Trump tira EUA de acordo climático e quer renegociação; UE e China rejeitam

Estados Unidos se juntam a Síria e Nicarágua no minúsculo grupo que não aderiu ao Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 nações; irritados, líderes europeus e chineses avisam presidente americano que não aceitarão revisões no pacto

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington e Jamil Chade, correspondente / Genebra - O Estado de S.Paulo

Com um discurso ultranacionalista, no qual descreveu o Acordo de Paris como uma conspiração global para prejudicar a economia dos EUA, o presidente Donald Trump anunciou nesta quinta-feira sua decisão de retirar o país do tratado que tem a adesão de 195 nações. Ele se junta a Síria e Nicarágua no minúsculo grupo que rejeitou o pacto de dezembro de 2015. Trump propôs uma renegociação, rejeitada pela Europa e China. 

“Nós vamos começar a negociar e ver se nós podemos fazer um negócio justo. Se nós pudermos, será ótimo. Se não pudermos, tudo bem”, disse. 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a retirada do país dos acordos climáticos de Paris nesta quinta-feira, 1, na Casa Branca Foto: / AFP PHOTO / Brendan Smialowski

Assim que o anúncio foi feito, a chanceler alemã, Angela Merkel, telefonou a Trump para demonstrar sua insatisfação e deixar claro que os europeus não atenderiam ao pedido de renegociação dos americanos. Ao terminar a chamada, disparou ligações para os demais líderes europeus, entre eles o francês Emmanuel Macron, e emitiu uma nota conjunta garantindo que o tratado não será reaberto. 

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“Mais do que nunca trabalharemos por políticas globais para salvar nosso planeta”, disse o governo de Merkel, por meio de uma nota. “Alemanha e França vão promover novas iniciativas para garantir que o acordo seja um sucesso”, insistiu.

Para Itália, França e Alemanha, o acordo de 2015 é “irreversível” e “não pode ser renegociado, já que é um instrumento vital para nosso planeta, sociedades e economias”. O premiê chinês, Li Keqiang, disse que seu país “continua comprometido” com o Acordo de Paris e garantiu que o promoverá. 

Rejeitado de maneira quase unânime por líderes mundiais, o movimento de Trump cumpre uma das promessas de campanha a seus eleitores do interior americano. Todo o pronunciamento refletiu a ideia da “América em Primeiro Lugar” e demonstrou a falta de disposição do presidente de liderar o mundo em questões multilaterais. 

“Esse acordo diz respeito menos ao clima e mais a outros países ganhando vantagens financeiras sobre os EUA. O restante do mundo aplaudiu quando assinamos o Acordo de Paris. Eles enlouqueceram, eles ficaram tão felizes, pela simples razão de que ele colocou nosso país, os EUA, o qual todos amamos, em uma muito, muito grande desvantagem econômica”, afirmou.

Em seguida, alimentou uma teoria conspiratória: “Um cínico diria que a razão óbvia para os concorrentes econômicos e seu desejo ver nossa permanência no acordo é que nós continuaríamos a sofrer essa grande ferida econômica autoimposta”.

“O fato de que o Acordo de Paris prejudica os EUA, enquanto fortalece alguns dos maiores poluidores do mundo deveria dissipar qualquer dúvida sobre a real razão pela qual lobistas estrangeiros querem manter nosso país magnífico amarrado e comprometido com esse acordo: é para dar a seus países vantagem sobre os EUA.”

A decisão representou uma vitória dos extremistas de direita na Casa Branca, representados pelo estrategista-chefe do presidente, Steve Bannon. A retirada do Acordo de Paris enfrentava resistência de Ivanka Trump e de seu marido, Jared Kushner, que estão entre os mais influentes conselheiros do presidente. Além deles, outro derrotado ontem foi o secretário de Estado, Rex Tillerson, favorável à permanência no acordo climático.

A maioria dos republicanos aplaudiu a decisão, mas alguns integrantes do partido a lamentaram. O deputado Carlos Curbelo, que representa o sul da Flórida, disse que seu distrito já sofre os efeitos do aquecimento global na elevação do nível do mar.

Ataque à ciência. Professor da Universidade de Michigan que participou como observador das discussões do Acordo em Paris, Paul Edwards, disse que a decisão de Trump representa uma renúncia do papel de liderança global dos EUA e um ataque ao bom senso. “Ele elevou teorias conspiratórias que atacam a ciência ao patamar de políticas de Estado”, observou.

Em sua avaliação, Estados como a Califórnia e Nova York terão papel fundamental no esforço de redução de emissões. “A Califórnia vai resistir a esse curso de ação equivocado e insano”, disse o governador Jerry Brown logo depois do discurso de Trump.

 

“Fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, não os de Paris”, declarou o presidente. Minutos depois, o prefeito da cidade, o democrata Bill Peduto, respondeu no Twitter: “Como prefeito de Pittsburgh, eu posso assegurar a vocês que nós vamos seguir os princípios do Acordo de Paris para nosso povo, nossa economia e futuro”. 

