BEATRIZ BULLA/ESTADAO
Jimmy Dakolias, em um de seus dois restaurantes em Waukesha  BEATRIZ BULLA/ESTADAO

Trump se diz alternativa à anarquia para conter perda de eleitor branco no interior

Embora sem grande população, Estado é considerado decisivo na eleição de novembro; democratas buscam ampliar a vantagem de Biden apostando no desânimo com o presidente em cidades como Waukesha

Beatriz Bulla, ENVIADA ESPECIAL A WAUKESHA, EUA, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 05h00

Na quarta-feira, jovens lotavam os bares no centro de Waukesha, subúrbio de Milwaukee, no Estado de Wisconsin, enquanto ônibus escolares deixavam crianças em casa.

A busca pela normalidade em meio à pandemia contrastava com o discurso de Donald Trump, a uma hora dali, em meio a escombros deixados por protestos antirracismo em Kenosha.

O republicano insiste que subúrbios serão destruídos por anarquistas se ele não for reeleito. Ele busca os eleitores brancos do Meio-Oeste, de regiões como Waukesha, onde a eleição pode ser decidida. 

Wisconsin, com 5,8 milhões de habitantes, foi um dos Estados do Cinturão da Ferrugem que os democratas consideravam um território seguro em 2016, mas cederam a vitória a Trump por margem apertada.

No Estado, Trump teve 22,7 mil votos a mais do que Hillary Clinton – 0,7 ponto porcentual de diferença. Foi o suficiente para o Partido Republicano ganhar dez delegados no colégio eleitoral.

A última vez que um republicano havia vencido ali fora em 1984, com Ronald Reagan. Com conquistas semelhantes em Michigan e Pensilvânia, Trump conseguiu a maioria dos delegados. 

Em 2020, Wisconsin é considerado o possível ponto de virada da eleição e Waukesha é um dos três subúrbios cruciais dos arredores de Milwaukee, para quem quer que seja o vitorioso. 

Os ganhos dos democratas nas grandes cidades, como em Madison e Milwaukee, costumam ser neutralizados pelo voto republicano nas áreas rurais. É nos subúrbios das regiões metropolitanas que as campanhas disputam a eleição. Em Estados como Arizona e Virgínia, uma mudança demográfica tornou a população mais diversa e mais democrata nos subúrbios nos últimos anos. Mas, no Wisconsin, a mudança tem sido mais lenta e a vitória de Joe Biden é mais difícil. 

Em Waukesha, a volta às aulas e o receio de que isso aumente os casos de coronavírus tem sido o principal assunto. A cidade é um pilar da força conservadora de Wisconsin e moradia de um perfil de eleitorado que tem se distanciado de Trump: brancos moderados e com alta escolaridade. 

Quase 38% dos adultos com mais de 25 anos na cidade têm diploma universitário, mais do que a média nacional de 31,5%. A base fiel de Trump são os homens brancos de baixa escolaridade.

A tarefa da campanha democrata não é conquistar a maioria dos votos na região tradicionalmente conservadora, mas ampliar a vantagem de Biden na comparação com Trump. A aposta é em um desânimo com o presidente. Em um Estado onde a vitória se deu por 0,7 ponto, as pequenas margens importam. Hillary teve 33% dos votos de Waukesha em 2016. A conta da campanha democrata é de que é suficiente a Biden ter pouco mais de 42% dos eleitores da região para ganhar todo o Estado.

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No subúrbio conservador de Milwaukee, há poucas placas de apoio a Trump nos quintais e parte dos eleitores republicanos tenta minimizar algumas plataformas do presidente, como a abordagem sobre os protestos. Democratas e republicanos ouvidos pelo Estadão dizem que os americanos precisam reaprender a dialogar, um discurso diferente do adotado por trumpistas mais fervorosos.

É comum também encontrar republicanos que não gostam de Trump, como Jimmy Dakolias, de 38 anos. “Em quem eu votei em 2016? Eu sou republicano, eu votei no Partido Republicano. Gosto de falar assim. Votei nos republicanos, não em Trump”, afirma. Segundo ele, foi a primeira vez que não se reconheceu no escolhido pelo partido. 

