Mike Theiler / AFP
Mike Theiler / AFP

Trump propõe reforma migratória para atrair trabalhador qualificado

Plano não envolve conquista de cidadania, mas permitiria a estrangeiros irregulares trabalhar e ao Estado cobrar multas e impostos, usando os exemplos de Canadá e Austrália como modelo

Cláudia Trevisan, correspondente, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2017 | 00h46

WASHNGTON - Em seu primeiro discurso no Congresso dos EUA, o presidente Donald Trump defendeu que republicanos e democratas aprovem reforma do sistema de imigração americano que amplie as possibilidade de entrada legal no país de trabalhadores qualificados, em modelos semelhantes aos adotados pelo Canadá e Austrália.

"Eu acredito que reforma de imigração real e positiva é possível, se nós nos focarmos nos seguintes objetivos: melhorar o emprego e os salários para os americanos, fortalecer nossa segurança e restaurar o respeito por nossas leis", declarou.

Mais cedo, o presidente havia indicado em almoço com apresentadores de TV que estava aberto a uma mudança que legalize a situação de estrangeiros que vivem sem documentos nos EUA, mas não contemple o acesso à cidadania americana. Segundo a CNN, uma das propostas em análise é a concessão de cidadania aos "dreamers", que foram levados ao país por seus pais quando tinham menos de 16 anos.

A proposta representa uma guinada em uma das principais promessas de campanha do presidente: a deportação de milhões de imigrantes que estão em situação irregular no país.

No discurso na noite de ontem, Trump voltou a apresentar a imigração como uma ameaça à segurança e à prosperidade econômica dos americanos. "Por finalmente aplicar nossas leis de imigração, nós vamos elevar salários, ajudar os desempregados, economizar bilhões de dólares e tornar nossas comunidades seguras de novo", declarou. Repetindo uma de suas principais promessas de campanha, disse que começará logo a construção de um "grande muro" na fronteira com o México.

A vinculação da imigração com a questão da segurança também ficou evidente na decisão de Trump de convidar três parentes de americanos assassinados por ilegais para assistir seu pronunciamento no Congresso. Durante o discurso, o presidente se referiu a cada um deles e deu um breve relato de suas histórias.

Entrelinhas. O pronunciamento contrastou com o tom sombrio e beligerante que Trump adotou em seu discurso de posse, há 40 dias, no qual não fez gestos conciliatórios na direção da oposição e usou a palavra "carnificina" para descrever a situação do país. Nesta terça-feira, 28, ele apresentou uma visão mais otimista do país e se referiu em várias ocasiões à oposição democrata.

O presidente iniciou o discurso com uma referência ao mês da história negra, celebrado em março, e a importância da defesa dos direitos civis. Em seguida, mencionou os casos de vandalismo em cemitérios judaicos e de ameaças a bomba contra a centros ligados a essa religião.

Pela primeira vez, Trump também se referiu ao assassinato a tiros de um imigrante indiano no Estado de Kansas, na semana passada. Sua vitória de Trump foi acompanhada do aumento dos crimes de ódio nos Estados Unidos, com multiplicação dos casos de ataque ou intimidação a estrangeiros e minorias, especialmente muçulmanos e latinos.

O presidente demorou para condenar os casos de antissemitismo e até ontem não havia se referido ao assassinato do indiano por um americano branco revoltado com a presença de imigrantes nos EUA. "Estou aqui hoje à noite para entregar uma mensagem de unidade e força e é uma mensagem que vem do fundo do meu coração", declarou Trump, que em diversas ocasiões pediu ajuda dos democratas.

O momento mais emotivo do discurso ocorreu quando o presidente homenageou a viúva de Ryan Owens, um soldado morto em uma ação contra a Al-Qaeda no Iêmen nos primeiros dias de seu governo. O pai do militar se recusou a se encontrar com Trump quando o corpo de seu filho chegou aos EUA. Vestida de preto e sentada nas galerias do Congresso, Carryn Owens chorou ao ser aplaudida de pé durante dois minutos pelos parlamentares.

De maneira geral, o discurso foi concentrou nos temas que impulsionaram a candidatura de Trump: imigração, terrorismo, empregos e críticas à globalização e ao comércio internacional. O presidente criticou o que considera práticas comerciais desleais de outros países, em especial a China, e condenou o grande déficit comercial dos EUA.

Segundo o jornal Wall Street Journal, Trump deverá anunciar nesta quarta-feira, 1º, medidas que ampliam a adoção de medidas de proteção comercial de maneira unilateral por Washington, fora do sistema da Organização Mundial do Comércio (OMC). O passo representará um enfraquecimento do sistema multilateral de solução de controvérsias e poderá desencadear respostas unilaterais de outras nações.

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