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Trump quer conter o Irã, mas teria agido certo? 

Os EUA podem ter desencorajado ataques convencionais, mas instigaram Teerã a produzir uma bomba nuclear

The Economist, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2020 | 03h00

O assassinato de Qassim Suleimani por um drone ameaçou aproximar EUA e Irã de uma guerra, mais do que em qualquer outro momento desde a crise dos reféns, em 1979. Em uma parte do mundo que perdeu o poder de chocar, o audacioso assassinato do general mais importante do Irã, ordenado por Donald Trump, abalou o país. Ameaças de destruição emitidas do Oriente Médio ecoaram avisos de iminente caos. 

No entanto, um ataque de retaliação com mísseis contra duas bases americanas no Iraque, cinco dias depois, não matou ninguém. Parecia uma tentativa de preservar a reputação do Irã e encerrar a crise. Se esse fosse o fim, Trump estaria certo ao dizer que seu ataque funcionou, como ele sugeriu na quarta-feira.

Livrar o mundo de um indivíduo sinistro e forçar o Irã a conter sua agressão seriam conquistas que realmente valeriam a pena. Nos próximos meses, pode ser assim que as coisas acabem. O problema é que ninguém, incluindo Trump, pode contar com isso.

A sede de vingança do Irã certamente não foi saciada. Mesmo que evitem formas explícitas de agressão, os guardas revolucionários seguirão outras táticas, incluindo ataques cibernéticos, atentados suicidas, assassinatos de autoridades americanas e uma variedade de meios que eles aperfeiçoaram ao longo dos anos. Tais represálias podem levar meses para se desenrolar. 

Quando diminuir o impacto do assassinato do general Suleimani, o Irã começará novamente a sondar a disposição dos EUA de usar a força. Em um mundo assimétrico, as partes fracas costumam recuar diante da força, apenas para retornar depois. Eles têm mais paciência e maior tolerância à dor do que uma superpotência distante.

Ainda mais ameaçador é o programa nuclear do Irã. Trump retirou os EUA do acordo, assinado em 2015 com seis potências mundiais, o que limitava sua capacidade de obter uma bomba. Ele argumentou que seria capaz de negociar um acordo melhor que também incluísse as atividades regionais não nucleares do Irã – uma proposta que ele repetiu em entrevista nesta semana. 

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No ano passado, houve especulações de que o Irã estava pronto para negociar. Mas isso agora parece fora de questão, possivelmente por um longo tempo. De fato, no domingo, o Irã disse que não aceitaria mais nenhuma restrição ao enriquecimento de urânio.

Os iranianos têm todos os motivos para se dedicar ao seu programa nuclear, não apenas como peça de barganha contra os EUA, mas também porque, se o Irã obtiver uma bomba atômica, obrigará permanentemente os americanos a mudar seus cálculos sobre o uso da força militar contra Teerã.

A falta de uma estratégia americana de negociação significa que o assassinato do general reduziu a política americana para o Irã a sanções econômicas extremas. No entanto, é improvável que levar um país faminto à submissão funcione – outros regimes resistiram à pressão americana por mais tempo. 

Não há um caminho para a paz, que Trump disse querer. De fato, como os limites dos EUA não são claros, o perigo de uma guerra permanece. Enquanto isso, sanções e ações de dissuasão se tornarão gradualmente menos potentes, porque isso também sempre acontece. Trump está preparado para isso? E seus sucessores?

Barack Obama e Trump perceberam que a turbulência no Oriente Médio consome recursos e atenção que, para muitos americanos, estariam mais bem alocados na Ásia. Obama tentou negociar uma retirada de tropas da região, mas fracassou. Trump está tentando outra vez, mas provavelmente também fracassará, pois sua estratégia contra os iranianos depende da presença dos EUA no Oriente Médio para conter o Irã e manter o poder de dissuasão.

O dramático assassinato do general Suleimani pode parecer uma aposta que valeu a pena no curto prazo. Infelizmente, não resolveu o problema dos EUA com o Irã. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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