MANDEL NGAN / AFP
MANDEL NGAN / AFP

Trump questiona veracidade de acusação de assédio contra juiz indicado para Suprema Corte

'Se ataque foi tão ruim quanto diz, teria levado às autoridades', diz presidente pelo Twitter sobre a professora que acusa Brett Kavanaugh

Beatriz Bulla, correspondente / WASHINGTON

21 Setembro 2018 | 13h35

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o Twitter para questionar na manhã desta sexta-feira, 21, a veracidade da acusação de assédio sexual que foi levantada contra o juiz indicado por ele para assumir uma cadeira na Suprema Corte, Brett Kavanaugh. A professora universitária Christine Blasey Ford acusa Kavanaugh de abuso sexual na década de 1980.

 Com a reação, Trump despertou uma nova onda de manifestações femininas nas redes sociais sobre assédio sexual, em apoio à denúncia de Christine. Durante toda a semana, desde que o escândalo veio à tona, Trump evitou comentários sobre a acusação contra Kavanaugh, mas nesta sexta, 21, ele quebrou o silêncio. 

Nesta sexta, Trump quebrou o silêncio sobre a acusação e pediu que Christine traga documentos de possíveis denúncias feitas à época do assédio. “Não tenho dúvidas de que, se o ataque à Doutora Ford foi tão ruim quanto ela diz, as acusações teriam sido feitas junto às autoridades locais por seus pais amorosos”, escreveu Trump, pedindo que documentos contemporâneos ao fato sejam apresentados ao público.

Também usando as redes sociais, Trump defendeu seu indicado e disse que Kavanaugh é “um homem bom, com reputação impecável”. Ele acrescentou que o juiz está “sob ataque de políticos radicais de esquerda que não querem ouvir respostas, mas apenas atrasar (a votação)”. “Eu passo por isso com eles todos os dias em D.C.”, escreveu Trump.

A sugestão de que a denúncia é falsa e deve ser corroborada por uma acusação formal feita à época foi criticada pela senadora republicana Susan Collins, que se declarou chocada. “Eu não estou dizendo que é o que aconteceu neste caso – mas sabemos que as alegações de assédio sexual são um dos crimes mais não declarados que existem”, disse a republicana a jornalistas. Ela considerou ainda “inapropriado” o tuíte de Trump.

A acusação contra Kavanaugh já havia reacendido na imprensa americana as comparações com o movimento #MeToo, que se popularizou em 2017 ao levar a uma série de denúncias via redes sociais de assédio sexual praticados especialmente em ambientes de trabalho. O movimento ganhou a adesão de celebridades americanas e cresceu com a denúncia contra o produtor de cinema Harvey Weinstein. 

O tuíte de Trump causou uma nova onda de reações de mulheres nas redes sociais que passaram a compartilhar histórias sobre os motivos de não terem reportado casos de assédio às autoridades. Com a hashtag “WhyIDidntReport” (porque eu não relatei), as histórias ficaram no primeiro lugar da lista de tópicos mais comentados no Twitter na sexta-feira, 21. 

Uma das que usou a plataforma para contestar o presidente americano foi a atriz e ativista Alyssa Milano, que virou uma espécie de porta-voz do movimento #MeToo no ano passado. “Eu fui abusada sexualmente duas vezes. Na primeira, era uma adolescente. Eu nunca fiz uma denúncia policial e levei 30 anos para contar aos meus pais. Se alguma sobrevivente de assédio sexual quiser se somar a isso, por favor, comente. #MeToo”, escreveu Alyssa.

Organizações como a Womans March, que organiza a Marcha das Mulheres nos EUA, se somaram ao movimento. “Muitas de nós temos essas histórias. Muitas de nós nunca tivemos segurança para compartilhar as histórias. E homens como Donald Trump são o motivo”, postou a organização, que passou a convocar uma manifestação de apoio a Christine Ford em Washington, na segunda-feir, com o mote “Eu acredito em Christine”.

Trump, no Twitter, disse que Kavanaugh é “um homem bom, com reputação impecável” e afirmou que o juiz está “sob ataque de políticos radicais de esquerda que não querem ouvir respostas, mas apenas atrasar (a votação)”. “Eu passo por isso com eles todos os dias”, escreveu Trump, que acusa a oposição de usar o escândalo para obstruir a votação da indicação do juiz. 

Nesta sexta, 21, em Washington, amigos e familiares de Kavanaugh organizam um evento para dar testemunhos favoráveis ao juiz. O próprio Trump é acusado por pelo menos 15 mulheres de assédio sexual. Em maio, algumas dlas vieram a público para detalhar o que teriam sofrido.

É o caso de uma ex-recepcionista que acusa Trump de beijá-la à força ou da ex-miss Carolina do Norte de 2006, que acusa Trump de inspecionar pessoalmente os camarins dos concursos de beleza organizados por uma de suas empresas. O presidente nega as acusações.

A votação do nome de Kavanaugh, que estava prestes a acontecer antes do escândalo vir à tona, foi adiada. Agora, os senadores organizam os depoimentos de Christine e Ford, que devem acontecer na segunda-feira. Depois da Comissão de Justiça votar a indicação, a maioria do plenário do Senado ainda precisa aprovar o nome indicado por Trump para compor a Suprema Corte. 

 


 

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