SAUL LOEB / AFP
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Trump quer se firmar como presidente da recuperação econômica, dizem analistas

Após baixas em pesquisas, presidente dos Estados Unidos aposta no discurso de retomada da economia em busca da reeleição em novembro

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2020 | 09h00

Diante das sucessivas pesquisas indicando que o presidente Donald Trump perderia as eleições para seu concorrente democrata Joe Biden, analistas ouvidos pelo Estadão afirmam que a estratégia do presidente americano agora é a de tentar se consolidar como o responsável pela normalização pós-pandemia do coronavírus e pela recuperação econômica. 

Um de seus principais desafios é o de minimizar os prejuízos da pandemia e desqualificar as diferentes pesquisas que o colocam como perdedor da disputa pela Casa Branca. "Ele quer assegurar que haja uma sensação entre a população de uma tendência positiva e está disposto a aceitar um maior número de vítimas desde que haja recuperação mais rápida da economia. O que pode dar muito errado, já que a reabertura pode acelerar o número de casos", diz Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação da Escola de Relações Internacionais da FGV.

O desemprego atinge 13,3% da população e, apenas em abril, 20 milhões de pessoas perderam seus trabalhos - o pior mês desde a Grande Depressão. Os Estados Unidos são o país mais atingido pelo novo coronavírus, com 2,4 milhões de casos e mais de 124 mil mortos. Nesta semana, uma pesquisa do jornal The New York Times com o Siena College mostrou que Joe Biden tem 50% das intenções de voto e Trump, 36%. Em meio aos protestos por justiça racial e resultados de uma gestão errática da pandemia do novo coronavírus, o presidente americano registrou 39% em recente pesquisa da Gallup. 

"É um número baixíssimo para um candidato que pretende a reeleição", avalia Carlos Poggio, doutor em relações internacionais e professor da FAAP. Poggio lembra que apenas um candidato foi reeleito com um nível de aprovação tão baixo: Harry Truman, em 1948, mas pondera que a pesquisa é uma fotografia do momento e que ainda faltam cinco meses para o pleito. A mesma pesquisa do NY Times mostrou que Trump perdeu força nos seis Estados-chave que deram a ele a vitória no Colégio Eleitoral em 2016: Michigan, Pensilvânia, Wisconsin, Flórida, Arizona e Carolina do Norte

Na última semana, a campanha de Trump teve outra derrota considerável: alardeou que um comício em Oklahoma, o primeiro da retomada de sua campanha, iria atrair multidões. O local estava esvaziado. "Há uma percepção bastante ampla na população americana de que o governo Trump não geriu bem a pandemia", afirma Stuenkel. Além da crise econômica e da pandemia, as pesquisas mostram também uma percepção de que a postura de Trump não foi construtiva em relação às manifestações". 

Para Stuenkel, uma boa parcela da população americana acredita que o país está indo na direção errada e, diante disso, Trump já não é mais o favorito. O cenário é muito diferente de 120 dias atrás, quando até mesmo democratas reconheciam a dificuldade de desbancar Trump na disputa presidencial. Pela primeira vez, Trump admitiu publicamente que poderia perder. 

Os analistas lembram que a reeleição é um referendo do atual governo e que o papel de Biden pode até ser secundário, o que explicaria sua atuação defensiva. No momento, Trump tem tentado colar nas manifestações contra o racismo o rótulo de violentas e sugere que os democratas seriam favoráveis a "terroristas" que apoiam a destruição do patrimônio e querem tirar recursos das polícias. 

Na avaliação de Poggio, que fez pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Georgetown sobre a ascensão de Trump à presidência, a estratégia tem se mostrado falha, uma vez que as manifestações foram amplamente pacíficas. 

Para o professor, os protestos favorecem a campanha de Joe Biden, que não tem o mesmo carisma de Trump, e consegue se colocar na pauta. "Os protestos deram algum destaque para ele, já que antes só se falava em coronavírus. E agora o Biden faz o papel no qual está mais confortável: o de uma figura paterna", diz. Por sua vez, a pandemia permite que a campanha não realize eventos públicos e evite gafes. 

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