AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Trump culpa esquerda radical por violência de extremistas de direita

Presidente garante que havia muitas ‘pessoas boas’ e elas foram atacadas pelos ativistas de esquerda; novas declarações do líder americano atraem críticas de membros dos partidos Democrata e Republicano e até da conservadora Fox News

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 17h51
Atualizado 15 Agosto 2017 | 20h45

WASHINGTON - Donald Trump disse nesta terça-feira, 15, que havia pessoas “muito boas” entre os extremistas de direita que marcharam em Charlottesville no fim de semana, que nem todos eram neonazistas ou supremacistas brancos e o grupo foi vítima de ataques de radicais da esquerda. O presidente também equiparou George Washington, o primeiro presidente dos EUA, e Robert Lee, o general que liderou as forças separatistas do Sul na Guerra Civil (1861-1865). 

As declarações chocaram analistas políticos e integrantes dos partidos Democrata e Republicano, mas foram elogiadas por líderes de movimentos neonazista e defensores da supremacia branca. Até a conservadora Fox News qualificou a entrevista coletiva do presidente de “espantosa”.

A marcha em Charlottesville tinha o nome “Unir a Direita” e foi organizada por grupos extremistas, entre os quais supremacistas brancos, neonazistas e a Ku Klux Klan (KKK). Alguns participantes carregavam bandeiras com a suástica, outros levavam a bandeira dos confederados do Sul que se opunham ao fim da escravidão na Guerra Civil. Muitos estavam armados com pistolas, fuzis e tacos de beisebol. Entre seus gritos de guerra estavam “Você não vai tomar o meu lugar” e “Judeus não vão tomar o meu lugar”.

O historiador Julian Zelizer, professor da Universidade de Princeton, disse que Trump “mostrou suas cartas” com as declarações de hoje. Em sua opinião, o presidente defendeu os extremistas e entrou em rota de colisão com os princípios professados pela maioria dos americanos atualmente. 

Muitos comentaristas ressaltaram que condenar o racismo e o neonazismo estão entre as posições menos controvertidas que um presidente dos EUA pode adotar. O deputado republicano Will Hurd, do Texas, afirmou que ninguém deveria ter dúvida sobre a posição do “líder do mundo livre” em relação a racismo e antissemitismo. O senador Marco Rubio, também republicano, retuitou mensagem que havia postado no sábado, na qual defendeu que o presidente descrevesse os eventos de Charlottesville pelo que eles eram: “um ataque terrorista de supremacistas brancos”. 

Ex-líder da KKK David Duke apoiou as declarações de hoje. “Obrigado, presidente Trump, por sua honestidade e coragem em dizer a verdade sobre Charlottesville e condenar os terroristas de esquerda”, escreveu no Twitter. Richard Spencer, um dos organizadores da marcha “Unir a Direita” disse que as declarações de hoje de Trump foram “justas”. 

No sábado, o presidente foi criticado por não condenar nenhum grupo extremista em sua primeira manifestação sobre Charlottesville e por dizer que “muitos lados” foram responsáveis pela violência que deixou 1 morto e 34 feridos. Sob pressão, ele leu uma declaração sobre o assunto na segunda-feira, afirmando que neonazistas, supremacistas brancos e a KKK eram “repugnantes”. 

Hoje, falando de maneira espontânea, o presidente radicalizou o tom que havia adotado no sábado. “E a alt-left que avançou sobre, como você diz, a alt-right?”, respondeu o presidente a uma pergunta. Alt-right é a abreviação de “direita alternativa”, o nome adotado por líderes extremistas para se referir a seus movimentos. Um de seus principais representantes é Steve Bannon, estrategista-chefe de Trump.

O presidente rejeitou dizer se o motorista neonazista que avançou sobre um grupo de manifestantes pacíficos, matando uma ativista, cometeu um ato de terrorismo doméstico. 

Segundo o presidente, parte dos manifestantes que estava em Charlottesville só queria protestar contra a remoção da estátua do general Lee de uma praça. “Nesta semana é Robert Lee”, afirmou Trump. “Eu me pergunto: será que George Washington será o próximo?” Quando um repórter disse que não se podia comparar os dois personagens históricos, Trump respondeu “George Washington era proprietário de escravos.”

Responsável por questões éticas na Casa Branca durante o governo de George W. Bush, o jurista Richard Painter sintetizou inúmeros comentários semelhantes deixados no Twitter: “George Washington não cometeu traição nem iniciou uma guerra contra os EUA.”

 

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