden como presidente.

Interferência de Trump na eleição

Normalmente, o departamento de Justiça tenta manter em segredo qualquer relato de discussões privadas entre um presidente e seu gabinete. A medida serve para evitar abrir precedentes que impeçam funcionários de governos futuros a aconselharem presidentes com franqueza por temer que suas conversas se tornem públicas.

Mas entregar as anotações ao Congresso é parte de um padrão adotado para permitir o escrutínio dos esforços de Trump para anular a eleição. O Departamento de Justiça de Biden também disse a Rosen, Donoghue e outros ex-funcionários nesta semana que eles poderiam fornecer testemunho irrestrito aos investigadores dos Comitês de Supervisão e Reforma da Câmara e do Senado.

O departamento argumentou que os investigadores do Congresso estavam examinando possíveis delitos cometidos por um presidente em exercício, uma circunstância extraordinária, segundo cartas enviadas aos ex-funcionários. Como o “privilégio de estar no Poder Executivo se destina a beneficiar o país, em vez do presidente como um indivíduo”, invocar esse privilégio para deixar documentos em sigilo em vez de denunciar os esforços de Trump para promover sua agenda pessoal seria inadequado, concluiu o departamento.

“Essas notas manuscritas mostram que o presidente Trump instruiu diretamente a principal agência de aplicação da lei de nosso país a tomar medidas para derrubar uma eleição livre e justa nos últimos dias de sua presidência”, disse a deputada Carolyn Maloney, democrata de Nova York e presidente do Comitê de Supervisão e Reforma da Câmara.

A conversa de Trump com Rosen e Donoghue refletiu seu foco obstinado em reverter os resultados eleitorais. Em um ponto, Trump alegou “fraude eleitoral na Geórgia, Michigan, Nevada e Arizona”, que ele chamou de "eleições corrompidas". Donoghue retrucou.

“Muitas das informações que você está recebendo são falsas”, disse Donoghue, acrescentando que o departamento conduziu “dezenas de investigações, centenas de entrevistas” e não encontrou evidências para apoiar suas afirmações. “Analisamos as alegações, mas elas estão incorretas”, disseram as autoridades a Trump, de acordo com as anotações.

Em suas investigações, o departamento descobriu que a taxa de erro na contagem dos votos em Michigan era de 0,0063%, não os 68% que o presidente afirmou; não encontrou evidências de uma teoria da conspiração de que um funcionário na Pensilvânia havia adulterado as cédulas; e depois de examinar o vídeo e entrevistar testemunhas, não encontrou evidências de fraude eleitoral no condado de Fulton, Geórgia, de acordo com as anotações.

Trump, sem se intimidar, descartou as descobertas do departamento. “Ok, tudo bem - mas e os outros?”. Donoghue escreveu em suas anotações, descrevendo as observações do presidente. Trump pediu a Donoghue que viajasse ao Condado de Fulton para verificar as assinaturas nas cédulas. As pessoas “dizendo que a eleição não foi fraudada são corruptas”, disse Trump às autoridades, acrescentando que elas precisavam agir. "Não resta muito tempo."

Em outro ponto, Donoghue disse que o departamento poderia rapidamente verificar ou refutar a afirmação de que houve mais votos na Pensilvânia do que eleitores. “Deveria ser capaz de verificar isso rapidamente, mas entenda que o DOJ não pode e não vai estalar os dedos e mudar o resultado da eleição, não funciona dessa maneira”, escreveu Donoghue em suas anotações.

As autoridades também disseram a Trump que o Departamento de Justiça não tinha evidências para apoiar um processo relacionado aos resultados eleitorais. “Não estamos em uma posição com base nas evidências. Só podemos agir com base nas evidências reais desenvolvidas”, disseram.

Trump castigou as autoridades, dizendo que "milhares de pessoas ligaram" para os escritórios do procurador-geral dos EUA para reclamar da eleição e que "ninguém confia no F.B.I." Ele disse que “as pessoas estão com raiva - culpando o Departamento de Justiça por inação.” “Vocês podem não estar acompanhando a internet como eu”, disse Trump, de acordo com o documento.

Em um momento de prenúncio, Trump disse: "as pessoas me dizem que Jeff Clark é ótimo, eu deveria colocá-lo no cargo", referindo-se ao chefe interino da divisão civil do Departamento de Justiça, que também encorajou funcionários do departamento a intervir na eleição . “As pessoas querem que eu substitua a liderança do Departamento de Justiça”. 

“Você deve ter a liderança que deseja”, respondeu Donoghue. Mas isso "não mudará a posição do Departamento". Donoghue e Rosen não sabiam que o deputado Scott Perry, da Pensilvânia, aliado de Trump, havia apresentado Clark e Trump. Exatamente uma semana depois, eles se viram forçados a lutar por seus empregos em um confronto no Salão Oval com a presença de Clark.

Durante a ligação, Trump também disse aos funcionários do Departamento de Justiça para "descobrir o que fazer" com Hunter Biden, filho do presidente Biden. “As pessoas vão criticar o Departamento de Justiça se ele não for investigado de verdade”, disse Trump, violando as diretrizes de longa data contra a interferência da Casa Branca em investigações criminais ou outras ações de aplicação da lei.

Dois dias após o telefonema com Trump, Donoghue tomou nota de uma reunião entre funcionários do Departamento de Justiça, com a presença do chefe de gabinete de Trump, Mark Meadows, o advogado da Casa Branca, Pat Cipollone, e o vice-conselheiro da Casa Branca Patrick Philbin para discutir uma teoria da conspiração conhecida como “Italygate”, que afirma, sem evidências, que as pessoas na Itália usaram tecnologia militar para interferir remotamente na votação por máquinas nos Estados Unidos.

Os funcionários do Departamento de Justiça disseram à Casa Branca que designaram alguém para examinar o assunto, segundo as notas e uma pessoa informada sobre a reunião. Eles não mencionaram que o Departamento estava investigando a teoria para desmascará-la, disse a pessoa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.