Charlie Neibergall/AP
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Trump subestima os Estados Unidos

Magnata critica economia americana, mas país ainda está à frente de europeus, japoneses e chineses

Fareed Zakaria*, THE WASHINGTON POST

20 Setembro 2015 | 02h02

O programa do pré-candidato à presidência, Donald Trump se concentra na promessa de seus talentos pessoais. Ele se diz "a pessoa mais bem-sucedida que jamais concorreu à presidência". Mas, se há um conceito que anima a sua candidatura é o de que os EUA foram passados para trás por seus concorrentes na área econômica. Em seu discurso sobre política externa, Trump explicou que os EUA estão sendo superados por China, Japão e México, porque seus líderes são "mais inteligentes, espertos e ousados". "Eles estão nos matando", disse.

Este é um momento estranho para fazer tais acusações, porque a realidade mostra uma situação quase inteiramente oposta. Os EUA exibem um predomínio no panorama econômico global superior ao de qualquer outra época desde os pontos altos da presidência de Bill Clinton - e talvez até mais.

No trimestre passado, a economia americana cresceu 3,7%. Agora, o crescimento anual é quase o dobro do da Europa e quatro vezes o do Japão. O desemprego está em 5,1%, o menor dos últimos sete anos. O déficit, em termos de porcentagem do PIB, foi de 2,8% em 2014, o menor desde 2007.

"Os EUA saíram da crise de 2008 em condições melhores do que todos os outros países", afirma Ruchir Sharma, diretor do Morgan Stanley. "Os americanos reduziram seu ônus da dívida bem mais do que os europeus, enquanto a dívida da China cresceu astronomicamente para níveis extremamente perigosos. Se olharmos fora da China, o crescimento americano é de fato mais acelerado, inclusive, do que o dos mercados emergentes. Desde a crise de 2008, os mercados de ações dos EUA apresentaram um desempenho superior ao de todos os outros."

Segundo Sharma, nos últimos quatro anos, a parcela do PIB global relativa aos EUA aumentou, enquanto a da Europa e a do Japão caíram. Estive na Europa na semana passada e os empresários estavam preocupados porque os EUA atingiram um novo patamar do predomínio em todos os campos, da tecnologia às finanças.

Os grandes bancos americanos, por exemplo, estavam no epicentro da crise financeira e foram duramente atingidos. Desde então, os banqueiros reclamam da incertezas da política do governo, de autoridades reguladoras excessivamente zelosas, que tentam compensar sua permissividade da época anterior à crise, e da carga pesada da Lei Dodd-Frank, sobre a reforma de Wall Street e a proteção dos consumidores.

Hoje, os bancos americanos têm uma posição mais predominante do que nunca. O Wall Street Journal observa que, nos últimos cinco anos, o valor do JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs e Morgan Stanley aumentou em US$ 254,6 bilhões. No mesmo período, seus concorrentes europeus, Barclays, Credit Suisse, Deutsche Bank, UBS e Royal Bank of Scotland cresceram apenas US$ 9,5 bilhões. Na Itália, perguntaram ao presidente do Barclays, John McFarlane, se os bancos americanos estavam comendo o almoço das instituições de crédito europeias. Ele respondeu: "Eles estão fazendo um bom trabalho. São os únicos que realmente podem se considerar globais e bem-sucedidos."

Comparar o desempenho e a liderança dos EUA à de México, Japão e China é fora de propósito. Trump está parado nos anos 80. Quando o seu livro The Art of the Deal foi publicado, em 1987, os americanos invejavam os líderes japoneses, que eram considerados superiores . Desde então, o Japão se tornou o símbolo da estagnação econômica e da paralisia política. O premiê, Shinzo Abe, tem se mostrado incapaz de aprovar as reformas prometidas e a economia do país continua encolhendo.

O México assiste ao colapso do seu crescimento. Embora seu presidente, Enrique Peña Nieto, seja um líder corajoso que tomou decisões audaciosas, também cometeu alguns erros graves. O mais importante é que o país não estava preparado para a queda dos preços do petróleo que afetaram as receitas do governo e o crescimento do país.

A China registrou três décadas de crescimento e uma política competente. Mas, nos últimos anos, apresentou uma verdadeira compulsão por empréstimos, elevando seu endividamento a níveis sem precedentes. E, nos dois últimos meses, cometeu erros na administração dos seus mercados acionários e na área monetária que custaram US$ 400 bilhões.

Evidentemente, os EUA têm problemas preocupantes, como a estagnação dos salários e a baixa participação da força de trabalho. No entanto, a comparação a ser feita não é com a fantasia do que os EUA poderiam ser, mas com os outros países do mundo real. E os fatos mostram que os EUA é que os estão matando./ Tradução de Anna Capovilla

*Fareed Zakaria é colunista do The Washington Post


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