Tsunami afeta rituais funerários no Japão

Contrariando a tradição adotada pela maioria dos japoneses, cidades costeiras enterram os mortos por não conseguir cremar tantos corpos

Michael Wines, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2011 | 00h00

HIGASHIMATSUSHIMA, JAPÃO

Não existe lugar nem tempo para um adeus digno. Não aqui, no alto de uma colina acolhedora que abriga o incinerador de lixo de Higashimatsushima, em Miyagi, no Japão. E não agora, 12 dias após o tsunami que varreu o litoral dessa cidade e separou para sempre centenas de famílias e amigos.

Na tarde da quarta-feira, Fujimi e Ekuko Kimura observavam soldados descendo o caixão de seu filho, Taishi Kimura, de um caminhão do Exército, para depositá-lo com outros 35 numa vala estreita, dividida em sepulturas separadas por finas tábuas.

Foi o mais inclemente dos funerais para uma família que já enfrenta uma dor insuportável. Coube a Fujimi e Ekuko - depois que os soldados partiram - transformar o enterro coletivo num adeus comovente e digno.

No Japão, não é normal enterrar os mortos, muito menos depositar dezenas deles lado a lado numa vala aberta por uma escavadora mecânica. A cremação é universal no país - um ritual importante, que tem raízes profundas no budismo.

Mas, por toda a costa nordeste do Japão, neste mês, a tradição colidiu com a realidade matemática. O número de mortos e desaparecidos em consequência do tsunami do dia 11 já passa de 27 mil e, nas pequenas cidades e povoados da zona rural, onde muitas pessoas morreram, o número de corpos a serem cremados é excessivo.

Em Higashimatsushima, porto marítimo com 43 mil moradores, 680 corpos foram recuperados desde o tsunami e quase 500 pessoas estão desaparecidas. O único crematório da cidade dá conta de apenas quatro cadáveres por dia.

"Se formos cremar todos os corpos levará muito tempo", disse o porta-voz da prefeitura local, Takashi Takayama. "Os corpos estão sendo mantidos agora em dois lugares e estamos preocupados que comecem a se decompor." Assim, com relutância, a cidade resolveu enterrar seus mortos. Pelos menos dez outras municipalidades seguiram o exemplo ou começarão a agir da mesma maneira.

Higashimatsushima enterrou os primeiros 24 corpos na terça-feira depois de obter autorização dos familiares sobreviventes. Na quarta-feira, pelo segundo dia, uma multidão de cem pessoas de luto reuniu-se na área do incinerador, um pedaço de terra vazio na no alto da colina, para os enterros. Era um grupo diverso.

Muitas pessoas haviam sido retiradas de zonas de risco - vestiam roupa doada ou a mesma que usavam quando fugiram do tsunami. Alguns mais afortunados ostentavam sapatos formais e roupa preta de luto. Todos compartilhavam o sofrimento, relatando histórias de imensa dor e perda, que variavam apenas em nomes, graus de parentesco e os níveis variados de má sorte.

A mulher de Yasumasa Kyomo ouviu o alerta do tsunami e foi de carro buscar o filho de 5 anos no jardim de infância, para depois tentar se refugiar no segundo andar de sua casa. O corpo dela foi encontrado no dia 15. "O vidro dianteiro do carro foi destroçado", contou Kyomo, de 52 anos. "Meu filho continua desaparecido. Se eles tivessem se distanciado 100 metros mais poderiam ter escapado."

Fujio Saito, marido de Sachiko, de 61 anos, era deficiente. Sua filha, Hiromi, de 29 anos, ouviu o alerta do tsunami e foi em socorro do pai, mas não chegou à casa dele à beira da praia - desapareceu. O pai foi identificado por causa da carteira encontrada junto a seu corpo.

No enterro, estava também Fujimi Kimura, de 31 anos, que atravessava um rio a caminho o trabalho quando o tsunami irrompeu. A onda gigante destruiu todas as comunicações e a única ponte, deixando-a isolada e sem poder se comunicar com o marido e os dois filhos. Por quatro dias, Fujimi trabalhou como voluntária num centro de refugiados. No quinto dia, pegou uma balsa para atravessar o rio na direção de Yamoto, onde encontrou o marido, Taishi, na lista de mortos. Os avós haviam buscado as crianças na escola e todos conseguiram sobreviver abrigados no segundo andar da casa da família.

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