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Trumpismo

Resultado das eleições é menos relevante do que entender o que representa o bilionário

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2016 | 05h00

É possível que as chances de Donald Trump chegar à Casa Branca tenham sido enterradas com os escândalos sexuais envolvendo o republicano. Enquanto estavam no campo das ideias e das palavras, as ofensas podiam ser compreendidas como verborragia de um falastrão inconsequente em busca de popularidade e votos a qualquer custo. Quando mulheres decidiram denunciar abusos praticados pelo magnata, os argumentos contra Trump ganharam outro peso.

Nas últimas duas semanas, líderes republicanos desembarcaram da campanha, doadores pediram o dinheiro de volta, um representante da ONU declarou que o candidato, se eleito, seria uma ameaça ao mundo. 

Trump pode sair de cena, mas o trumpismo sobreviverá. Ele foi o mais votado da história nas primárias republicanas – o recorde anterior era de George W. Bush, em 2000. Mais de 40 milhões mantêm-se fiéis a ele, apesar de seus comentários racistas, xenófobos, machistas, de sua inexperiência política e de todas as acusações sobre ele, da sonegação de impostos aos abusos sexuais. É o equivalente à população da Espanha ou da Argentina, disposta a validar tudo com o voto.

É preciso compreender este fenômeno. À espera do discurso de Trump na Pensilvânia, na terça-feira, um homem bradava o slogan do magnata: “Trump fará os EUA grandes de novo”", dando como motivo para isso o fato de que o candidato "não pagou impostos por 20 anos!”. Em outro palanque, uma mulher esperava para ouvir o candidato vestindo uma camiseta com a frase: “Trump, fale baixarias para mim”. Isso, um dia depois de o New York Times publicar o depoimento de mulheres que teriam sido abusadas sexualmente por ele.

Lou Dobbs, âncora da Fox Business Network, compartilhou para seus 800 mil seguidores no Twitter o link de um site conservador e o post que revelavam o endereço e o telefone de Jessica Leeds, uma das vítimas. Criticado, ele apagou tudo. Também esta semana, a página da Wikipédia da democrata Hillary Clinton foi vandalizada com imagens de pornografia e mensagens pró-Trump.

As mulheres que acusaram o republicano de abuso o fizeram após o candidato declarar, no segundo debate, que o áudio em que foi flagrado contando vantagem por abusar de mulheres era apenas “conversa de vestiário”. Duas falaram ao New York Times. Uma ex-repórter da revista People revelou que Trump tentou abusar dela em 2005 e uma ex-candidata a Miss Teen EUA disse ao BuzzFeed que ele invadiu o camarim onde elas se trocavam. A CBS divulgou um vídeo de 1992 em que Trump faz comentários insinuantes sobre uma menina de 10 anos.

Trump reagiu desenterrando casos de abuso sexual contra o ex-presidente Bill Clinton. Seus eleitores logo saíram às ruas exibindo cartazes e inundaram as redes sociais com posts dizendo: “Hillary é casada com um estuprador”, mas ignorando as acusações contra o próprio Trump. Sobre o áudio de 2005, um engenheiro elétrico, eleitor de Trump, comenta: “A única coisa que a gravação mostra é que ele é um heterossexual saudável.”

Em uma série de entrevistas conduzidas pelo New York Times, quase todos desconsideraram as acusações contra Trump, questionando as intenções das acusadoras. Uma das entrevistadas disse acreditar que Trump agiu “como todos os homens ricos agiam décadas atrás”, referindo-se ao relato de uma mulher que o acusou de tocar seus seios e colocar a mão por baixo de sua saia. “São oportunistas. Nenhum homem ataca uma mulher a menos que ela pareça estar pedindo”, disse.

A maioria dos eleitores se mostrou cética sobre as denúncias. Alguns justificaram as acusações com teorias conspiratórias. Outros disseram que o comportamento de Trump não importava, que ele deveria ser eleito por tudo o que representa. Mas o que Trump representa? No longo prazo, o resultado das eleições é menos relevante para o futuro dos EUA do que responder a esta pergunta.

 

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