Michael Reynolds/REUTERS
Michael Reynolds/REUTERS

Trump usa poderes de presidente em convenção partidária

Em parte de suas três aparições, todas dentro da Casa Branca, ele protagonizou funções de chefe do Poder Executivo

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 02h13

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, explorou atos de governo na convenção partidária desta terça-feira, 25, em um movimento considerado sem precedentes. A noite ficou marcada pela mistura entre as funções do republicano na presidência e na política, com três aparições de Trump, todas dentro da Casa Branca, e parte delas protagonizando funções de chefe do Poder Executivo.

Na primeira aparição, Trump emitiu um perdão presidencial a um condenado por roubo de banco que criou uma organização para ajudar outros presos. Pouco depois, o presidente voltou à programação da convenção em uma cerimônia de naturalização de cinco estrangeiros. As imagens mostravam portas que se abriam para Trump enquanto o presidente caminhava pela Casa Branca até o encontro do grupo. Os presentes não usavam máscaras.

Ao lado dos cinco estrangeiros naturalizados americanos, Trump falou que eles "seguiram regras, obedeceram as leis e provaram ser homens e mulheres de integridade". O republicano chegou à Casa Branca com uma intensa plataforma anti-imigração e com a promessa de construir um muro na fronteira com o México para barrar imigrantes que entram no país de maneira ilegal. Nos últimos quatro anos, o governo Trump dificultou a entrada e permanência de imigrantes, inclusive os que estão no país legalmente.

Na noite anterior, os republicanos traçaram um cenário sombrio ao falar da eventual vitória dos democratas, apontando Joe Biden como um representante do socialismo, da destruição do sonho americano e de um alinhamento com a China. Os ataques seguiram no segundo dia da convenção, mas Trump foi apresentado como uma figura menos divisiva.

Responsável por fechar a noite, a primeira-dama, Melania Trump, selou o tom mais suave ao oferecer conforto às vítimas da covid-19. Novamente, a linha entre presidência e campanha política foi rompida. A Casa Branca foi usada para sediar o evento para cerca de 70 convidados que assistiram o discurso de Melania. O uso constante da residência oficial na convenção e o fato de o presidente ter protagonizado atos de governo durante um evento político foram considerados inéditos pela imprensa americana.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, quebrou uma tradição ao aceitar endossar a candidatura de Trump na convenção. Nos últimos 75 anos, os secretários de Estado em exercício não participaram da convenção partidária.

Pompeo, que é considerado um possível candidato republicano na eleição de 2024, gravou o discurso em Jerusalém, tendo as luzes da Cidade Velha como fundo. No seu pronunciamento, ele enalteceu a política externa de Trump e procurou projetar o atual presidente como responsável pela normalização de relações diplomáticas entre Israel e Emirados Árabes Unidos, o qual chamou "acordo de paz". Ele também aumentou o papel de Trump na negociação com países como Coreia do Norte e culpou a China pelo coronavírus.

A noite teve ainda a participação de dois filhos de Trump, Tiffany e Eric. Os dois atacaram os democratas, a imprensa e reiteraram o discurso de que o governo Biden representa uma "ameaça" para os EUA. "Os democratas querem retirar recursos e desrespeitar nossos policiais", disse Eric Trump, ao sugerir que Biden apoia o pedido de manifestantes para diminuir recursos das polícias. Biden já disse ser contrário a essa proposta. O filho de Trump apresentou o pai como um nome de fora de establishment partidário, em contraposição a Biden como "um político de carreira".

Assim como Eric e como Donald Trump Jr., que discursou na noite anterior, Tiffany Trump não fez uma apresentação pessoal do pai, mas um discurso político. Ela disse que o pai "construiu uma economia vibrante uma vez e fará de novo" e que a eleição de 2020 é uma "luta de liberdade versus opressão". "Se você se importa em viver sua vida sem restrições, então a escolha nessa eleição é clara. O voto por meu pai é um voto pelos ideais americanos", afirmou Tiffany.

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