Andrew Kelly/Reuters
Andrew Kelly/Reuters

Trump reaviva dolorosas memórias de um massacre racial em Tulsa

Presidente americano faria comício em meio ao Juneteenth, dia em que se celebra o fim da escravidão

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2020 | 07h00

TULSA, EUA - Para muitos em Tulsa, cenário de um dos piores massacres raciais nos Estados Unidos em 1921, a escolha da cidade pelo presidente Donald Trump para seu primeiro comício desde o início da pandemia reabre uma ferida "sempre dolorosa". 

O presidente conservador, muitas vezes acusado por seus críticos de difundir mensagens racistas enquanto defende a América tradicional, originalmente havia planejado sediar seu evento em Tulsa, em 19 de junho, no Juneteenth,  dia em que se celebra o fim da escravidão. 

Diante das reações indignadas, principalmente dos parlamentares negros, Trump anunciou no Twitter que adiaria o ato até o dia seguinte, "por respeito" à data simbólica.

Mas o remédio permanece amargo, especialmente depois dos protestos em massa para denunciar a morte de George Floyd nas mãos de um policial branco, um símbolo de discriminação e brutalidade policial contra minorias. 

"Uma grande maioria, se não todas as pessoas, sentiu a chegada de Trump como um tapa na cara e um desrespeito", disse o reverendo Mareo Johnson, líder do movimento Black Lives Matter em Tulsa, à AFP. 

Johnson vai participar no sábado de uma manifestação em frente ao comício de Trump. 

"Negros, mas também brancos, latinos, indígenas ... muitas pessoas diferentes veem Trump como um representante do ódio e do racismo, na medida em que ele não os repreende", enfatizou. 

O magnata republicano, que costuma ser conhecido por seu fraco conhecimento em geografia e história, pode não estar ciente da importância do Juneteenth e da existência do massacre de Tulsa em 1921, desconhecido por muitos de seus concidadãos. 

"Talvez ele não soubesse ... Mas, neste caso, adiar o ato para o dia seguinte ainda parece um tapa na cara!", respondeu Johnson, de 47 anos, que disse ter sido vítima de brutalidade policial em sua juventude em várias ocasiões. 

"Em negação"

O massacre racial de 1921, que deixou cerca de 300 mortos e devastou o distrito negro de Greenwood, "ainda é muito sensível, muito doloroso", disse Michelle Brown, diretora de programas educacionais do Greenwood Cultural Center. 

"Como comunidade, ainda estamos muito indignados e comovidos com o fato de que algo assim tenha acontecido" com toda a impunidade e sem que nenhuma das famílias que perdeu tudo no incêndio de 1.200 casas tenha recebido qualquer indenização, disse ela. 

Tulsa é segregada até hoje em sua geografia: ao norte, os bairros negros, e ao sul, a população branca. Cerca de 15% dos 400.000 residentes são negros.

"Ainda temos dificuldade em falar sobre essa história na cidade. Foi apenas no ano passado que o estado de Oklahoma resolveu tornar obrigatório o ensino desse episódio nas escolas", disse Brown. 

"Mas há muitas pessoas que não conhecem essa história em Tulsa. É vergonhoso para elas: estão em negação. Não podemos esquecer o que aconteceu, faz parte de nós", enfatizou. 

Para ela, a chegada do presidente Trump no sábado é "uma má ideia" no contexto atual. 

As coisas, no entanto, estão melhorando lentamente.

Em 2001, o estado de Oklahoma, confortavelmente controlado pelo Partido Republicano, pediu suas desculpas oficiais pelo massacre, e uma comissão de inquérito foi formada. 

Após anos de negativas das autoridades municipais, o novo prefeito de Tulsa concordou em financiar escavações em busca de valas coletivas onde as vítimas de 1921 podem ter sido enterradas por seus assassinos. 

O município contratou em fevereiro o primeiro chefe de polícia negro em sua história, Wendell Franklin, comenta com satisfação o reverendo Mareo Johnson.

Há alguns anos, seu antecessor branco se desculpou pela passividade da polícia durante os eventos de 1921. 

"Perguntei a diferentes pessoas de cor por que era tão difícil recrutar policiais da comunidade afro-americana. E muitos me disseram que isso se devia ao massacre racial", disse Chuck Jordan ao deixar o cargo. /AFP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.