AFP PHOTO / Korea SummitPress Pool / Korea Summit Press Pool
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Trump reivindica créditos na Coreia do Norte antes de jogo começar

Presidente americano usou sua conta no Twitter para clamar louros pela reaproximação entre as Coreias, mas diante de histórico, melhor esperar para ver os resultados

Aaron Blake, do WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 05h00

O presidente dos EUA, Donald Trump, assegurou no início desta semana que jogaria duro com Kim Jong-un no seu próximo encontro. “Seria muito fácil para mim firmar um simples acordo e clamar vitória”, afirmou. “Não é isto que desejo. Quero que eles se desfaçam de suas armas nucleares”.

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Seus tuítes na sexta-feira contam uma história diferente. Diante da notícia de que os líderes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul concordaram em trabalhar com vistas ao “objetivo comum” de uma desnuclearização e um fim ainda este ano da guerra na Península Coreana, que já completou 65 anos, , Trump mostrou-se mais entusiasmado do que muita gente.

“FIM DA GUERRA DA COREIA!”, ele exclamou em letras maiúsculas. Mais tarde, elogiou o presidente chinês Xi Jinping e falou sobre o “processo” de paz, como se já estivesse concluído. “Sem ele teria sido um processo muito mais difícil e muito mais longo!”, disse ele.

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Tudo isto é prematuro. Se há algo com o qual todos concordam é que esse “processo” na verdade está apenas começando. A notícia foi excelente, mas não é sem precedentes. Já tivemos acordos entre as duas Coreias antes, mas que não deram nenhum resultado.

Os tuítes de Trump não foram apenas a celebração de uma vitória, mas “um lançamento de bola ainda no vestuário, antes de a moeda ser jogada para o início do jogo”, disse Thomas Weiss, da City University of New York, que fez estudos sobre a Coreia do Norte.

Como observou Anna Fifield, do Washington Post, as conversações entre os líderes coreanos em 2000 garantiram ao presidente da Coreia do Sul um Prêmio Nobel da Paz. Mas posteriormente foi revelado que a reunião incluíra uma compensação de U$ 500 milhões para a Coreia do Norte, e seis anos depois os norte-coreanos detonaram sua primeira bomba nuclear.

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O presidente Bill Clinton, em 1995, declarou prematuramente um acordo com vistas a uma desnuclearização que significaria “o fim da ameaça da proliferação nuclear na Península Coreana”. E no final dos anos 1970, o presidente Jimmy Carter propôs uma retirada das tropas americanas da região, mas isto antes de as negociações fracassarem.

Mesmo o fotografado abraço entre Kim e Moon Jae-in não foi algo sem precedentes. Na verdade foto similar foi vista quando, em 2000, Kim Jong-il, pai de Kim, abraçou o presidente sul-coreano Kim Dae-jung. Tudo isso não quer dizer que o encontro desta vez não seja importante ou que a postura de Trump – e o trabalho com vistas a sanções duras nas Nações Unidas – não tenha dado frutos. Podemos estar em vias de um avanço e mesmo os críticos de Trump consideram que ele ajudou a chegarmos a este ponto.

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Mas a combinação de falta de visão diplomática e o desejo de uma grande vitória que mude a imagem da presidência têm de ser considerados neste caso. Trump tem uma grande liberdade para lidar em pessoa com esta situação e assegurou que será duro e exigente – que pode até desistir. Mas ao mesmo tempo, referiu-se ao processo como se já tivesse um impacto enorme, mensurável, e parece encantado com as notas positivas da imprensa que recebeu.

Numa aparição na Fox News, ele mostrava inebriado imagens de Kim reunido com o hoje secretário de Estado Mike Pompeo. “Temos imagens incríveis dos dois conversando e se reunindo que adoro mostrar”. Mais tarde, ao ser entrevistado, sugeriu que a Coreia do Norte já havia feito concessões substanciais. “Eles vão abandonar a pesquisa, os testes, e a nuclearização. Vamos fechar as instalações. Ele está desistindo de tudo isso e nós realmente nem pedimos a eles, porque teríamos pedido, mas eles ofereceram isto antes mesmo de eu pedir”.

(Há também indicações de que a disposição da Coreia do Norte de conversar pode ter a ver com um local de testes nucleares que foi destruído). Na sexta-feira, numa aparição pública, Trump acrescentou: “Quando comecei, as pessoas diziam que (a paz) era impossível. E agora temos uma alternativa muito melhor que ninguém achava possível”.

Este pode ser simplesmente o tipo do enfoque amigável e ao mesmo tempo ameaçador que Trump parece apreciar. Mas ele não está exatamente minimizando as perspectivas do que pode vir desta reunião com Kim. E está cada vez mais empenhado no seu sucesso e parece ver o avanço realizado até agora mais sólido do que praticamente todos acham.

Trump pode ter falado apenas informalmente, quando declarou que a Coreia do Norte já havia cedido à desnuclearização – e simplesmente quis dizer que ela apenase daria uma pausa no programa durante as conversações, mas como ele está ansioso para ter garantias, pôr fim à Guerra da Coreia e talvez trazer as tropas para casa, não é insensato achar que pode estar tentado a “firmar um simples acordo e clamar vitória”. /Tradução de Terezinha Martino

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