Trump terá dificuldades para impor um papel para os EUA no Oriente Médio

Após oito anos de afastamento da região de seu predecessor, talvez o novo líder tenha seu espaço de manobra limitado pela expansão da influência da Rússia e do Irã

Liz Sly, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 05h00

ASTANA, Casaquistão - Em tempos de ansiedade global generalizada em relação aos objetivos de política externa do presidente Donald Trump, o Oriente Médio se destaca praticamente sozinho pelo otimismo a respeito de sua presidência.

Os tradicionais aliados árabes dos Estados Unidos esperam que eles voltem a se engajar na região que se considera há muito negligenciada pelo governo de Barack Obama. Quanto aos rivais dos EUA, esperam que estes se tornem seus aliados e se alinhem com seus interesses.

Mas, afirmam analistas, depois de oito anos de persistente afastamento do seu predecessor, talvez Trump encontre seu espaço de manobra limitado pela expansão da influência da Rússia e do Irã.

“Mesmo que Trump queira implementar uma política mais decisiva, não conseguirá devolver aos EUA o papel de mais forte ator regional”, previu Ibrahim Hamidi, chefe dos correspondentes diplomáticos do jornal pan-árabe Al-Hayat. “Os americanos não poderão mais voltar a ser a única superpotência”.

A intenção de Trump de adotar uma política decisiva no Oriente Médio tem sido evidente em algumas das mais coerentes de suas declarações frequentemente contraditórias, incluindo sua promessa no discurso de posse de erradicar o que chamou de “terrorismo islâmico radical ... da face da terra”.

Embora o presidente e alguns dos seus assessores de política externa, que acabam de ser nomeados, tenham posições opostas em algumas questões - como a importância da organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e se será possível confiar na Rússia - eles parecem concordar quanto à necessidade de não se limitarem a combater o Estado Islâmico, e de repelir a influência cada vez maior do Irã, o que faz do Oriente Médio uma das poucas áreas a respeito da qual existe algum grau de consenso em política externa.

Esta é também uma das áreas em que a política de Obama desgastou de maneira mais evidente o papel outrora incontestado dos Estados Unidos.

Atualmente, a Rússia exerce uma maior influência na Síria. Ela forjou um relacionamento mais forte com a Turquia que poderá ameaçar os laços de Ancara com a Otan e andou cortejando aliados tradicionais dos EUA como o Egito e a Arábia Saudita. Mais recentemente, a Rússia andou explorando a possibilidade de estabelecer relações na Líbia, e para tanto enviou um porta-aviões ao largo da Líbia, convidando o outrora aliado dos EUA, Khalifa Hifter, para uma videoconferência a bordo com o ministro da Defesa russo, este mês.

As reiteradas promessas de Trump de estabelecer vínculos mais fortes com o presidente russo, Vladimir Putin, poderão facilitar a instauração, no Oriente Médio, do tipo de aliança contra os terroristas que o governo Obama tentou, mas não conseguiu realizar, afirmou Vladimir Frolov, colunista do Times de Moscou. Mas a Rússia não desejará que este tipo de aliança se conclua à custa do papel que ela já preparou para si na região.

“Há algum tempo, os EUA deixaram o Oriente Médio no governo Obama, e como Trump fala do programa sobre 'América em primeiro lugar', isto aumenta ainda mais as oportunidades para a Rússia preencher o vazio. Veremos então uma situação em que os EUA terão de ceder algum poder à Rússia para que ela faça o trabalho sujo no Oriente Médio”, disse.

As limitações são mais imediatamente aparentes na Síria, onde a Rússia tomou a frente promovendo a iniciativa de paz que inclui a Turquia e o Irã como copatrocinadores, mas não oferece nenhum papel aos Estados Unidos. Rússia e Turquia coordenaram a agenda e as negociações preparatórias para as conversações que se iniciam na capital do Casaquistão, Astana, informaram diplomatas ocidentais.

