REUTERS/Aaron Josefczyk
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Trump torna primária imprevisível

52% dos eleitores republicanos querem votar em alguém que nunca ocupou um cargo eletivo; bilionário é o mais cotado em pesquisa

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2015 | 05h02

Fora da Casa Branca desde 2008, o Partido Republicano enfrenta o mais imprevisível processo de escolha de seu candidato presidencial em décadas, chacoalhado pela surpreendente ascensão de Donald Trump. Com ofensas indiscriminadas e a promessa de deportar todos os 11 milhões de imigrantes que vivem sem documentos nos EUA, o bilionário deixou para trás o preferido dos grandes doadores, Jeb Bush, e semeou pânico entre os caciques da legenda.

A liderança do apresentador do reality show O Aprendiz é a parte visível do iceberg de insatisfação da base republicana com políticos tradicionais. Pesquisa divulgada pela Monmouth University na quinta-feira mostra que 52% dos eleitores do partido pretendem votar em alguém que nunca ocupou um cargo eletivo. 

Trump lidera a lista, com 30%, quatro pontos porcentuais a mais do que registrava em agosto. O segundo lugar é do neurocirurgião Ben Carson, o único negro na corrida, que obteve 18% das menções. Com 4%, a ex-CEO da Hewlett-Packard Carly Fiorina completa a relação dos outsiders. 

Representante da dinastia Bush e líder na arrecadação de recursos, com US$ 120 milhões no caixa, Jeb tem 8% e disputa o terceiro lugar com o senador Ted Cruz, que também desafia a ala tradicional republicana na extrema direita do Tea Party. 

Os insurgentes desafiam o establishment que controla (ou controlava) o partido e semeiam dúvidas sobre a viabilidade da legenda em uma eleição nacional. No caso de Trump, declarações depreciativas em relação imigrantes prometem alienar o voto latino, no momento em que os republicanos tentam ampliar sua base para além da população branca. 

Também há o temor de que ofensas às mulheres aumentem a rejeição da legenda no eleitorado feminino. Depois do primeiro debate entre pré-candidatos republicanos, em agosto, o bilionário do setor imobiliário insinuou que a apresentadora da Fox News Megyn Kelly o havia pressionado em um pergunta por estar menstruada. 

Mas quanto menos politicamente correto é, mais ele sobe nas pesquisas. “Seu favoritismo é explicado por sua visibilidade e celebridade, impetuosidade, uma carreira fora da política e a maneira direta com que articula propostas ultrajantes que encontram eco em parcela do Partido Republicano”, disse ao Estado o cientista político Thomas Mann, do Brookings Institute. “Acima de tudo, ele é mestre em atrair a atenção da mídia.”

Mann considera a vitória de Trump entre os republicanos improvável, mas não impossível. Em sua opinião, esse desfecho seria a garantia de derrota da oposição nas eleições gerais do próximo ano. “Hillary Clinton ganharia de Trump de lavada”, avaliou.

Adepto do politicamente incorreto, Trump afirmou que mexicanos que imigram para os EUA são traficante de drogas e estupradores e prometeu construir um muro separando os dois países – e obrigar o governo do país vizinho a pagar por ele. 

“Donald Trump está sendo bem sucedido por expressar a profunda frustração dos americanos com Washington”, avaliou David Merritt, diretor-gerente da Luntz Global Partners, empresa de pesquisa e consultoria política que costuma trabalhar com o Partido Republicano. “Ele pode ganhar a disputa pela nomeação, o que parecia inconcebível há alguns meses.”

Apesar do extremismo na questão migratória, Trump é acusado por seus adversários de não ser conservador o bastante. Ex-democrata e financiador da campanha ao Senado de Hillary Clinton, ele tem posições que nem sempre se enquadram na cartilha republicana. A mais herege delas é a proposta de aumento de impostos para os donos de hedge funds que ganham milhões de dólares no mercado financeiro. 

Dono de uma fortuna de pelo menos US$ 4 bilhões, Trump também é protecionista e crítico de tratados de livre comércio – posição que o aproxima mais dos democratas do que de seus novos colegas republicanos. Sua promessa é a devolução dos empregos industriais levados para a China e o México pelo processo de globalização e a expansão da que já é a maior força militar do mundo. “Nós seremos grandes de novo, fortes de novo, e ninguém vai se meter conosco”, declarou na semana passada em entrevista à CNN.

“Donald Trump seria um desastre para o país e um desastre para o nosso partido e eu acredito que nós sofreríamos a pior derrota desde 1964”, disse Rand Paul, integrante da corrente libertária que defende um Estado mínimo e obteve 2% dos votos na pesquisa da Monmouth University.

Além do desconforto com muitas das posições de Trump, a liderança do Partido Republicano teme que ele lance seu nome como candidato independente caso não vença a disputa interna da legenda. Na quinta-feira, ele assinou um documento pelo qual se comprometeu a apoiar o vencedor. “Eu juro lealdade ao Partido Republicano e aos princípios conservadores que ele professa”, declarou.

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