“Não queria sentir que fui parte da eleição dele, caso fosse uma tragédia, mas os republicanos têm uma plataforma mais amigável ao pequeno empreendedor do que os democratas”, afirma Dakolias, em uma das mesas vazias do Sobelman’s Pub, um dos dois restaurantes que possui com a mulher. Trump ficou bem atrás de Mitt Romney nas primárias em Waukesha, em 2016, com 22% dos votos.

A principal reclamação de Dakolias é a ausência de diretrizes claras do governo sobre como conduzir os negócios na pandemia. “Quando as quarentenas começaram, não tivemos orientação. Tive um funcionário doente e não sabia qual era meu papel. Fechei as portas por mais tempo do que o determinado pelo governo, porque não achava seguro reabrir e não queria que parecesse que eu estava celebrando a reabertura. Os bares não têm limitação de ocupação e estão todos lotados de jovens, mas os restaurantes, como este, estão vazios”, afirma.

Às sextas-feiras, o restaurante costumava ter duas horas de fila de espera. Agora, atende apenas dez mesas por uma noite inteira. 

“Eu não sei onde pegar a informação correta, em quem confiar”, afirma. Mesmo assim, ele deve votar novamente no Partido Republicano – o que significa dar um voto a Trump. “Poderia ter sido melhor, mas também poderia ter sido pior. É uma situação inédita, ninguém sabe como outros lidariam. A pandemia aconteceria independentemente de quem estivesse na Casa Branca.”

Os democratas não estão dispostos a repetir o erro de 2016, quando Hillary não visitou o Wisconsin. Biden esteve em Kenosha, dois dias depois de Trump, e criticou a gestão do presidente. Na semana seguinte, os vices Kamala Harris e Mike Pence foram ao Estado. Há algumas semanas, Eric Trump, filho do presidente, foi a Waukesha.

‘Maníaco’. Lynn Gaffey foi uma das eleitoras locais que votou em Hillary em 2016. Nascida na cidade, ela culpa o presidente pela piora no diálogo entre eleitores com visão diferente de mundo e pelos atos de violência em protestos. “Estamos sendo presididos por um maníaco. Ele causa muito tumulto com sua retórica”, afirma. “Pode escrever aí: quem está falando é a velhinha de cabelo roxo de Waukesha”, diz Lynn, dona de um ateliê de artes na cidade. 

A campanha republicana aposta que moradores de subúrbios predominantemente brancos e com boas condições de vida, como os de Waukesha, vão se assustar com os protestos em Kenosha e em Portland. Só 3,6% dos habitantes da cidade são negros, um número baixíssimo até para os padrões do Wisconsin, onde 6,7% dos moradores são negros. No país, a proporção é de 13,4%.

Trump argumenta que Biden deixará os EUA à deriva entre anarquistas e radicais. Nas ruas da cidade, um raro consenso entre moradores de diferentes perfis é a crítica a atos de depredação nos protestos, mas a propaganda do medo feito pela campanha republicana não afastou os eleitores de centro de Biden. “Concordo com o Black Lives Matter, mas os protestos não podem depredar cidades. O racismo precisa ser resolvido e não apenas com foco na polícia”, afirma Tom Fenske, branco, de 65 anos, que se declara eleitor democrata. 

“A violência precisa parar dos dois lados. Os manifestantes não podem destruir os negócios, mas o governo precisa entender que a população quer mudanças”, afirma Dakolias. Questionado se concorda com a ideia de que a sociedade americana é racista, ele diz: “Vou passar essa pergunta. Preciso estudar mais para responder e ter minha opinião. Infelizmente, a imprensa quer manipular certas situações para atrair atenção, coloca fogo nos dois lados.”

