Washington Post photo by Jabin Botsford
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Trump volta a contestar lisura de eleição e alimenta hipótese de não aceitar derrota

Declarações do presidente dos EUA na noite de quarta-feira provocaram a repreensão dos democratas, o distanciamento dos republicanos e tentativas de tranquilização da Casa Branca durante todo o dia, até a nova fala de Trump  

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 18h54
Atualizado 24 de setembro de 2020 | 21h58

WASHINGTON - Um dia após a recusa do presidente Donald Trump em se comprometer com uma transferência pacífica de poder, ele voltou a dizer, nesta quinta-feira, 24, que não tem certeza se a eleição de novembro será honesta porque, segundo ele, a votação por correspondência pode ser "um grande golpe". 

As declarações do presidente dos Estados Unidos na noite de quarta-feira provocaram a repreensão dos democratas, o distanciamento dos republicanos e tentativas de tranquilização da Casa Branca durante todo o dia, até a nova fala de Trump. 

“Queremos ter certeza de que a eleição será honesta e não tenho essa certeza”, disse Trump a repórteres antes de deixar a Casa Branca para um comício na Carolina do Norte.

Trump estava respondendo à pergunta de um repórter sobre se ele consideraria os resultados das eleições de novembro legítimos apenas se ele vencesse.

Em vez de repetir a mensagem de seu secretário de imprensa no início do dia de que aceitaria os resultados de uma eleição "livre e justa", Trump lançou nova reclamação sobre a votação por correspondência, que ele tem afirmado repetidamente, sem provas, que será manchada por fraude generalizada. Ele sugeriu que a eleição não será, de fato, decidida de forma justa.

“Então, temos de ter muito cuidado com as urnas. As cédulas (pelos correios), você sabe, isso é uma grande farsa”, disse Trump, dizendo ter visto notícias de que cédulas foram encontradas em um rio e em uma lata de lixo.

No início do dia, Christopher Wray, diretor do FBI (polícia federal americana), disse ao Congresso não ter encontrado evidências de um "esforço coordenado de fraude eleitoral nacional", minando o esforço de Trump em alimentar temores sobre as cédulas eleitorais fraudadas.

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Os comentários do presidente tiveram um tom diferente dos de outros republicanos proeminentes, que passaram o dia procurando esclarecer que estavam comprometidos com a transferência ordeira de poder. Mitch McConnell, líder do partido no Senado, garantiu hoje que haveria uma transferência pacífica de poder. “O vencedor da eleição de 3 de novembro tomará posse em 20 de janeiro”, escreveu McConnell, no Twitter. “Haverá uma transição ordenada, assim como ocorre a cada quatro anos desde 1792.”

Segundo analistas, estrategistas e pessoas ligadas ao presidente, a intenção de Trump seria levantar dúvidas sobre a legitimidade do processo, especialmente os votos por correspondência, para poder questionar depois o resultado na Justiça.

McConnell e alguns republicanos moderados, principalmente os que enfrentam as urnas em novembro, garantiram que aceitarão a derrota. “Somos os Estados Unidos da América. Não somos uma república de bananas”, disse o senador Dan Sullivan. “A transferência pacífica de poder é a marca da democracia americana”, disse a senadora Susan Collins.

No entanto, alguns líderes mais próximos do presidente disseram que a disputa pode mesmo ser decidida na Justiça e, por isso, é urgente nomear uma substituta para a juíza Ruth Bader Ginsburg, que morreu na semana passada – a terceira indicação de Trump em quatro anos faria o presidente ter escolhido um terço do tribunal e deixaria os conservadores com uma maioria de 6 a 3. 

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“Acho que as ameaças de judicialização da eleição são a razão mais importante pela qual devemos confirmar um nome para a Suprema Corte, para que haja uma bancada que possa resolver qualquer desafio eleitoral”, disse o senador Ted Cruz

“As pessoas se perguntam sobre a transferência pacífica de poder. Eu posso garantir que será pacífica”, afirmou o senador Lindsey Graham. “Eu prometo, como republicano, que se a Suprema Corte decidir que Joe Biden venceu, eu aceitarei o resultado. O tribunal decidirá. Se os republicanos perderem, aceitaremos o resultado.”

A recusa do presidente em dizer claramente se aceitará ou não os resultados da eleição foi criticada pelos democratas. “Você não está na Coreia do Norte”, disparou a deputada Nancy Pelosi, presidente da Câmara. “É desse jeito que as democracias morrem”, afirmou o também deputado Adam Schiff. Já Chuck Schumer, líder dos democratas no Senado, disse que Trump é a “maior ameaça à democracia americana”. 

Para o senador Bernie Sanders, que foi adversário de Biden nas primárias, a única saída sem conflito seria uma derrota incontestável do presidente. “Esta não é uma eleição entre Trump e Biden”, disse Sanders. “É uma eleição entre Trump e a democracia. E a democracia precisa vencer.” / NYT, WP e REUTERS

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