Eva Marie Uzcategui/ Reuters
Eva Marie Uzcategui/ Reuters
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Trump puxa o gatilho

A morte deste homem leva a vasta região do Oriente Médio à beira da vertigem

Gilles Lapouge, Correspondente, Paris

04 de janeiro de 2020 | 06h00

Estávamos acostumados a ver Donald Trump falar mal de todo mundo, xingar e anunciar o apocalipse e a guerra dos bons contra os maus. Mas, na última hora, ele tirava o dedo do gatilho e, em vez de bombas e canhões, atacava com dinheiro e com o torniquete das tarifas alfandegárias. Em lugar de bombardeios aéreos, preferia sufocar os inimigos com a seda das estolas de Esmirna, como nas antigas lendas e epopeias dos impérios orientais. 

Era uma curiosa maneira de fazer a guerra, mas eficaz. Com isso, um dos presidentes americanos modernos mais agressivos nas ameaças foi o que menos deflagrou guerras. Usava o espantalho do conflito, mas preferia se livrar dos inimigos estrangulando-os economicamente.

Foi o que ele fez seis meses atrás, quando o Irã abateu um drone americano. De início, Trump anunciou que iria retaliar. Depois, no último momento, mudou de ideia. Contentou-se em dar mais um aperto no laço financeiro que cingia a garganta do inimigo. E não se falou mais em guerra.

Agora, com o assassinato do general iraniano Qassim Suleimani também por meio de um drone em Bagdá, Iraque, Trump se aproxima um pouco mais da linha fatídica. Há meses existiam planos elaborados nas agências e ministérios americanos para dar fim ao militar, mas temiam-se os efeitos deletérios que tal morte poderia acarretar. Desta vez, Trump não tremeu. Apertou o botão e o general iraniano voou em pedaços. A pergunta agora é se esse ataque pode provocar uma guerra, levando o caos ao Oriente Médio.

Ou talvez ainda mais longe. Na França, o general só era conhecido nos círculos diplomáticos e militares, e pelos estrategistas e alguns jornalistas. Com ele morto, ficamos sabendo que foi um dos atores mais importantes na longa saga de guerra da região. Era próximo do “Guia Supremo” do Irã, o aiatolá Khamenei, que geralmente se mantém em silêncio, mas quando fala sua palavra tem a força da verdade e ninguém ousa contestar.

O general Suleimani era um soldado. Comandante da cruel Guarda Revolucionária iraniana, foi sempre um militar de elite cuja bravura, lealdade e talento eram reconhecidos por todos, inclusive pelos adversários. Aos poucos, foi assumindo também sua veia diplomática, viajando de uma cidade xiita para outra. Entretanto, jamais manifestou a intenção de exercer os papéis políticos importantes para os quais parecia talhado. “Sou um soldado e soldado serei até o último suspiro”, dizia ele. A morte desse homem leva a vasta região do Oriente Médio à beira da vertigem. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.