/ AFP PHOTO / Brendan Smialowski
/ AFP PHOTO / Brendan Smialowski

Trump tira EUA de acordo climático e quer renegociação; UE e China rejeitam

Estados Unidos se juntam a Síria e Nicarágua no minúsculo grupo que não aderiu ao Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 nações; irritados, líderes europeus e chineses avisam presidente americano que não aceitarão revisões no pacto

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington e Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2017 | 15h46
Atualizado 01 de junho de 2017 | 21h45

Com um discurso ultranacionalista, no qual descreveu o Acordo de Paris como uma conspiração global para prejudicar a economia dos EUA, o presidente Donald Trump anunciou nesta quinta-feira sua decisão de retirar o país do tratado que tem a adesão de 195 nações. Ele se junta a Síria e Nicarágua no minúsculo grupo que rejeitou o pacto de dezembro de 2015. Trump propôs uma renegociação, rejeitada pela Europa e China. 

“Nós vamos começar a negociar e ver se nós podemos fazer um negócio justo. Se nós pudermos, será ótimo. Se não pudermos, tudo bem”, disse. 

Assim que o anúncio foi feito, a chanceler alemã, Angela Merkel, telefonou a Trump para demonstrar sua insatisfação e deixar claro que os europeus não atenderiam ao pedido de renegociação dos americanos. Ao terminar a chamada, disparou ligações para os demais líderes europeus, entre eles o francês Emmanuel Macron, e emitiu uma nota conjunta garantindo que o tratado não será reaberto. 

“Mais do que nunca trabalharemos por políticas globais para salvar nosso planeta”, disse o governo de Merkel, por meio de uma nota. “Alemanha e França vão promover novas iniciativas para garantir que o acordo seja um sucesso”, insistiu.

Para Itália, França e Alemanha, o acordo de 2015 é “irreversível” e “não pode ser renegociado, já que é um instrumento vital para nosso planeta, sociedades e economias”. O premiê chinês, Li Keqiang, disse que seu país “continua comprometido” com o Acordo de Paris e garantiu que o promoverá. 

Rejeitado de maneira quase unânime por líderes mundiais, o movimento de Trump cumpre uma das promessas de campanha a seus eleitores do interior americano. Todo o pronunciamento refletiu a ideia da “América em Primeiro Lugar” e demonstrou a falta de disposição do presidente de liderar o mundo em questões multilaterais. 

“Esse acordo diz respeito menos ao clima e mais a outros países ganhando vantagens financeiras sobre os EUA. O restante do mundo aplaudiu quando assinamos o Acordo de Paris. Eles enlouqueceram, eles ficaram tão felizes, pela simples razão de que ele colocou nosso país, os EUA, o qual todos amamos, em uma muito, muito grande desvantagem econômica”, afirmou.

Em seguida, alimentou uma teoria conspiratória: “Um cínico diria que a razão óbvia para os concorrentes econômicos e seu desejo ver nossa permanência no acordo é que nós continuaríamos a sofrer essa grande ferida econômica autoimposta”.

“O fato de que o Acordo de Paris prejudica os EUA, enquanto fortalece alguns dos maiores poluidores do mundo deveria dissipar qualquer dúvida sobre a real razão pela qual lobistas estrangeiros querem manter nosso país magnífico amarrado e comprometido com esse acordo: é para dar a seus países vantagem sobre os EUA.”

A decisão representou uma vitória dos extremistas de direita na Casa Branca, representados pelo estrategista-chefe do presidente, Steve Bannon. A retirada do Acordo de Paris enfrentava resistência de Ivanka Trump e de seu marido, Jared Kushner, que estão entre os mais influentes conselheiros do presidente. Além deles, outro derrotado ontem foi o secretário de Estado, Rex Tillerson, favorável à permanência no acordo climático.

A maioria dos republicanos aplaudiu a decisão, mas alguns integrantes do partido a lamentaram. O deputado Carlos Curbelo, que representa o sul da Flórida, disse que seu distrito já sofre os efeitos do aquecimento global na elevação do nível do mar.

Ataque à ciência. Professor da Universidade de Michigan que participou como observador das discussões do Acordo em Paris, Paul Edwards, disse que a decisão de Trump representa uma renúncia do papel de liderança global dos EUA e um ataque ao bom senso. “Ele elevou teorias conspiratórias que atacam a ciência ao patamar de políticas de Estado”, observou.

Em sua avaliação, Estados como a Califórnia e Nova York terão papel fundamental no esforço de redução de emissões. “A Califórnia vai resistir a esse curso de ação equivocado e insano”, disse o governador Jerry Brown logo depois do discurso de Trump.

 

“Fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, não os de Paris”, declarou o presidente. Minutos depois, o prefeito da cidade, o democrata Bill Peduto, respondeu no Twitter: “Como prefeito de Pittsburgh, eu posso assegurar a vocês que nós vamos seguir os princípios do Acordo de Paris para nosso povo, nossa economia e futuro”. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.