MANDEL NGAN / AFP
MANDEL NGAN / AFP

Recepção na Casa Branca pode ter espalhado vírus

No sábado passado, Trump recebeu aliados para indicação da juíza Amy Coney Barrett à Suprema Corte; convidados que estiveram no evento estão testando positivo para a covid-19

Annie Karni e Maggie Haberman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 12h52
Atualizado 07 de outubro de 2020 | 17h01

WASHINGTON - Na segunda-feira 28, o presidente Donald Trump fez um discurso à nação sobre a estratégia de teste de coronavírus do governo e anunciou um plano para distribuir 150 milhões de testes rápidos aos Estados. No início da manhã desta sexta-feira, 2, ele próprio testou positivo para o coronavírus.

Entre segunda e sexta-feira, Trump interagiu com vários membros da sua equipe, doadores de sua campanha eleitoral e apoiadores. Até a mulher que ele indicou para a Suprema Corte, a juíza Amy Coney Barrett, esteve na Casa Branca esta semana - ela testou negativo para o coronavírus.

Na noite de quarta-feira, Hope Hicks, uma das mais próximas assessoras de Donald Trump, testou positivo para covid. Imediatamente, ela foi apontada como vetor de transmissão da doença para o presidente. No entanto, traçar a origem da infecção pode ser mais complicado. Nesta sexta-feira, parece cada vez mais possível que a cerimônia de sábado na Casa Branca, em que Trump nomeou Barrett para Suprema Corte, possa ter sido o evento disseminador do vírus.

 

Mike Lee, senador republicano do Estado de Utah, que esteve na recepção na Casa Branca, testou positivo para a covid-19. Em um vídeo que começou a circular nesta sexta-feira, é possível ver o senador abraçando entusiasticamente os outros convidados – sem máscara. O senador Thom Tillis também foi infectado. Durante o evento, realizado no Rose Garden, quase ninguém é visto usando o equipamento de proteção.

A ex-conselheira do presidente Trump, Kellyanne Conway, que também esteve nas festividades do sábado passado, anunciou na sexta-feira 2 que foi diagnosticada com a covid-19. 

A Universidade de Notre Dame, de South Bend, no Estado de Indiana, anunciou que o reitor, o reverendo John Jenkins, também teve um teste positivo para covid após participar da recepção na Casa Branca. “Lamento meu erro de julgamento por não usar máscara durante a cerimônia e por apertar a mão de várias pessoas no Rose Garden”, escreveu o reitor em mensagem para estudantes e professores. 

No encontro, o secretário de Saúde, Alex Azar, o de Justiça, William Barr, e o médico Scott Atlas, espécie de guru de Trump – embora não seja infectologista – também foram vistos sem máscaras e apertando as mãos dos convidados. 

Na noite desta sexta-feira, 2, o gerente da campanha de Trump, Bill Stepien, que acompanhou o presidente no debate desta semana e esteve com ele durante sessões de preparação nos três dias que antecederam o evento, testou positivo para a covid-19. 

A presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), Ronna McDaniel, testou positivo no início da semana e está isolada em casa desde sábado passado – portanto, não teria relação com a recepção à juíza Barrett. No entanto, um assessor de imprensa da Casa Branca e um jornalista, que também estiveram no Rose Garden, testaram positivo – eles ainda não foram identificados.

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De acordo com as diretrizes das autoridades de saúde dos EUA, Barrett deveria ficar em quarentena por 14 dias, porque se encontrou com Lee pessoalmente e sem máscara. A juíza, no entanto, foi diagnosticada com o vírus alguns meses atrás e já teria se recuperado, segundo o Washington Post.

No entanto, ainda não há consenso sobre imunidade após a doença. Embora especialistas acreditem que a recuperação da covid confira alguma imunidade e a Organização Mundial da Saúde (OMS) diga que infecções repetidas são incomuns, há relatos de segundas infecções em várias partes do mundo. 

Desde que foi indicada à Suprema Corte, Barrett está sendo testada para o vírus diariamente e teve um resultado negativo na manhã desta sexta-feira, de acordo com a Casa Branca. Na semana passada, ela visitou o Capitólio várias vezes, reunindo-se com cerca de 30 senadores em encontros individuais para discutir sua nomeação, de acordo com o Washington Post.

Nesta sexta-feira, o senador Lindsey Graham, republicano que é presidente da Comissão de Justiça do Senado, disse que planeja prosseguir com a indicação de Barrett no dia 12, como programado. No final do dia, o senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte e que também é da comissão, teve diagnóstico positivo para covid-19. Ele também estava na cerimônia de Barrett.

Nomeação

Os republicanos, no entanto, estão confiantes que o surto de covid em membros do governo Trump não atrapalhará o processo de aprovação da juíza. O partido tem maioria de dois senadores na Comissão de Justiça, o que significa que Lee não precisaria estar presente para aprovar a indicação da juíza, primeiro passo para enviar seu nome para uma votação final no plenário.

Os democratas viram no surto uma chance de atrasar o processo – embora ainda seja difícil impedir a nomeação em razão da maioria republicana no Senado. Os senadores democratas Chuck Schumer e Dianne Feinstein consideraram “prematuro” a continuação do cronograma de sabatina planejado antes de a cúpula do Partido Republicano ser exposta ao coronavírus.

“As notícias lamentáveis sobre a infecção de nosso colega senador Mike Lee deixam ainda mais claro que a saúde e a segurança devem orientar o cronograma de todas as atividades do Senado”, disseram, em comunicado, os democratas, que não autorizaram a realização de audiências virtuais para a nomeação de Barrett.

Na manhã deste sábado, 3, o escritório do senador de Wisconsin Ron Johnson confirmou que ele testou positivo para a covid-19. Ele é o terceiro senador republicano a relatar um teste positivo nesta semana, após o senador Mike Lee e o senador Thom Tillis. O anúncio de Johnson está aumentando a tensão em Washington desde que Trump anunciou seu teste positivo.

Johnson, um republicano de segundo mandato, relatou exposição no mês passado a alguém que testou positivo para covid-19 e ficou em quarentena por 14 dias sem desenvolver sintomas. Ele disse que testou negativo duas vezes durante esse tempo. Ele voltou a Washington em 29 de setembro e afirmou que foi exposto logo depois a alguém com resultado positivo.

Johnson fez o teste na sexta-feira à tarde após saber da exposição e deu positivo. Ele afirmou que sente bem e não tem sintomas, mas vai se isolar até que seja liberado pelo médico. / AFP, REUTERS e NYT

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