Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

Trump visto da França

Para ‘Le Monde’, magnata se associa a pessoas em total contradição umas com as outras e sem linha política

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2016 | 05h00

Donald Trump não seduziu a França e a Europa, como o fez Barack Obama. Primeiro nós o vimos como um bufão, mas, já que ele vai se instalar na Casa Branca, passamos a levá-lo a sério e a tentar saber o que há por trás desse provocador de cabelos ridículos.

Quais são suas aptidões, suas emoções, seus desejos, seus sonhos? Essa é uma busca de longo alcance, pois Trump é complexo, astuto, incontrolável, e seu cérebro não é formatado como o dos políticos europeus. Assim, sem conseguir decifrar as sombras do presidente eleito dos EUA, somos levados a escrutinar no microscópio os homens (são muito poucas as mulheres) dos quais ele vai se cercar.

Também aí, no entanto, continuamos a navegar em incertezas. No jornal Libération, Aude Massiot compara as escolhas de Trump a uma loteria. Para ganhar, é preciso ser homem de negócios, banqueiro ou general e falar duro. Se possível, deve ser bilionário e alinhado com as ideologias dominantes em nosso tempo – ser cético sobre as mudanças climáticas, contra o aborto e contra a seguridade social.

Manchete do Le Monde: “A empresa ultraconservadora de Donald Trump”; Do Libération: “Rex Tillerson, futuro secretário de Estado – uma diplomacia do petróleo”; Le Figaro: “Tillerson, um empresário durão apreciado pelo Kremlin”.

Le Monde assinala que “o candidato do homem comum” cerca-se de bilionários: “O método Trump é desordenado e imprevisível, despreza promessas e associa pessoas em total contradição umas com as outras, sem uma linha política ou visão coerente”.

Em política externa, no entanto, os analistas acreditam identificar algumas tendências do presidente eleito. Com a China, é de linha-dura e nenhuma empatia. Pequim deve repensar a política de “uma só China” e o relacionamento com Taiwan. Trump envia tuítes furibundos sobre a agressividade comercial chinesa e a militarização do Mar do Sul da China.

Já com a Rússia, é só amabilidades, quase doçura. Trump já havia esboçado isso durante a campanha eleitoral. Confirma agora com a nomeação para o Departamento de Estado do poderoso homem do petróleo (CEO da ExxonMobil) Rex Tillerson, amigo do líder russo Vladimir Putin, o pesadelo das chancelarias ocidentais.

Pode-se imaginar os efeitos dessa amizade com os russos, se ela perdurar: um abrandamento das sanções econômicas (na verdade, inoperantes e ruinosas para o Ocidente), uma releitura do contencioso Crimeia/Ucrânia entre Washington, Bonn, Paris e Moscou e, por último, um novo olhar sobre o combalido Oriente Médio, onde Putin conduz à vontade o jogo – sob os olhares dos Estados Unidos e da Europa, reduzidos à condição de simples espectadores ao mesmo tempo consternados com o massacre de inocentes e constatando a própria nulidade.

A escolha do maior homem do petróleo do mundo para a diplomacia inquieta não apenas os ecologistas, mas todos os que desejam que a Terra continue sendo um planeta feliz e azul, com girafas, anêmonas e neve. Não foi a Exxon que financiou estudos negando o aquecimento global?

Mas aí também aparece a contradição. Tillerson, ex-chefe da Exxon e futuro secretário de Estado, admitiu que o aquecimento global constitui um perigo sério para o futuro da humanidade, a ponto de ter se manifestado em favor do acordo sobre o clima assinado em Paris em dezembro de 2015. Ele até foi a favor de um imposto a ser cobrado sobre as emissões de dióxido de carbono.

Mas, para se contrapor a essa concessão, na turma de Trump, existem contrapesos: a nomeação de Rick Perry, ex-governador do Texas, para secretário da Energia, e a de Scott Pruitt, do Estado petrolífero de Oklahoma, conhecido cético sobre as mudanças climáticas, para assumir a Agência de Proteção Ambiental.

No artigo que dedicou à nomeação de Tillerson, Le Monde concluiu: “Os eleitores americanos escolheram Donald Trump. O restante do mundo não foi consultado. No entanto, é com esse presidente que o mundo terá de trabalhar. Apertem os cintos!”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.