AFP PHOTO / SAUL LOEB
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Trump proíbe transgêneros de servir nas Forças Armadas dos EUA

Em tuítes publicados na manhã desta quarta-feira, presidente americano afirmou que militares devem estar focados em 'vitórias decisivas e esmagadoras' e não podem ser sobrecarregados com 'custos e perturbações médicas'

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2017 | 10h24
Atualizado 26 Julho 2017 | 22h10

Em outra reversão de políticas de Barack Obama, o presidente Donald Trump anunciou nesta quarta-feira que transgêneros não poderão servir nas Forças Armadas americanas em “nenhuma condição”.

O anúncio surpreendeu o Pentágono, causou indignação entre ativistas LGBT e foi criticado por congressistas republicanos, entre eles o veterano de guerra John McCain, presidente da Comissão de Serviços Armados do Senado.

 A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sander, não soube explicar o que acontecerá com os soldados que estão na ativa, alguns deles no Afeganistão e no Iraque. Estudo no ano passado da Rand Corporation, a pedido do Departamento de Defesa, estimou que havia 2.450 militares transgêneros nos EUA, em um contingente total de 1,3 milhão. Outros 134 mil integram a população de 22 milhões de veteranos.

 

“Nossas Forças Armadas devem estar focadas em vitórias decisivas e esmagadoras e não podem ser oneradas com os tremendos custos médicos e transtornos que transgêneros nas Forças Armadas implicariam”, disse Trump ao anunciar a medida no Twitter.

Em junho do ano passado, Obama decidiu que soldados que mudaram de sexo poderiam servir de maneira aberta nas Forças Armadas. O senador republicano John McCain discordou de Trump. “Não há nenhuma razão para forçar militares que são capazes de lutar, treinar e se deslocar a deixar as Forças Armadas, independentemente de sua identidade de gênero”, afirmou o senador em nota. 

Desde 1.º de outubro, soldados transgêneros podiam receber cuidados médicos e dar início ao processo burocrático para terem sua identidade de gênero alterada no sistema de pessoal do governo. Ao menos 250 militares da ativa já estão no processo de transição para seus gêneros preferidos ou foram aprovados formalmente para que conduzam a mudança no sistema pessoal do Pentágono, afirmaram fontes da Defesa dos EUA.

Estudo da Rand estima que o Pentágono gastaria entre US$ 2,9 milhões a US$ 8,4 milhões ao ano em cirurgias de mudança de sexo. O orçamento de assistência médica do Departamento de Defesa é de US$ 6 bilhões. Em 2014, o Pentágono gastou cerca de US$ 84 milhões em medicamentos para disfunção erétil, como Viagra, segundo levantamento da publicação Military Times.

Esperava-se que a abertura formal do alistamento fosse anunciada ainda neste ano, tendo como único requisito que a pessoa estivesse "estável" em seu gênero preferido por 18 meses. No entanto, no mês passado o secretário de Defesa, Jim Mattis, aprovou um atraso de seis meses na iniciativa, o que deixou defensores dos transgêneros em estado de alerta.

 

Direitos

A questão dos direitos dos transgêneros se tornou, em 2016, o centro de uma controvérsia sobre a adoção de regulação para cada Estado a respeito do uso de banheiros públicos comuns.

Já em fevereiro o governo Trump enfrentou protestos pela decisão de suspender uma norma adotada pela administração Obama, que incentivava as escolas públicas a permitir que os alunos usassem o banheiro correspondente a sua identidade de gênero.

O mais famoso militar transgênero nos EUA é a ex-analista de Inteligência Chelsea Manning, que passou sete anos na prisão por vazar milhares de documentos sigilosos das Forças Armadas ao site WikiLeaks.

Chelsea ingressou nas Forças Armadas e começou sua carreira militar como o soldado Bradley Manning. Durante seu período na prisão, começou um tratamento hormonal e o processo de transição até adotar seu novo nome.

Perdoada por Obama nos últimos dias de seu governo, Chelsea ainda é ligado ao Exército americano e mantém os benefícios de seu posto, mas se transformou em um ícone para os ativistas dos direitos humanos das pessoas transgênero. 

A Holanda foi o primeiro país a admitir transgêneros em suas Forças Armadas, em 1974. Atualmente, 19 nações seguem essa política, entre as quais aliados dos EUA, como Grã-Bretanha, Israel, Canadá e Austrália.

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