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Nos Estados Unidos, voto de milhares de despejados na crise é cobiçado

Instituto aponta que 40 milhões de americanos podem perder casa; suspensão de despejos ganha apoio em Estados como Wisconsin

Beatriz Bulla, ENVIADA ESPECIAL A WAUKESHA, EUA, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 05h00

Na disputa contra o democrata Joe Biden, os 10 votos de Wisconsin no colégio eleitoral são considerados cruciais para a reeleição de Donald Trump. Em um Estado com disputa apertada entre democratas e republicanos, a escolha eleitoral de milhares de despejados em meio à pandemia de covid-19 pode ter um peso relevante. 

Uma vez por dia, Michelle Williams estaciona seu carro em frente da casa onde morava, em Waukesha, a 25 minutos de Milwaukee, maior cidade de Wisconsin, carregando apenas uma carteira e um pote de xampu. Há quatro semanas, ela foi despejada, mas teve o aval dos moradores atuais para tomar banho no local enquanto não consegue pagar um novo aluguel. “Moro no meu carro”, disse, apontando para uma minivan cinza. 

No dia 2, o Centro de Controle de Doenças (CDC), uma agência do Departamento de Saúde dos EUA, anunciou a proibição temporária dos despejos, com aval de Trump. A ordem vale até 31 de dezembro, mas, segundo especialistas, locatários de baixa renda seguem expostos ao risco. 

A maioria dos despejos durante a pandemia, segundo dados do Eviction Data Lab, da Universidade de Princeton, foi por baixas quantias. Em Phoenix, no Arizona, 20% dos 1,7 mil casos de despejos em julho foram por menos de US$ 500. O fim do auxílio emergencial e a incerteza sobre as medidas de suspensão dos despejos na pandemia aumentam o risco de que casos como o de Michelle se repitam aos milhares. 

Em agosto, especialistas publicaram um artigo no site do Aspen Institute no qual afirmam que entre 30 e 40 milhões de americanos corriam risco de não ter onde morar. Mesmo com uma economia pujante, o preço alto do aluguel sempre foi um problema das grandes cidades americanas, com altos índices de despejo. Com a recessão e o desemprego, em consequência do vírus, a previsão é de que a situação piore.

Um levantamento feito em 17 cidades pelo Eviction Data Lab mostra que os despejos se mantiveram abaixo da média nos meses de pandemia graças às medidas de contenção. Em julho, no entanto, a região de Milwaukee foi a única entre as analisadas a ter aumento de casos, depois que a proibição local expirou, em maio. 

No mês seguinte, o Milwaukee Journal Sentinel, diário local, revisou os registros na Justiça e concluiu que havia 42% mais despejos nas duas primeiras semanas do mês, na comparação com o mesmo período de 2019. 

“As intervenções de curto prazo estão ajudando, mas o problema pode ser maior do que o que estamos vendo. Mesmo a proibição dos despejos coloca muita responsabilidade sobre o locatário. Eles precisam saber que a ordem existe, entender como se qualificar e o locador precisa concordar. Sabemos que as pessoas acabam saindo antes de iniciar o processo formal de despejo”, disse Peggy Bailey, vice-presidente do Centro sobre Orçamento e Prioridade Política, com sede em Washington. 

O Eviction Data Lab registrou um pico nos despejos na semana anterior à aprovação da medida e agora aguarda novos dados para avaliar o impacto da medida do CDC. Os sinais iniciais, porém, são ruins. Uma pesquisa do governo americano feita em julho apontou que um terço dos locatários poderia não ter dinheiro para o aluguel em agosto.

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“Estamos preocupados. A proibição de despejo é só um curativo, não resolve o problema. Com os salários baixos é difícil imaginar como as pessoas que perderam renda conseguirão pagar o aluguel a partir de janeiro e o acumulado do que ficarão devendo”, diz Peggy.

“O presidente precisa viabilizar o novo auxílio”, afirma Michelle, que era contratada para fazer a limpeza de agências bancárias em Waukesha por US$ 11 por hora, mas foi dispensada na pandemia. Com a volta gradual dos serviços, ela foi reempregada, mas com jornada reduzida. 

