Todd Heisler/The New York Times
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Trump quer barrar mais imigrantes e pôr terrorista de NY em Guantánamo

Presidente americano ataca política migratória democrata e fala em enviar para prisão em Cuba - que desde 2006 não recebe novos prisioneiros - o usbeque Sayfullo Saipov, que matou 8 pessoas terça-feira ao jogar uma caminhonete sobre ciclistas em Manhattan

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2017 | 05h00

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu ao ataque que deixou oito mortos em Nova York com a promessa de endurecer o sistema de imigração do país e a sugestão de que poderá enviar seu autor à base de Guantánamo, em Cuba, que não recebe novos prisioneiros desde 2006. O republicano também disse que o sistema judiciário americano é “motivo de chacota” e acusou democratas de complacência em relação à entrada de estrangeiros no país.

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O FBI (polícia federal americana) informou nesta quarta-feira, 1º, que ouviria outro homem do Usbequistão, possivelmente relacionado ao atentado cometido por Sayfullo Saipov, que afirmou, em interrogatório, ter ficado “satisfeito” com o que fez e revelou ter começado a planejar o ataque cerca de um ano antes.

Saipov deixou o Usbequistão em 2010 e obteve residência permanente nos EUA dentro de um programa chamado “loteria da diversidade”, que dá vistos a pessoas de países pouco representativos na população de imigrantes do país. 

Nesta quarta, Trump disse que pedirá ao Congresso que acabe com esse programa. No ano passado, 46.718 pessoas entraram nos Estados Unidos por esse canal, 2.378 das quais do Usbequistão. A cada ano, o governo americano emite cerca de 1 milhão de vistos de residência (green card).

“Nós precisamos de justiça rápida e precisamos de justiça forte. Muito mais rápida e mais forte do que temos agora. Porque o que temos agora é uma piada e é motivo de chacota”, declarou Trump, depois de se referir a Saipov como “um animal”. Quando um repórter perguntou se Saipov deveria ser enviado a Guantánamo, ele respondeu: “Eu certamente consideraria isso, sim. Enviá-lo a Gitmo (pronúncia do código militar da base). Eu certamente consideraria isso”. As declarações foram dadas no início de reunião com seu gabinete na Casa Branca.

Durante a campanha eleitoral, Trump prometeu que reativaria Guantánamo e encheria a prisão com “caras maus”. O ex-presidente Barack Obama tentou fechar a base, que foi marcada por abusos de prisioneiros e casos de tortura durante o governo de seu antecessor, George W. Bush. Atualmente, ainda há 41 prisioneiros no local.

Analistas

Diretor do Triangle Center sobre Terrorismo e Segurança Doméstica da Universidade de Duke, o professor David Shanzer disse que a proposta de enviar Saipov para a base em Cuba não faz sentido. “Nossas cortes civis são totalmente capazes de julgar esse caso e condenar o autor do atentado à prisão perpétua ou à morte”, afirmou. “As cortes de Guantánamo foram incapazes de condenar terroristas.” Além disso, há dúvidas sobre a legalidade do envio à prisão de alguém que é residente legal nos Estados Unidos.

Shanzer avaliou que o governo americano foi “incrivelmente bem-sucedido” em prevenir a entrada de potenciais terroristas no país depois do atentado de 11 de setembro de 2001, com poucas exceções. Ainda assim, o professor disse ser favorável à adoção de regras mais rigorosas, desde que elas não façam discriminação religiosa ou de origem nacional. “O que não podemos fazer é nos fechar para a imigração.”

A proposta de enviar Saipov a Guantánamo também foi critica pelo Centro para Direitos Constitucionais, que reúne advogados defensores dos prisioneiros mantidos na base. “Guantánamo sempre foi uma prisão exclusivamente para muçulmanos e essa é, sem dúvida, a única razão pela qual Donald Trump fez a sugestão imbecil de enviar Sayfullo Saipov para lá”, diz nota divulgada pela entidade. “Quinze anos provaram que ninguém será jamais julgado com sucesso ou ‘levado à Justiça’ em Guantánamo e o presidente e seus apoiadores dentro de seu próprio partido estão delirando se acreditam o contrário.”

A “loteria da diversidade” atacada por Trump foi aprovada pelo Congresso em 1990 e sancionada pelo então presidente republicano George H. W. Bush. O sistema prevê a concessão de green card por sorteio a cidadãos de países que tenham menos de 50 mil pessoas nas várias categorias de vistos no Estados Unidos no ano anterior.

Todos tem de passar pela checagem normal de imigrantes antes de se candidatar. Segundo um funcionário do Departamento de Estado, cidadãos dos seguintes países não podem participar do programa: Bangladesh, Brasil, Canadá, China, Colômbia, República Dominicana, El Salvador, Haiti, Índia, Jamaica, México, Nigéria, Paquistão, Peru, Filipinas, Coreia do Sul, Reino Unido e Vietnã.

Trump disse que gostaria de substituir o sistema por um modelo com base no mérito. Em 2013, o Senado aprovou uma proposta de reforma do sistema de imigração que fazia exatamente isso. A proposta nunca foi votada na Câmara dos Deputados, por oposição dos republicanos.

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