Russian Foreign Ministry via AP
Russian Foreign Ministry via AP

Trump revelou informações altamente confidenciais a autoridades russas, diz 'Post'

A reportagem cita fontes do governo que afirmaram que, ao expôr os dados, o presidente comprometeu uma importante fonte de inteligência sobre o Estado Islâmico

O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 19h08

WASHINGTON - O jornal  The Washington Post disse em uma reportagem nesta segunda-feira, 15, que o presidente americano, Donald Trump, teria revelado informações altamente confidenciais ao ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e ao embaixador russo em Washington, Serguei Kislyak, durante reunião entre eles na semana passada na Casa Branca. 

A reportagem do Post cita fontes do governo americano, que afirmaram que, ao expôr as informações, o presidente comprometeu uma importante fonte de inteligência sobre o funcionamento do grupo radical Estado Islâmico. O mais alarmente, disseram as fontes, foi que Trump revelevou a cidade em que a fonte de inteligência parceira dos EUA estava no território ocupado pelo Estado Islânico quando detectou a ameaça.

A informação que o presidente expôs teria sido fornecida por um parceiro americano por meio de um sistema de compartilhamento de inteligência considerado extremamente sensível. Detalhes de como esse sistema funciona ou  informações colhidas por ele são compartilhados com muita restrição mesmo entre os aliados americanos ou dentro do próprio governo dos EUA. 

Essa fonte de inteligência sobre o Estado Islâmico não deu permissão para os EUA compartilharem esse material com a Rússia, e as fontes de Washington que conversaram com o jornal disseram que a decisão de Trump de repassar aos russos essas informações colocou em risco a cooperação de um aliado que tem acesso ao restrito núcleo do Estado Islâmico. 

Após a reunião de Trump, assessores experientes da Casa Branca tiveram de, rapidamente, sair para uma operação de contenção de  danos, fazendo ligações para a CIA e para a NSA (Agência de Segurança Nacional). 

Uma fonte do governo, familiar com a reunião, afirmou que o tipo de informação revelada tem um dos mais altos níveis de sigilo utilizados pelas agências de espionagem, conhecida no meio como 'code-word'. "Trump revelou mais informações ao embaixador russo do que nós temos compartilhado com nossos aliados", afirmou a fonte, em condição de anonimato. 

 

A revelação surge ao mesmo tempo em que o presidente enfrenta uma crescente pressão política e legal, em várias frentes, relacionada a seus vínculos com a Rússia. Na semana passada, ele demitiu o diretor do FBI James Comey no meio de uma investigação da agência sobre os possíveis vínculos entre a campanha presidencial de Trump e Moscou. 

O fato de Trump admitir, em seguida, que sua decisão foi direcionada por "essa coisa da Rússia" foi visto por críticos como uma tentativa de obstruir a Justiça. 

Um dia após demitir Comey, Trump deu as boas-vindas, na Casa Branca,  a Lavrov e ao embaixador Kislyak - uma figura central no início da polêmica envolvendo a Rússia nos EUA.

Durante essa reunião, relataram as fontes, Trump decidiu sair do roteiro e começou a descrever detalhes de uma ameaça terrorista do Estado Islâmico relacionada ao uso de computadores laptop em aeronaves.

Para quase todos no governo, discussões sobre questões como essa com um adversário são consideradas ilegais. Mas como presidente, Trump tem ampla autoridade para tirar o sigilo de segredos do governo, o que torna esse ato quase impossível de ser classificado como uma quebra da lei.

"O presidente e o chanceler revisaram ameaças comuns de organizações terroristas e incluíram ameaças à aviação", justificou H. R. McMaster, conselheiro de Segurança Nacional, que participou da reunião com os russos. "Em nenhum momento nenhuma fonte de inteligência ou método foi discutido, assim como nenhuma operação militar que já não fosse pública foi compartilhada."

Segundo a reportagem, a CIA não quis comentar e a NSA não respondeu aos pedidos de resposta.

Fontes do governo expressaram preocupação sobre o modo como Trump lida com informações sensíveis e sigilosas, assim como suas possíveis consequências. Expor uma fonte de inteligência que tem fornecido valiosas informações sobre o Estado Islâmico, disseram, poderia dificultar a habilidade dos Estados Unidos e de seus aliados em detectar futuras ameaças.

"Tudo isso é muito chocante", disse um ex-funcionário do governo americano, próximo a fontes dessa administração. "Trump parece ser muito imprudente e não entende a gravidade das coisas com as quais ele está lidando, especialmente quando se trata de segurança e inteligência nacional. E tudo isso fica ainda pior sob a sombra desse problema que ele tem com a Rússia."

Durante a reunião com Lavrov, Trump parecia estar se gabando sobre o quanto ele sabia sobre a ameaça. "Recebo ótimas informações. Tenho pessoas me fornecendo grandes informações de inteligência todo o dia", teria dito o presidente, segundo uma fonte do jornal.

 Trump teria discutido aspectos da ameaça que os EUA conseguiram detectar graças à capacidade de espionagem de parceiros-chave. Ele não revelou especificamente o método de coleta de informações, mas descreveu como o EI estava buscando elementos para um plano específico e quanto dano esse ataque poderia causar em variadas circunstâncias.

O Washington Post reteve e não publicou os principais detalhes do plano, incluindo o nome da cidade, após as fontes alertarem que a publicação desses dados poderiam colocar em risco importantes capacidades de inteligência americana.

A identificação da localização é considerada particularmente problemática, segundo as fontes, porque a Rússia poderia usar esses detalhes para identificar esse ou esses espiões aliados dos EUA e a estrutura de inteligência na qual ele está envolvido. Essa estrutura pode também ser utilizada para obter detalhes sobre a movimentação das forças da Rússia na Síria. Moscou estaria muito interessado em identificar essa fonte e destruí-la, segundo o jornal.

Rússia e os EUA veem o Estado Islâmico como inimigo e compartilham informações limitadas sobre ameaças terroristas. Mas as duas nações têm agendas conflitantes na Síria, onde Moscou enviou forças militares e pessoal para apoiar o presidente Bashar Assad. Ao mesmo tempo, os EUA lideram uma coalizão internacional que apoia as forças rebeldes que lutam contra Damasco.

Segundo o jornal, ainda uma questão básica, a informação compartilhada com os russos não deveria ser dividida pelos EUA com ninguém. Sob as regras da espionagem, governos e agências individuais têm controle significativo sobre o que e como as informações coletadas podem ser disseminadas, mesmo depois de terem sido repassadas. Violar essa prática reduz a confiança considerada essencial para compartilhar segredos.

As fontes do jornal não identificaram quem é o aliado dos EUA, mas disseram que ele já demonstrou recentemente frustração com a incapacidade de Washington de proteger informações sensíveis relacionadas a Iraque e Síria. / WASHINGTON POST 

 

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