EFE/OLIVIER DOULIERY / POOL
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Trump 'terceiriza' missões dos EUA e redefine papel global do país 

Para analistas consultados pelo 'Estadão/Broadcast', distribuição de tarefas antes realizadas por Washington - tendência que deve ser manter durante todo o mandato do republicano - pode 'mitigar a liderança global dos americanos' na diplomacia mundial

Victor Rezende, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 11h39

Na Casa Branca há pouco menos de 6 meses, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tomou medidas que tiram o país do papel tradicional de protagonismo na diplomacia internacional, como a retirada do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas e da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). 

A revisão imposta pelo republicano em relação à diplomacia e a acordos comerciais, no entanto, é vista como parcial por analistas consultados pelo Estadão/Broadcast, já que o presidente passou a "terceirizar" tarefas que antes eram realizadas por Washington.

"Estou apenas cumprindo o que prometi durante a campanha" é uma das frase mais ditas por Trump em seus comícios nos Estados Unidos. Ao afastar sua administração de questões que antes teriam interferência americana direta, Trump opta por não fazer movimentos bruscos, avaliou ao Estadão/Broadcast o professor de Direito Mugambi Jouet, da Universidade de Stanford.

O aumento de gastos com defesa por parte de países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan); o combate ao terrorismo alegado por países árabes ao isolar diplomaticamente ao Catar; e as relações EUA-China para tratar do desenvolvimento bélico da Coreia do Norte são questões frequentemente comentadas pelo presidente em seu perfil no Twitter e em seus discursos, com o republicano a se vangloriar da situação, dizendo que os parceiros dos EUA trabalham para resolver cada uma das situações.

No entanto, a falta de uma ação direta por parte do governo americano vem gerando controvérsias em relação ao papel historicamente ocupado pelo país. "Ao longo das últimas sete décadas, os EUA trabalharam para estabelecer e liderar uma ordem liberal global. Trump está abandonando o papel do país e dando as costas à ordem internacional liberal e aos valores antes representados pelos americanos", comentou Daniel Kelemen, professor de ciência política da Universidade de New Jersey.

Assim, na visão de Kelemen, as declarações de Trump acabam esvaziadas. Em discurso na Polônia, na semana passada, o presidente deu ênfase aos valores ocidentais. "O Ocidente nunca irá quebrar. Nossos valores irão prevalecer. Nosso povo irá prosperar e nossa civilização irá triunfar", disse, em um evento em Varsóvia.

Kelemen, no entanto, "não vê todos esses exemplos sendo eficazes", apesar de Trump tentar passar funções antes ocupadas pelos Estados Unidos para outros países. Ele ressalta que a pressão do republicano contra a China em relação à Coreia do Norte havia se mostrado eficaz no início, mas perdeu força. "No que diz respeito à Arábia Saudita, o recente papel do reino na liderança de um ataque diplomático contra o Catar não é uma clara vitória para os EUA, já que pode acabar prejudicando interesses de Washington na região."

Sobre a União Europeia, Jouet, professor de Stanford, lembra que o bloco já estava se movimentando para fortalecer suas políticas de defesa antes mesmo que Trump fosse eleito. "Não o vejo como o motor principal nesse caso", avalia.

"Trump provavelmente continuará a mitigar a liderança global dos EUA. Assim como fez quando anunciou a retirada do país do Acordo de Paris, Trump irá retirar os EUA da liderança no enfrentamento de grandes desafios globais", diz Kelemen. Para o professor, enquanto ele continuar na presidência, "podemos esperar que os EUA saiam de qualquer papel na promoção da democracia em todo o mundo".

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