Comandantes rebeldes, funcionários da ONU e diplomatas europeus começaram a chegar a Astana no domingo, mas o governo Trump não enviou uma delegação para a reunião, segundo uma declaração emitida no sábado pelo Departamento de Estado.

A Rússia receberá de bom grado as ofertas de ajuda de Trump para bombardear os terroristas e talvez de algum financiamento para a reconstrução, mas não quer que os Estados Unidos se envolvam na elaboração dos termos de um acordo, afirmou Frolov.

Por outro lado, o regime sírio não desejará que os Estados Unidos desempenhem um papel importante no país, que tem uma longa história de relações conturbadas com Washington, observou Salem Zahran, proprietário de alguns veículos de comunicação na Síria com estreitos vínculos com o regime sírio.

As declarações de Trump em apoio ao presidente sírio Bashar Assad foram recebidas com alívio pelo governo sírio, sinalizando o fim da insistência do governo Obama em que Assad renunciasse ao poder, segundo Zahran. Mas o regime sírio espera principalmente que os Estados Unidos fiquem de fora, parem de dar apoio aos rebeldes, levantem as sanções e cessem os apelos para que Assad seja deposto.

“Trump é um empresário e se a Síria fosse uma companhia, ele a consideraria uma companhia falida. Com que propósito alguém investiria numa companhia falida?”, perguntou.

“A Síria quer unicamente que Trump se mantenha numa posição neutra”, acrescentou. “Agora que ela tem a Rússia, não quer os Estados Unidos.”

O Irã tem mais razões para temer a dura retórica anti-Irã tanto de Trump quanto dos seus assessores de política externa. Mas toda tentativa de rejeitar o Irã iria contra os objetivos de uma aliança mais estreita com a Rússia e a Síria - que são, pelo menos aparentemente, aliadas do Irã - e também incorreria no risco de um confronto.

“Por que motivo o Irã responderia a qualquer outra coisa que não a pressão militar?” perguntou Tobias Schneider, analista alemão baseado em Washington. “O Irã ganhou este direito, ele está representado em toda parte e se alinhou com os vencedores em toda parte”.

O Irã foi fundamental para garantir a sobrevivência de Assad, enviando dinheiro e milícias para combater nas linhas da frente, assegurando-se ao mesmo tempo uma ampla influência no país. Na semana passada, Teerã assinou uma série de contratos com funcionários do governo sírio que incluem a concessão ao Irã do controle da maior mina de fosfato da Síria e uma licença de operação de uma rede de telecomunicações móveis.

Desde a retirada dos EUA do Iraque, em 2011, o Irã também assegurou o seu lugar como potência mais influente no Iraque, afirmou Ryan Crocker, ex-embaixador americano no Iraque atualmente na Universidade Texas A&M. Restabelecer o papel dos EUA naquele país não é impossível, prosseguiu, mas “seria extremamente difícil”.

Os Estados Unidos ainda contam com importantes recursos no Oriente Médio, principalmente sua grande presença militar no Golfo Pérsico e seu poderio econômico, que a Rússia não pode igualar, afirmou Anthony Cordesman do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Aliados árabes como a Arábia Saudita, que culpam Obama pelo aumento do poder do Irã, esperam um governo que reflita melhor suas prioridades, afirmou.

“Os países do Golfo necessitam de que os EUA sirva de contrapeso ao Irã. Vocês precisam restabelecer a confiança de que apoiarão de fato seus aliados”, disse. “Isto não precisa de uma mudança radical, mas de um esforço coerente, paciente e persistente.”

Mas uma das preocupações de alguns na região é se Trump será um líder dotado de paciência e coerência, disse Hamidi.

“A coisa mais alarmante é que a preparação do caminho para um papel americano nos próximos anos exige visão e imaginação”, afirmou. “Se não tiverem esta visão, vocês poderão entrar num confronto. Ou, desistir completamente e entregar tudo à Rússia.” / Tradução de Anna Capovilla

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.