Trump volta a ser Trump

Ele pretende falar diretamente ao povo e o desprezo pelos partidos é parte da mensagem

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2016 | 05h00

A última semana foi mais reveladora do significado da candidatura de Donald Trump do que os 13 meses transcorridos desde o seu lançamento, em junho de 2015. O acirramento de seu conflito com a direção do Partido Republicano (GOP) é a consequência natural do conteúdo populista de sua campanha. A composição de sua equipe econômica, formada por empresários e especuladores milionários, é o desmascaramento de sua real identidade, em contraposição com a fantasia de defensor da classe média. E essas são as grandes contribuições de Trump: as provas cabais de que não existem atalhos na democracia nem milagres na economia.

Ao longo das primárias, sempre esteve claro que Trump, que concorre para o seu primeiro cargo público, depois de uma controvertida carreira no setor imobiliário, em vários segmentos da indústria e na televisão, não era o candidato da direção do GOP. O avassalador apoio que recebeu dos filiados do partido e alguns discursos nos quais pareceu adotar uma retórica menos incendiária e mais próxima dos dogmas republicanos e da postura de um estadista, no final de abril e início de maio, levaram a cúpula do GOP a se render à sua nomeação.

O custo político de liberar os delegados do partido para votar segundo sua consciência e ignorar os resultados das primárias – possibilidade prevista no estatuto – pareceu alto demais naquele momento. O próprio Trump havia, no calor das primárias, acenado com violência, se seu nome não fosse referendado na convenção. Os confrontos entre seguidores e oponentes, durante seus comícios, indicavam que esse era um risco real.

Depois de oficializado pelo partido, há duas semanas, Trump voltou a ser Trump em tempo integral, e agora com novas feridas abertas pela hesitação – para não dizer repulsa – ao seu nome evidenciada na própria convenção. Em última análise, é essa ferida narcísica que o move, e que o identifica com milhões de americanos de baixo nível de instrução, órfãos da indústria que se deslocou para outros países, em busca de mão de obra mais barata, em razão do livre-comércio. Trump é um bilionário que começou do zero e construiu um império, mas não é nem nunca será admirado intelectualmente nem acolhido no mundo da política americana, que agora seu sonho de ser presidente o obrigou a habitar.

Essa ferida foi impiedosamente remexida na convenção democrata. O testemunho do paquistanês Khizr Khan, cujo filho morreu no Iraque lutando pelos Estados Unidos, foi nesse sentido uma punhalada. Advogado em Washington, com especialização em Harvard, Khan procurou demonstrar que Trump não conhece a Constituição americana, no que se refere à liberdade religiosa e à igualdade de todos perante a lei, nem o real sacrifício pelo seu país. Vindo de um imigrante muçulmano, desses que Trump pretende impedir de entrar nos Estados Unidos, foi uma desqualificação contundente para o bilionário nova-iorquino.

O impacto desse gol democrata foi amplificado pela reação sarcástica de Trump, que o converteu em gol contra. Ferido no seu ego, e sem ter por onde se agarrar para desqualificar Khan, ele apontou para o silêncio de sua mulher, Ghazala, ao seu lado na convenção, para insinuar uma suposta inferioridade cultural dos muçulmanos. Isso deu uma segunda chance ao casal de uma resposta inteligente: Ghazala explicou que seu marido pediu para ela falar, mas ela teve medo de sua dor sufocar sua voz.

Diante disso, era de esperar que políticos republicanos se afastassem ainda mais de Trump, cujas propostas atropelam várias posições históricas do partido. Um exemplo é seu apoio ao presidente russo, Vladimir Putin, e à anexação da Crimeia, somado à ameaça de não defender os aliados da Otan contra uma eventual agressão russa, se não pagarem o custo da operação. Quatro anos atrás, Mitt Romney, candidato republicano à presidência, definiu a Rússia de Putin como “sem dúvida nosso inimigo geopolítico número 1”.

Dirigentes republicanos não escondem seu desejo de trocar de candidato, o que só seria possível, segundo o estatuto do partido, mediante a renúncia dele. Hoje, Trump é uma espécie de candidato independente pegando carona em um dos dois grandes partidos americanos. Isso é uma aberração no regime presidencialista e no sistema representativo. Mas é perfeitamente coerente com seu projeto populista: Trump pretende falar diretamente ao povo, e seu desprezo pelos partidos e demais instituições é central em sua mensagem.

No esforço de mostrar que não está sozinho, e dispõe de uma sólida agenda econômica, Trump apresentará amanhã sua equipe de 13 conselheiros: empresários bem-sucedidos, sem lastro acadêmico e sem experiência como economistas do partido, quando a tradição é o candidato convidar assessores de seus adversários nas primárias.

Alguns desses empresários se beneficiaram da bolha imobiliária e financeira que conduziu à crise de 2008/2009, outros atuam em setores como petróleo e aço, intensamente defendidos por lobbies em Washington. Ou seja, o time econômico de Trump é tudo aquilo que ele diz combater. Assim, Trump não foge à fórmula do populismo: falar que representa o povo e atropelar os direitos políticos e os interesses econômicos desse mesmo povo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.