Jim Lo Scalzo/EFE/EPA
Jim Lo Scalzo/EFE/EPA

Análise: Trump só tem a perder com retirada das tropas na Síria

Nome de Trump já é lama entre os combatentes curdos sírios que seu governo abandonou e qualquer favor que pretendesse obter com a Turquia provavelmente azedou depois que ele apoiou sanções bipartidárias

Ishaan Tharoor, The Washington Post

16 de outubro de 2019 | 05h00

Com a situação na Síria mudando rapidamente, o presidente Donald Trump parece ter alcançado o pior de todos os mundos. O nome de Trump já é lama entre os combatentes curdos sírios que seu governo abandonou quando essencialmente deu à Turquia a luz verde para uma invasão na semana passada.

Essas incursões no nordeste da Síria, alertou o próprio Departamento de Defesa de Trump na segunda-feira, “solaparam” a luta contra o Estado Islâmico e ameaçam engolfar grupos de tropas americanas que ainda permanecem. E qualquer favor que Trump pretendesse obter com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan provavelmente azedou depois que ele em seguida apoiou sanções bipartidárias do congresso contra a Turquia por realizar uma ofensiva anticurda que só tinha sido possível com a aquiescência do presidente americano.

“Diante de uma crise de sua própria autoria, uma superpotência instável recorreu a sanções econômicas para fazer de conta que ainda é relevante”, observou secamente a Economist. Em meio à turbulência, o argumento de Trump pode ser que ele não queira ser relevante, pelo menos na área de tensão que é a Síria devastada pela guerra. Ele culpa rotineiramente o governo Obama, do qual herdou o complicado legado de envolvimento dos EUA na guerra síria, incluindo sua firme aliança com a principal facção dos curdos sírios. Melhor, tuitou Trump, não ter que lidar com nada isso. E para esse fim, ele poderia estar alcançando seu desejo.

Como parte de um acordo com o regime do presidente sírio Bashar Assad, as Forças Democráticas da Síria (SDF), a facção liderada pelos curdos sírios apoiada pelos Estados Unidos, mas encarada pela Turquia como o análogo a um grupo separatista curdo dentro de suas próprias fronteiras, convidaram as forças do regime para ajudar a frustrar a Turquia e seus representantes militantes.

“Pela primeira vez em anos, as forças do governo sírio chegaram às cidades de Tabqa, nos arredores de Raqqa, e Ain Issa, que serviu como sede da administração autônoma liderada pelos curdos no nordeste da Síria, a cerca de 32 quilômetros da fronteira turca”, relataram meus colegas. “Imagens publicadas pela Agência de Notícias Árabe da Síria (Sana), oficial, mostraram tropas do governo chegando em caminhonetes e agitando bandeiras da Síria.”

Tanto os curdos sírios quanto a Turquia acusaram um ao outro de libertar detidos do Estado Islâmico dos campos de detenção quando as batalhas começaram. Os europeus se preocupavam, lamentando a decisão de Trump de se retirar. “Não temos poderes mágicos” para impedir o ataque turco, disse o ministro das Relações Exteriores da Espanha, Josep Borrell, que deve se tornar o chefe de política externa da União Europeia ainda este ano. “Se as tropas americanas não tivessem se retirado, esse ataque seria impossível. A retirada das tropas americanas era uma condição para viabilizar o ataque”.

Na noite de segunda-feira, a atenção recaiu sobre um possível conflito entre as forças do regime sírio e combatentes da Turquia, enquanto ambos convergiam para a cidade de Manbij, onde um destacamento de soldados americanos se preparava para partir às pressas.

O turbilhão de eventos marcou a súbita reconfiguração do campo de batalha da Síria, com os americanos saindo da briga, os turcos esperando afirmar sua autoridade sobre as fronteiras da Síria, os curdos se submetendo a Damasco e o regime consolidando ainda mais seu controle sobre uma nação devastada pela guerra. As cenas em Riad na segunda-feira em que o presidente russo Vladimir Putin se encontrou com o rei Salman da Arábia Saudita pareciam se somar à impressão crescente de um tapete geopolítico sendo puxado sob os pés americanos.