A maioria das medidas de socorro econômico aos americanos, parte do pacote de US$ 2,2 trilhões anunciado no início da pandemia, expirou sem que o Congresso aprovasse um substituto. Em agosto, Trump atropelou os congressistas, após o colapso das negociações entre republicanos e democratas, e assinou decretos em apoio aos desempregados. 

Apesar de os pagamentos serem mais baixos do que no início da pandemia, o presidente conseguiu vender a imagem de que trabalha pelos desempregados. “Eu já votei em republicanos e democratas, mas neste ano votarei em Trump. Ele nos entregou o auxílio da primeira vez e está trabalhando para nos entregar de novo. Ele tem se preocupado com os desempregados”, disse Michelle.

No entanto, para Mauricio Moura, professor da Universidade George Washington, a avaliação de que Trump personifica o auxílio a desempregados deve ter pouco impacto na eleição. “Esta eleição tem uma característica única: a quantidade de eleitores que mudam de voto é quase nula – de 5% a 6%. Há muito pouco espaço para convencimento. As campanhas estão focadas em conseguir maior participação da própria base”, afirmou. “A narrativa de que Trump é o pai do auxílio seria uma estratégia de convencimento, o que neste momento não faz diferença.”

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Cidade de Kenosha se torna epicentro da disputa política entre Trump e Biden

Os dois candidatos visitaram a cidade do Wisconsin após os protestos que ocorreram depois que o negro Jacob Blake foi baleado por um policial branco; republicano se mostrou defensor da lei e da ordem e democrata visitou parentes da vítima

Beatriz Bulla, enviada especial a Kenosha, EUA, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 21h45

Anayah Erven inverteu a lógica de entrevistadora e entrevistada ao saber que a reportagem do Estadão é do Brasil: “Você escolheu se mudar para os Estados Unidos? Por que morar nesse país tão injusto?”. A sensação da jovem de 16 anos é que a terra de promessas e oportunidades apresentada na convenção republicana que confirmou a candidatura de Donald Trump não é para ela. 

A quatro quarteirões de onde mora, em Kenosha, no Wisconsin, Jacob Blake, negro como ela, levou sete tiros à queima-roupa da polícia e mudou por completo a rotina da pacata cidade. “A injustiça contra nós, negros, está em toda parte dos EUA, está na minha rua”, disse Anayah.

Durante as últimas duas semanas, Kenosha ganhou as manchetes americanas e atenção mundial como um microcosmo da divisão social pela qual os Estados Unidos passam. A história da cidade é a do interior do meio-oeste americano, composto majoritariamente por brancos, palco de sucessivos casos de violência policial contra negros e politicamente rachado desde a eleição de Trump. 

Em 2014, a história de violência policial e protestos era a mesma em Ferguson, no Missouri, e, em maio deste ano, em Minneapolis, no Estado de Minnesota, quando a morte de George Floyd despertou uma onda maior de manifestações antirracismo em todo o país.

Kenosha viveu uma semana de confronto entre policiais e manifestantes, com cenas de prédios queimados, janelas quebradas, tiros e correria nas ruas, seguida de dias de silêncio forçado. Quando Donald Trump e Joe Biden visitaram a cidade na semana passada, em plena campanha eleitoral, homens da guarda nacional e da polícia local vigiavam as esquinas. Às 19 horas, o toque de recolher esvaziava as ruas.

Tapumes cobriam janelas e portas de lojas e restaurantes, numa tentativa de proteger os negócios de depredação. Para entrar nos hotéis, com portas trancadas, os hóspedes precisavam telefonar antes e se identificar. Jornalistas de vários países eram os poucos a circular pelas ruas ao anoitecer. 

A cena era completamente diferente do que a cidade de 100 mil habitantes do sul do Wisconsin, com pequenas casas térreas, amplos gramados e sem grades, estava acostumada a vivenciar. 

Pobreza.

