Túneis, tráfico de drogas e a fuga de Guzmán

Fuga do chefão do cartel de Sinaloa mostra o nível de organização do crime no México

O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2015 | 02h05

Joaquín "El Chapo" Guzmán construiu uma das organizações de narcotráfico mais poderosas do mundo cavando em silêncio, com eficiência e paciência. Embora usasse seu próprio dinheiro e influência corrompendo e penetrando nas instâncias mais elevadas do governo do México, Guzmán utilizou brigadas de engenheiros e equipes de pedreiros para montar um sistema de contrabando perfeito: uma rede de túneis da droga.

Mais de 100 foram descobertos ao longo da fronteira entre EUA e México desde os anos 90. Não por acaso, quase todos se encontravam na Califórnia e no Arizona - a região da fronteira ocidental, onde o cartel de Sinaloa, liderado por Guzmán, continua sendo o supremo poder criminoso.

O túnel que Guzmán teria utilizado no sábado para escapar da prisão de segurança máxima de Altiplano, no México, é indubitavelmente uma das mais impressionantes realizações de engenharia da organização, principalmente por seu comprimento - cerca de 1,5 quilômetro - e por sua localização. Embora muitos dos chefões mais notórios e perigosos do México estejam presos em Altiplano, construído em 1990, nenhum deles fugiu até agora.

As autoridades mexicanas declararam que o túnel usado por Guzmán,

no sábado, começava em um buraco em baixo da área dos chuveiros, descia por cerca de 10 metros embaixo de uma escada e dali continuava horizontalmente. Não houve necessidade de Guzmán arrastar-se: o corredor era maior do que sua altura, de aproximadamente 1,68 metro. Com 1,70 m de altura, tinha espaço necessário para ele correr de pé.

Ainda que seja difícil imaginar os cúmplices de Guzmán cavando debaixo da penitenciária por tanto tempo sem serem detectados, seus engenheiros vêm fazendo isso há anos, bem embaixo do nariz dos agentes da fronteira dos EUA e de sua sofisticada tecnologia.

Esses túneis não são as cavernas sujas e escuras de antigamente, como poderíamos imaginar. São corredores bem iluminados, com reforço estrutural e sistemas de ventilação. Os mais avançados têm trilhos e vagonetes para o transporte rápido de drogas, armas, dinheiro, pessoas e praticamente de tudo, de uma extremidade à outra.

Um túnel explodido no início deste ano por agentes americanos nas proximidades de Bisbee, no Arizona, era alto o suficiente para um adulto andar de pé. Tinha até um elevador hidráulico para poupar a dor nas costas dos traficantes.

As versões construídas na fronteira começam, em geral, numa casa ou num depósito do lado mexicano e terminam em outra construção nos Estados Unidos. No posto de fronteira de Nogales, ou perto de Otay Mesa, ao sul de San Diego, a construção de túneis é facilitada pelo fato de que as estruturas de cada lado da fronteira são separadas por pequenas distâncias.

Acredita-se que os construtores de túneis escondem a terra que retiram na estrutura do lado mexicano

ou a carregam silenciosamente em veículos, mapeando cuidadosamente sua trajetória para evitar serem apanhados ou fazerem muito barulho.

Os túneis são considerados uma grave ameaça à segurança dos EUA pelo Departamento de Segurança Nacional americano, embora não haja evidências de que as versões realizadas pelos traficantes mexicanos tenham sido usadas por grupos terroristas.

Acredita-se que os engenheiros mexicanos utilizem bússolas para se orientarem - e não aparelhos de GPS -, que não funcionariam embaixo da terra, porque dependem de sinais de satélites. No entanto, mesmo os cavadores mais avançados não precisam do conhecimento detalhado do projeto da prisão para encontrarem a saída por baixo das paredes, acabando exatamente na cela de Guzmán.

Curiosamente, o túnel que Guzmán usou não é o primeiro construído longe da fronteira. Poucos dias antes da sua captura, em 2014, ele fugiu das autoridades mexicanas pelos esgotos de Culiacán, a capital do Estado de Sinaloa, depois de escorregar por um poço através do banheiro de uma casa.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE

 

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