Delil Souleiman/AFP
Delil Souleiman/AFP

Tumulto se espalha por região da Síria controlada pelos curdos

Ofensiva militar turca provoca fuga em massa, abandono de hospitais e ameaça deixar jihadistas do EI em liberdade

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 20h47

AKCAKALE, TURQUIA - A invasão turca deixou o norte da Síria convulsionado, com milhares de civis fugindo dos bombardeios, abandonando hospitais, além de ameaças de ressurgimento do Estado Islâmico. O presidente russo, Vladimir Putin, que apoia o governo sírio, disse ter dúvidas se a Turquia e a Síria seriam capazes de manter os jihadistas presos. Até então, eram as forças curdas, aliadas dos EUA, que mantinham as prisões. Agora, os curdos estão desviando os soldados para o combate contra os turcos.

Nesta sexta-feira, autoridades curdas esvaziaram dois grandes campos onde são mantidos parentes de combatentes do EI. Desde quarta-feira, forças turcas vêm bombardeando o território, com ataques aéreos e soldados de infantaria, num esforço para expulsar as milícias curdas que lutavam ao lado dos americanos contra o EI.

A justificativa do governo turco era lançar uma ofensiva contra um movimento guerrilheiro proibido na Turquia, mas a incursão vem desestabilizando a vida civil. Hoje, houve uma trégua nos combates na cidade turca de Akcakale, logo acima da fronteira de Tel Abyad, com centenas de pessoas da localidade realizando o enterro de um bebê morto durante ataques de morteiros na quinta-feira.

Turcos e curdos trocaram fogo pesado durante a noite e pela manhã, disseram os moradores, mas ambos os lados silenciam durante as orações. Durante a noite, o hospital de Tel Abyad, administrado pela ONG Médicos Sem Fronteiras, foi completamente esvaziado, com os médicos se juntando às milhares de pessoas que fugiam dos combates. Um segundo hospital em Ras al-Ain também ficou vazio, segundo o Rojava Information Center.

Os refugiados estão partindo para o sul, à medida que os bombardeios turcos avançam para o interior do território curdo. As bombas atingiram dois campos de refugiados, um deles a 11 quilômetros da fronteira turca, o outro a 32 quilômetros, o que causou a fuga de pelos menos 20 mil pessoas. A Turquia informou que pretende entrar mais 30 quilômetros dentro da Síria para estabelecer uma “zona de segurança”.

Um dos campos, em Ain Issa, abriga centenas de parentes de combatentes do EI, o que aumenta o temor de que o grupo ressurja. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, prometeu que manterá os jihadistas presos, mas, como destacou Putin, é possível que os militantes do EI escapem da prisão. 

Os EUA confirmaram hoje que milícias curdas já abandonaram as operações conjuntas com os americanos, priorizando a defesa contra os turcos. Foi a decisão do presidente Donald Trump de retirar as tropas da Síria que abriu caminho para a invasão turca.

Após recuperarem terras controladas pelo EI, os curdos criaram um pequeno Estado autônomo que hoje abrange um quarto de todo o território sírio e é independente do governo central em Damasco. Esta dinâmica, porém, teve um efeito grave sobre a Turquia, que critica os curdos sírios pela relação com nacionalistas curdos que atuam dentro da Turquia.

“A operação é contra um grupo terrorista”, afirmou o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu. Desde que os combates começaram, militantes curdos revidaram com granadas de morteiros contra cidades turcas na fronteira entre Turquia e Síria, matando 8 pessoas e ferindo 35.

Na Síria, a ONG que monitora a guerra, informou que 17 civis foram mortos. Segundo as Forças Democráticas Sírias, a principal milícia curda, 23 combatentes curdos morreram. No entanto, de acordo com o Ministério da Defesa da Turquia, foram 342 combatentes curdos mortos na ofensiva. / NYT 

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