Em Kenosha, a situação econômica é pior do que no restante do país. A renda média familiar anual na cidade é de US$ 53 mil, quase 18% menor do que a média nacional. Os negros são pouco mais de 10% da população, mas 18% dos que vivem abaixo da linha da pobreza na cidade. Em todo o país, uma média de 12% das pessoas vivem nessa situação. Menos de um quarto dos moradores de Kenosha tem diploma universitário.

Até o fim dos anos 80, a cidade era conhecida por sediar uma fábrica da Chrysler, que fechou a planta de montagem em 1988 e demitiu mais de 5 mil funcionários. Uma reportagem no jornal local de 2018 dizia que Kenosha tinha abandonado o posto de “cidade fabril” para ganhar o título de “cidade de depósitos de armazenamento”. Os salários e benefícios diminuíram.

Atrás nas pesquisas de intenção de voto, Trump explorou o tumulto em Kenosha como plataforma política. Há menos apoio aos protestos desta vez do que aos que aconteceram após a morte de Floyd. Mal avaliado pela gestão da pandemia, Trump volta seu discurso para a defesa da lei e da ordem e a acusação de que os democratas representarão o caos social. 

Antes de embarcar a Kenosha, o republicano defendeu o jovem branco que usou um fuzil AR-15 para atirar contra manifestantes – matou dois e feriu um terceiro –, e na cidade chamou os protestos antirracismo de “terrorismo doméstico”. Jornais conservadores e blogs deram especial atenção à ficha corrida de Blake, na qual consta uma ordem de prisão emitida em 6 de junho por agressão sexual de terceiro grau, invasão de propriedade e conduta desordeira. Mas não está claro se a polícia tinha conhecimento da ordem de prisão ao abordar Blake.

Racismo.

Entre os apoiadores de Trump, o discurso comum é que não há racismo na sociedade americana. “Não há racismo sistêmico. Eu mesma tenho amigos negros que também não acham que há racismo e eu votei em Obama em 2008. Não há racismo, isso é algo que os democratas dizem porque querem nos separar”, afirmou Danell Vincenti, uma das eleitoras de Trump que foi ao centro da cidade manifestar apoio ao presidente. “Jacob Blake resistiu à prisão provavelmente, tem muito mais coisa nessa história que não sabemos”, disse, ao justificar a ação policial.

Também é frequente o incômodo dos republicanos com o pedido de manifestantes para que sejam retirados recursos da polícia. Trump tem vinculado a ideia a Biden, apesar de o democrata ter dito que não apoia o pedido.

Segundo o presidente, os democratas permitem a presença de “agitadores e anarquistas” nas ruas das cidades. Dois dias após Trump agradecer aos policiais pelo trabalho em Kenosha, Biden foi à cidade para falar com os parentes de Blake.

Em jogo estão os dez delegados que Wisconsin tem no Colégio Eleitoral. Biden reconhece a energia jovem das ruas que exige a erradicação da discriminação racial, enquanto Trump ignora os apelos pelo fim do racismo e defende policiais, armas e ordem.

Em 2016, Trump ganhou a maioria dos votos do Condado de Kenosha por 255 votos de diferença de Hillary Clinton, o equivalente a 0,3 ponto porcentual. Em 2008 e 2012, o mesmo condado votou em Barack Obama com margens de 18 e 12 pontos a mais do que os candidatos republicanos. A virada apertada no meio-oeste em regiões que deram a vitória a democratas nos anos anteriores foi o componente inesperado que levou Trump à Casa Branca na última eleição. Desta vez, Biden tem 7,3 pontos a mais que Trump nas pesquisas do Estado. 

A mensagem de lei e ordem trumpista tem apelo na base fiel do republicano, mas ainda não ressoou entre independentes e moderados. Uma pesquisa do YouGov apontou que 56% dos adultos acreditam que a violência nos protestos pode piorar se Trump for reeleito e só 18% acreditam que melhorará com o republicano na Casa Branca. 

