Pedro Pardo / AFP
Pedro Pardo / AFP

Trump quer que o México seja seu muro na América Latina

Presidente americano pressiona país vizinho a deter a caravana de imigrantes que tenta chegar aos EUA

Kevin Sieff e Joshua Partlow / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2018 | 05h00

À medida que milhares de migrantes da América Central avançam em sua longa marcha para a fronteira dos Estados Unidos, sob críticas diárias do presidente Donald Trump, o governo mexicano está sendo forçado a decidir: as ameaças de Trump sugerem que o México intervenha?

Por enquanto, a polícia mexicana apenas observa a caravana se deslocar – primeiro, com os migrantes atravessando em jangadas o rio que separa o México da Guatemala, e em seguida caminhando pela rodovia principal e cantando “Si, se pudo”(sim, nós conseguimos”).

Esse impasse parece ter chegado à Casa Branca e, mais uma vez, o principal relacionamento bilateral do México parece estar em terreno instável.

“É triste, mas, ao que parece, a polícia e as Forças Armadas mexicanas não conseguem deter a caravana que se dirige à fronteira sul dos Estados Unidos”, tuitou Trump. Em seguida, ele disse na Fox News: “Não sei o que está havendo com o México. Parece que as pessoas estão atravessando bem pelo meio do país. Não estou gostando”.

A caravana é um novo capítulo na complicada tentativa do México de se equilibrar entre as ameaças americanas e sua própria política interna. Deter ou deportar membros da caravana certamente agradaria a Trump, mas passaria por cima das próprias leis de imigração mexicanas e aumentaria a impressão de que lo governo do México recebe ordens de uma Casa Branca hostil.

A polícia mexicana está consciente da tensão e de como sua presença é vista. Policiais antimotim pararam de posar equipados para fotos e câmeras de TV como se estivessem prontos para agir contra os migrantes.

Mas a caravana se arrisca a ficar no centro de um confronto mais sério se Trump ameaçar cortar a ajuda ao México, como já ameaçou a América Central, ou decidir bloquear a fronteira com forças militares americanas.

Diariamente, bilhões de dólares em comércio cruzam a fronteira EUA-México. Qualquer tentativa de impedir esse fluxo poderia causar sérios danos econômicos ao México. O renegociado Acordo de Livre Comércio da América do Norte também pesa na balança, na medida em que precisa ser ratificado pelos Parlamentos dos dois países.

O dilema do governo mexicano agrava-se pelo fato de o presidente eleito, Andrés Manuel López Obrador, ter feito campanha prometendo uma abordagem mais suave com a migração, dizendo que não sairia caçando migrantes como se fossem criminosos.

“De um lado está Trump pressionando o atual governo de Peña Nieto a deter o fluxo migratório; de outro estão a opinião pública e o governo eleito dizendo que os que migrantes devem ser tratados com dignidade”, disse Daniel Millan, ex-porta-voz de Peña Nieto e hoje consultor político. “Estão todos andando na corda bamba.”

O futuro chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, disse segunda-feira em uma rádio mexicana que seria um erro o governo do México mobilizar as Forças Armadas para deter a caravana.

“Seria inadmissível o México usar o Exército contra essa gente”, afirmou ele, acrescentando não acreditar que o governo Peña Nieto esteja cogitando tal medida. “Não concordaríamos de modo algum com isso”, assegurou.

Após se reunir na segunda-feira em Ottawa com a chanceler canadense, Chrystia Freeland, Ebrard disse que o novo governo dará mais vistos de entrada a centro-americanos. “Vamos investir em Honduras, Guatemala e El Salvador”, afirmou.

Na sexta-feira, referindo-se à caravana, Peña Nieto disse que “o México não permitirá que estrangeiros entrem em seu território ilegalmente e muito menos violentamente”.

Nesse dia, na ponte que liga México e Guatemala, a polícia mexicana jogou gás lacrimogêneo nos migrantes e fechou a fronteira oficial, enquanto equipes de televisão e fotógrafos registravam a ação. Entretanto, perto da ponte a polícia observava milhares de migrantes cruzarem ilegalmente a fronteira de jangada e se acomodarem para passar a noite na praça principal de Ciudad Hidalgo, cidade mexicana próxima à fronteira.

Imagens da multidão na ponte parecem ter assustado conservadores americanos. “Quero agradecer aos funcionários e à polícia mexicana por terem posto a própria vida em risco”, disse a comentarista conservadora Laura Ingraham em seu programa na Fox News sexta-feira.“Acho que o México nunca agiu tão bem”, completou o ex-parlamentar e apoiador de Trump Newt Gincrich no mesmo programa.

No México, as imagens foram vistas com outros olhos. Captando a reação de muitos, o analista político Carlos Bravo Regidor tuitou sarcasticamente: “O muro já existe. Chama-se México. Parabéns, sr. Trump”.

Na noite de domingo, a marcha foi submetida a novo teste. Policiais antimotim e equipados com escudos tentaram bloquear a passagem dos 5 mil centro-americanos que avançam para o norte. “Estamos aqui para aplicar as leis do México”, disse um dos policiais. “Vocês não podem atravessar nosso território sem permissão.”

Quando os migrantes de aproximaram da barreira, oficiais de política os aconselharam pedir vistos ao México. Havia ônibus vazios prontos para levá-los às repartições responsáveis. Um helicóptero da polícia sobrevava o impasse. A caravana se deteve brevemente enquanto os migrantes conversavam entre si. Talvez as autoridades mexicanas lhes dessem mesmo vistos temporários, pensaram, ou talvez fosse um truque da polícia para ganhar tempo e deportá-los em massa.

“Vamos em frente!”, gritaram os mais entusiasmados, e todos avançaram para a barreira. Os policiais não tentaram confrontá-los. Em vez disso, jogaram os escudos num ônibus e foram embora. A caravana prosseguiu.

O México não costuma facilitar as coisas para migrantes ilegais da América Central. No ano passado, deportou 82 mil migrantes da região, segundo o Ministério do Interior. É possível que, a qualquer momento, o governo decida pesar a mão contra a caravana.

“Sabemos que eles podem nos parar quando quiserem isso me assusta”, disse Alside Caseres, um hondurenho da caravana que viaja com a mulher e um filho. Na manhã de segunda-feira, Caseres e família preparavam-se para mais um dia de caminhada no sol. Eles dormiram no concreto da praça de Hidalgo após comerem macarrão e tortillas dados por moradores locais. “Viva o México!”, gritaram alguns migrantes já pegando a estrada.

No domingo, Trump havia tuitado: “Eles devem primeiro pedir asilo no México; se não obtiverem, então os Estados Unidos vão barrá-los”.

De fato, autoridades mexicanas vêm repetidamente encorajando os migrantes a requererem status legal no México, mas não está claro o que esse status vai garantir - se asilo no México, se vistos temporários que deem aos migrantes apenas tempo suficiente para atravessar o país ou algo mais. Centenas de membros da caravana concordaram em se legalizar e durante o fim de semana foram levados para um abrigo no sul do México, ao qual, no momento, jornalistas não têm acesso.

Na manhã de segunda-feira, organizadores da caravana se mostravam céticos com as autoridades mexicanas e sua oferta de legalização. “Assistência humanitária costuma significar detenção”, disse Irineo Mujica, diretor do grupo defensor de direitos de imigrantes Pueblo Sin Fronteras. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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