O primeiro giro internacional de Trump como presidente dos EUA

1 | 18 O presidente dos EUA, Donald Trump, iniciou no dia 20 de maio sua primeira viagem ao exterior como presidente dos EUA. Em seu roteiro, estão incluídas paradas na Arábia Saudita, Israel, Itália, Vaticano e Bélgica Foto: EFE/Jim Hollander
2 | 18 Em visita oficial à Arábia Saudita, Trump fez um discurso para 55 líderes de países muçulmanos, aos quais pediu que expulsem extremistas das seus territórios e se unam ao governo americano para conquistar "um futuro melhor" para todos. O presidente americano e o rei saudita, Salman bin Abdulaziz (dir.), anunciaram ainda a criação de um centro para combater o financiamento do terrorismo Foto: EFE/EPA/SAUDI PRESS AGENCY
3 | 18 Em uma cúpula na capital saudita, Trump pediu aos aliados para que expulsem extremistas dos "seus lugares de oração, das suas comunidades e da terra santa" Foto: AP Photo/Evan Vucci
4 | 18 Ainda em Riad, Trump lamentou a situação no Oriente Médio, que era antes "um lugar de paz e de tolerância" no qual as religiões conviviam Foto: AFP PHOTO / Mandel Ngan
5 | 18 O presidente dos EUA viajou acompanhado por sua mulher, Melania (foto), sua filha Ivanka e seu genro Jared Kushner, além de dois assessores próximos Foto: AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE
6 | 18 Ao desembarcar em Israel, Trump, ressaltou a convicção de que existe uma "rara oportunidade" de levar paz à região, e destacou o "vínculo inquebrável" entre EUA e Israel. Em um discurso na presença do presidente israelense, Reuven Rivlin (dir.), o republicano acusou com veemência o apoio do Irã aos "terroristas" e insistiu que Teerã nunca deve ter autorização para possuir armas nucleares Foto: EFE/Atef Safadi
7 | 18 De acordo com o presidente republicano, há uma "tomada de consciência crescente" entre os países árabes da região que compartilham uma "causa comum" com Israel sobre "a ameaça que supõe o Irã". Trump e Melania visitaram a Basílica do Santo Sepulcro na cidade de Jerusalém Foto: AFP PHOTO / POOL / Heidi Levine
8 | 18 Trump se recolheu em frente ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, tornando-se o primeiro presidente americano em exercício a visitar o santuário do judaísmo Foto: Stephen Crowley/The New York Times
9 | 18 Durante sua campanha, Trump prometeu reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e transferir para lá a embaixada dos EUA - atualmente em Tel Aviv -, rompendo com a política da comunidade internacional e com décadas de diplomacia americana. Estas promessas parecem ter sido revisadas diante dos riscos que apresentam Foto: AP Photo/Evan Vucci
10 | 18 Trump disse que os líderes palestinos e de Israel estão "prontos" para negociar um acordo de paz, mas não apresentou detalhes de como as conversas se realizarão, e reconheceu estar diante de uma tarefa desafiadora Foto: AFP PHOTO / MANDEL NGAN
11 | 18 O republicano foi recebido na Cisjordânia pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas (dir.), que se referiu a ele como "querido amigo" Foto: AFP PHOTO / Thomas COEX
12 | 18 "O presidente Abbas me assegurou que ele está pronto para trabalhar na direção desse objetivo (paz) com boa fé. E o primeiro-ministro Netanyahu me prometeu o mesmo", afirmou Trump em declarações à imprensa ao lado de Abbas Foto: REUTERS/Jonathan Ernst
13 | 18 O papa Francisco recebeu Trump no dia 24 de maio, no Vaticano, pela primeira vez. Os dois falaram sobre a "promoção da paz no mundo" mediante negociação política, segundo comunicado da Santa Sé. Ao fim do encontro, Trump apresentou a delegação que o acompanhava, incluindo sua filha Ivanka, que foi acompanhada do marido, Jared Kushner (esq.), e sua mulher, Melania (dir.) Foto: Osservatore Romano/via Reuters
14 | 18 Antes de encontrar o pontífice, o presidente e Melania percorreram as suntuosas salas do Vaticano seguidos pelos representantes das famílias nobres italianas, como é tradição para as visitas de chefes de Estado. O casal também aproveitou a viagem para fazer um passeio pela Capela Sistina Foto: L'Osservatore Romano/Pool Photo via AP
15 | 18 Trump usou seu primeiro encontro com os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para cobrá-los, em tom não diplomático, por não destinarem 2% de seu PIB para a área de defesa. Ele também frustrou os europeus ao não expressar de maneira clara seu compromisso com o princípio de defesa coletiva dos integrantes do pacto Foto: AFP PHOTO / ERIC FEFERBERG
16 | 18 Na cúpula do G-7, que reúne as nações mais ricas do mundo, os líderes não conseguiram persuadir Trump a apoiar o Acordo Climático de Paris. O grupo reúne os líderes de Canadá, Alemanha, EUA, Itália, França, Japão e Reino Unido Foto: REUTERS/Tony Gentile
17 | 18 Com relação às sanções impostas à Rússia pelo conflito na Ucrânia, o assessor econômico da Casa Branca, Gary Cohn, disse aos líderes do G-7 que Trump é a favor da manutenção da punição Foto: Reuters/Mandel Ngan
18 | 18 Trump chegou no sábado 27 à Casa Branca. O avião presidencial Air Force One aterrissou na base aérea de Andrews, no Estado de Maryland, às 20h54 locais (21h54 em Brasília). Durante o voo de volta, um alto funcionário do governo americano disse a jornalistas que Trump assegurou que "construiu uma relação extraordinária com os outros líderes" Foto: Al Drago/The New York Times

 

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