Luis ROBAYO / AFP
Luis ROBAYO / AFP

Trump resiste em atrair imigração venezuelana

Apoio ‘irrestrito’ a opositor Juan Guaidó sofre primeiro abalo quando assunto é imigração

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2019 | 06h00

O governo Donald Trump está prestes a enfrentar a primeira divisão com o grupo de Juan Guaidó, reconhecido pelos EUA e por cerca de 50 países como presidente interino da Venezuela. Em meio à crise venezuelana, a cúpula do governo Trump tem liderado o apoio ao time de Guaidó e endurecimento contra o regime de Nicolás Maduro, para forçar a transição de poder. Mas um dos pedidos dos diplomatas de Guaidó nos EUA esbarra em ponto-chave da política da Casa Branca: os imigrantes.

A oposição a Maduro quer que os EUA ofereçam a concessão especial de permanência temporária aos venezuelanos que estão no país. A reivindicação teve apoio do senador republicano Marco Rubio, elo entre a Casa Branca e o time de Guaidó, mas começou a criar ruído no governo americano, que tem restringido o visto e o regime de imigração. 

O Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) é um mecanismo criado pelo Congresso para amparar imigrantes que, em razão de desastres naturais ou de conflitos armados, já estão nos EUA de forma ilegal e não podem retornar em segurança a seus países. 

Desde 2017, a Casa Branca passou a anunciar a que não renovaria o visto especial de permanência de cidadãos de cinco países da América Central. A ideia é restringir a quantidade de imigrantes – mesmo os legais – que vivem no país. 

Pelo menos 300 mil imigrantes hondurenhos, salvadorenhos e de outras três nacionalidades devem cair na clandestinidade com a recente decisão do governo americano. Agora, Trump se vê contra a parede.

Contradição

“O TPS para os venezuelanos é uma questão complicada para o governo Trump, porque coloca a forte condenação do presidente ao regime de Maduro contra a hostilidade do governo em relação aos imigrantes – o que incluiu a retirada do TPS para cidadãos de Honduras, El Salvador e Haiti”, afirma Michael Camilleri, ex-diplomata do governo de Barack Obama e atual diretor do centro de estudos Rule of Law, do instituto Diálogo Interamericano.

“Trump, provavelmente, espera que o projeto de lei que concede a proteção aos venezuelanos não passe pelo Senado, controlado pelos republicanos, para que ele não seja forçado a tomar uma decisão sobre aceitar ou vetar a legislação”, disse Camilleri. 

Em março, Rubio se juntou a outros 23 senadores – todos, exceto ele, democratas – para pedir ao governo a concessão da proteção aos venezuelanos. No entanto, na semana passada, Rubio deu um passo atrás.

Na quarta-feira, quando o Senado aprovou o “Verdad Act” – ou “lei da verdade”, em uma mistura de palavras em inglês e espanhol – Rubio se posicionou contra a inclusão do TPS no projeto. 

“Eu apoio o TPS para venezuelanos, mas se isso for incluído no ‘Verdad Act’ será enviado para a Comissão de Justiça e a aprovação vai atrasar”, justificou. O projeto prevê US$ 400 milhões em ajuda humanitária a venezuelanos e mecanismos de cooperação multilateral para reconstrução do país, mas sem tratar de permanência dos venezuelanos.

Rubio é tido como o embaixador dos EUA para América Latina. O predomínio das posições do republicano sobre as políticas para a região foi crucial para que os EUA passassem a reconhecer Guaidó como presidente interino. 

É Rubio quem tem articulado com o secretário de Estado, Mike Pompeo, e com o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, o endurecimento das sanções contra o time de Maduro e estimulado o discurso belicoso. O recuo do senador foi visto como um sinal dado por Trump.

Bastidores

Os representantes de Guaidó nos EUA estão cientes da reticência do governo Trump em ampliar as concessões de permissão temporária. Por isso, o tema é costurado sem cobranças públicas. 

Embaixador de Guaidó em Washington, Carlos Vecchio acompanhou a votação do “Verdad Act” no Capitólio e, na saída, comemorou o que chamou de um “passo importante que mostra o governo de Trump unido”, sem mencionar a questão do visto de permanência.

Segundo Camilleri, a posição de Rubio foi “estratégica”. “Todas as indicações são de que ele continua a apoiar o TPS para os venezuelanos, mas ele entendeu que incluir no Verdad Act poderia tornar mais difícil para alguns de seus colegas republicanos (e aliados do presidente) apoiarem”, afirma.

Os EUA abrigam mais de 290 mil venezuelanos. No ano passado, os dados oficiais mostraram que, a cada mês, ao menos 2 mil venezuelanos entraram com pedidos de asilo no país – a maior parte se concentra no sul da Flórida e, por isso, os políticos do Estado, como Marco Rubio, dão atenção especial ao tema. 

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