Tsunami arrasa cidade pela 2ª vez

Em 1960, Rikuzentakata foi destruída por outra onda gigante no Pacífico

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2011 | 00h00

Antes de ver a água, Setsuko Otomo ouviu o som aterrorizante das ondas gigantescas que se aproximavam. Quando levantou o olhar, postes e casas se moviam no horizonte e ela soube que tinha de correr o mais rápido possível. O tsunami estava em seu encalço, a uma distância de aproximadamente 20 metros, e engoliu muitos dos que também tentavam se salvar da onda que devastou Rikuzentakata.

Pouco sobrou da cidade, que tinha 24 mil habitantes antes do desastre de sexta-feira, transformada em um mar de lama e entulho que se estende por quase dez quilômetros. Vestígios do que antes eram casas aparecem soterrados nos pedaços de madeira, ferro e concreto, onde se encontram centenas de carros.

O prefeito, Futoshi Toba, parecia em estado de choque quando visitou ontem um dos abrigos para refugiados, no qual estão mil pessoas. Ele disse não saber ainda o número de mortos em sua cidade, entre os quais está sua mulher.

Rikuzentakata já havia sido vítima de ondas gigantes há 50 anos, no que ficou conhecido como o "Tsunami do Chile", por ter sido provocado por um tremor no país latino-americano. Seus moradores sabiam que o desastre voltaria a ocorrer e levantaram um muro de cinco metros de altura na praia para barrar seu avanço.

O que ninguém esperava é que o tsunami fosse tão violento e veloz. As ondas de até 10 metros ultrapassaram facilmente a barreira e arrastaram tudo pelo caminho. Sato Hidomi morava a 15 minutos de carro da costa de Rikuzentakata e acreditava que sua família estivesse a salvo da ameaça de um tsunami. Quando viu a espuma levantada pelo avanço da água, pensou que se tratava de fumaça de incêndios. Ela só percebeu o que estava acontecendo quando as pessoas começaram a abandonar os carros nos quais tentavam sair da cidade e correr.

Funcionário de uma empresa que fabrica molho de soja, Yamaguchi Ko abrigou-se em um lugar alto da cidade logo depois do terremoto. De lá, assistiu ao avanço das ondas, que arrastaram o edifício onde ele trabalhava e os carros que estavam estacionados ao redor. Logo depois, viu a água chegar a sua casa, que desapareceu sob a violência do tsunami. "O som da água era estrondoso e vinha de 360 graus. Parecia que eu estava em um filme", lembrou ontem no abrigo no qual está com a mulher, os pais e a filha.

O refúgio foi instalado no ginásio de esportes de uma escola secundária, onde no momento do terremoto os estudantes ensaiavam sua cerimônia de graduação.

Um desabrigado, que se identificou apenas pelo sobrenome, Abe, sobreviveu porque se refugiou no prédio da prefeitura, um dos únicos a resistir à violência do tsunami. Os que estavam lá foram para o teto do edifício de quatro andares, para escapar da água que subia rapidamente.

Há 50 anos, quando houve o "Tsunami do Chile", Abe tinha 4 anos. Ele não se lembra de nada, mas sabe que a água chegou quase na porta da prefeitura. Na sexta-feira, ela avançou quilômetros além da construção.

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