Evan Vucci/AP
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Trump será capaz de superar seus rancores?

Líder americano levou uma semana para enviar condolências a Peña Nieto pelo terremoto do dia 8 e na terça-feira só se manifestou pelo Twitter

León Krauze / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2017 | 05h00

Na madrugada de 19 de setembro de 1985, um violento terremoto sacudiu a Cidade do México com uma força jamais sentida desde o tremor de 1957, que derrubou o Anjo da Independência, um dos monumentos mais famosos da cidade, da sua coluna de quase 37 metros. Em 1985, a estátua dourada se manteve no alto, mas as consequências do terremoto foram devastadoras. Mais de 12 mil mexicanos morreram, segundo algumas estimativas.

Na terça-feira, exatamente 32 anos depois, outro violento terremoto fez estremecer a capital mexicana. Mais de 40 edifícios ruíram, as cenas atrozes exibidas pela internet eram a versão ao vivo de um filme apocalíptico. No sul da Cidade do México, o sofrimento foi quase insuportável quando as autoridades confirmam o desmoronamento da escola Enrique Rébsamen, com dezenas de crianças mortas e outras desaparecidas.

Mas, em meio à escuridão dessa terrível tragédia, uma luz ainda brilha. Como em 1985, a solidariedade mexicana levantou um país mergulhado na violência e numa insatisfação social e política. Inúmeros voluntários se uniram aos socorristas na busca de pessoas sob os escombros e cidadãos foram para as ruas oferecendo água e alimento.

A solidariedade dos mexicanos diante de uma calamidade é bem conhecida em todo o mundo, especialmente nos EUA. Em 2005, quando da passagem arrasadora do Katrina, o governo mexicano enviou um comboio militar com 45 veículos e 200 homens para ajudar as vítimas do furacão, servindo 170 mil refeições e distribuindo mais de 180 mil toneladas de suprimentos aos necessitados. O México também enviou ajuda aos EUA após o furacão Harvey em agosto. 

Infelizmente, horas depois desta tragédia no México, a solidariedade não é recíproca. O mais recente episódio ilustrando o comportamento moralmente condenável do governo de Donald Trump teve início há dez dias, quando outro terremoto importante atingiu o México, mergulhando Oaxaca e Chiapas na dor e no sofrimento.

Levou uma semana para Trump se comunicar com o presidente do México, Enrique Peña Nieto, e oferecer suas condolências, após um pedido de desculpas no Twitter pela gafe diplomática. Na terça-feira, Trump encontrou tempo e energia para enviar um tuíte pedindo a Deus para abençoar a Cidade do México. 

Mas nem sempre foi assim. Em 1985, o governo de Ronald Reagan rapidamente expressou sua solidariedade e total apoio ao vizinho do sul. A primeira-dama Nancy Reagan viajou para a capital mexicana menos de uma semana depois. Ali, ela caminhou em meio aos escombros e conversou com socorristas e sobreviventes. Trouxe consigo um cheque de US$ 1 milhão de ajuda e uma carta do marido, na qual Reagan expressava sua “simpatia e apoio” aos mexicanos no momento em que enfrentavam com “grande força a tremenda tragédia”.

Já no final da sua visita, Nancy disse a jornalistas que aquele dia fora uma experiência muito comovente. “Tenho uma enorme admiração pelo povo mexicano e pelo que estão fazendo para se ajudarem. Somos bons vizinhos e sempre seremos.”

Trump deveria, ao menos uma vez, seguir o exemplo de Reagan e provar que, apesar de sua longa, injusta e pública confrontação com o México e os mexicanos, dos dois lados da fronteira, os anjos da guarda da América (e talvez o de Trump também) prevalecerão diante da tremenda tragédia. O preconceito xenófobo deve ter seu limite quando se trata de um sofrimento humano. A alternativa seria cruel e também pouco condizente com os valores e os padrões americanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É UM PREMIADO JORNALISTA AMERICANO

 

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