Para Karen Eckert e Maggie Dowse, nascidas em Kenosha, os atos de depredação são isolados, causados por pessoas de fora da cidade. “O vandalismo foi provocado por milicianos com armas que não podem ser confundidos com a mensagem principal do movimento Black Lives Matter”, disse Karen. As duas vizinhas se espremiam para chegar o mais próximo possível de Joe Biden quando o candidato democrata visitou a cidade na quinta-feira. 

Mary Altorfer trabalha na biblioteca pública da cidade e diz ter ficado "muito triste" com a violência, "mas nunca com medo".  "Aquele jovem que atirou nos manifestantes não é daqui, ele foi convocado por uma postagem de facebook", afirma Mary. O atirador, Kyle Rittenhouse, é do vizinho Estado de Illinois. Um grupo na rede social chamada "Guarda de Kenosha" promoveu um evento conclamando "cidadãos armados para proteger vidas e propriedades" na cidade. Mais de 2,6 mil pessoas confirmaram presença. O grupo foi fechado pelo Facebook, mas só depois da repercussão dos tiroteios a manifestantes.

A desigualdade entre brancos e negros nos EUA não é uma novidade que surgiu durante o governo Trump, mas eleitores democratas afirmam que o presidente acirrou um conflito racial já existente. “As coisas não eram assim antes de Trump ser presidente. As pessoas agora eventualmente levantam bandeiras do Exército Confederado em seus jardins. Ele trouxe o que há de pior nas pessoas”, afirmou Maggie.

Fechar feridas.

Enquanto Trump e Biden buscaram votos em Kenosha, a comunidade local trabalha para curar as feridas abertas na cidade. Lideranças de movimentos negros e jovens pintaram os tapumes que cobriam os negócios da cidade com mensagens coloridas, pedidos de igualdade racial e sinais de apoio a Kenosha.

Com a irmã, Ariana, Anayah desenhava flores nos tapumes de uma loja na rua onde Jacob Blake foi baleado. As duas participaram de protestos contra o racismo em junho após a morte de George Floyd. Na escola católica onde estudam, os colegas, brancos, diziam que elas não precisavam protestar, pois nunca aconteceria algo semelhante em Kenosha.

“Quando meus amigos ou os políticos tentam justificar a ação dos policiais eu fico enojada. Será que é tão difícil reconhecer que há um problema com nossa polícia? E que são nossas vidas que estão em risco?”, afirma Anayah. 

Os parentes de Jacob Blake têm sido uma voz importante na tentativa de unificação da comunidade local. No dia da visita de Trump à cidade, quando os moradores temiam distúrbios, a família organizou um encontro de manifestantes na esquina onde ele foi baleado. Em vez de saírem em marcha para o centro da cidade, onde o ambiente era mais tenso, os presentes fizeram uma confraternização com hambúrguer, música, crianças brincando, teste de covid-19, registro de eleitores e coleta de mantimentos para vizinhos da região. Justin Blake, tio de Jacob, foi um dos articuladores do evento em caráter pacífico.

"Queremos justiça para Jacob, queremos o policial indiciado e acusado, para a nossa vida seguir. Estamos felizes que Jacob está vivo e sua vida é preciosa”, disse Justin. Blake sobreviveu, mas está paralisado da cintura para baixo.

Na manhã seguinte à “festa” organizada pelos Blakes, um homem negro, que aparentava ter pouco mais de 50 anos, sentava na varanda de uma casa na mesma esquina. Em silêncio, ele mantinha o olhar vago. “Eu não posso falar sobre o que aconteceu. Porque falar sobre isso me faz viver tudo de novo e simplesmente não consigo mais. Esse país precisa se curar”, disse, sem dar seu nome.

Quase 15 dias após os tiros contra Blake, alguns tapumes começavam a ser retirados e Kenosha voltava a uma vida normal, longe dos candidatos presidenciais e dos holofotes. Para os jovens da região, no entanto, voltar ao normal não será suficiente: “Os políticos vêm aqui e olham a cidade pela janela. Passam. Nós vivemos isso”, diz Anayah.

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