Nas incertezas da guerra, pelo menos uma coisa está ficando muito clara: o experimento de meia década de um enclave curdo sírio autônomo - apoiado por armas e poder aéreo americanos - chegou a um temeroso impasse. Jornalistas estrangeiros que reportam de território outrora controlado pelo SDF fugiram para o Iraque para não entrar em conflito com o regime de Assad, que colocou na lista negra os repórteres que entram no país em áreas controladas por rebeldes. Autoridades curdas sírias já aceitaram a necessidade de aderir a Assad e seus aliados na Rússia e no Irã.

“Sabemos que teremos que fazer dolorosas concessões a Moscou e a Bashar al-Assad se trabalharmos com eles”, escreveu Mazloum Abdi, comandante do SDF, em um artigo para a Foreign Policy. “Mas se tivermos que escolher entre concessões e o genocídio de nosso povo, certamente escolheremos a vida para o povo”.

Abdi enfatizou que não esperava que os Estados Unidos fossem a “polícia do mundo”, mas que pelo menos, Trump usasse a “influência de Washington para mediar uma paz sustentável entre nós e a Turquia”.

Parece que isso não vai acontecer. Trump disse em comunicado na segunda-feira que estava “totalmente preparado para destruir rapidamente a economia da Turquia se os líderes turcos continuarem nesse caminho perigoso e destrutivo”.

Mas os críticos sugeriram que as medidas punitivas propostas - incluindo uma tarifa sobre o aço e sanções direcionadas a indivíduos turcos - eram relativamente leves e simbólicas. Além disso, Trump também começou a repetir os argumentos de Ancara sobre o SDF, insistindo em suas conexões com um grupo listado como terrorista nos EUA e ignorando o tremendo sacrifício que eles fizeram em nome da coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico.

“Trump minimizou o relacionamento curdo como uma pura transação. Eles receberam muito dinheiro e equipamentos, ele destacou”, observou Julian Borger, do Guardian. “Mas não foi uma transação para os soldados que lutaram ombros a ombro, e os civis mortos como resultado do entendimento Trump-Erdogan. Os EUA já decepcionaram os curdos antes, mas a pura insensibilidade de Trump tornou difícil imaginar que essa traição venha a ser perdoada em futuro próximo”.

Essa aparente insensibilidade é um tema característico da política externa de Trump. “Sempre observei a abordagem adotada pelo governo como muito transacional e de curto prazo”, disse o ex-senador Bob Corker, republicano, que presidiu o Comitê de Relações Exteriores do Senado, a meus colegas no fim de semana. “Está quase buscando manchetes para o dia seguinte, mas não está realmente pensando no impacto de longo prazo sobre nosso país”.

Mas os acontecimentos dos dois últimos meses apontam para um fracasso de longo prazo. O editor adjunto da página editorial do Washington Post, Jackson Diehl, argumentou que um desdobramento da agenda de Trump começou no início de setembro, começando com seu abrupto encerramento de uma cúpula com o Taleban afegão. Continuou com a recusa do Irã de ser intimidado pela campanha de “pressão máxima” de Trump e iniciou conversações com o presidente dos EUA. Depois, em reuniões separadas com interlocutores norte-coreanos e chineses sobre desnuclearização e comércio, respectivamente, a Casa Branca poderia, na melhor das hipóteses, apenas saudar sinais cosméticos de progresso.

“O alvoroço em Washington pela corrupção do presidente Trump no caso da Ucrânia e a má-conduta na Síria obscureceram uma história mais ampla”, escreveu Diehl. “Em pouco mais de um mês, praticamente todas as outras iniciativas de política externa que o governo Trump adotou implodiram - graças principalmente ao comportamento cada vez mais desequilibrado do presidente”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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