Tunisianos despedem-se de líder opositor

Dezenas de milhares de tunisianos, gritando palavras de ordem, se reuniram no cemitério de Jellaz, nesta sexta-feira, para o funeral do líder opositor Chokri Belaid, assassinado do lado de fora de sua casas na quarta-feira. O crime elevou a crise política na Tunísia, país onde teve início a Primavera Árabe.

AE, Agência Estado

08 de fevereiro de 2013 | 17h21

O caixão de Belaid entrou no cemitério em meio a uma cena de caos, transmitido ao vivo pela televisão. Gangues de jovens lançaram pedras contra a polícia, que tentava impedi-los de roubar os carros do que foram ao funeral. Os policiais usaram gás lacrimogêneo. Imagens de televisão mostravam jovens empurrando os carros para a rua, além de veículos em chamas.

Testemunhas disseram que jovens vestidos com agasalhos esportivos - muitos armados com paus e facões - tentavam se aproveitar do tumulto provocado pelo funeral para cometer seus crimes.

"Esses meninos são incontroláveis e não seguem qualquer ideologia política", disse Moncef Chebbi, de 68 anos, programador aposentado que compareceu ao funeral. Segundo ele, os jovens vieram de um bairro de baixa renda das proximidades. "Isso é muito decepcionante. É uma pena", declarou.

Khaled Tarrouch, porta-voz do Ministério do Interior, disse que 132 pessoas foram detidas e mais de dez carros foram incendiados. Ele disse que os detidos estavam sendo interrogados.

Houve várias manifestações e funerais simbólicos para Belaid em várias cidades do país.

A morte de Belaid, um duro crítico do movimento islamita, provocou confrontos envolvendo seus partidários, que dizem que o partido governista, o Ennahda, é cúmplice do crime.

O país ficou praticamente parado em razão de uma greve geral, convocada por sindicatos em solidariedade a Belaid. A empresa aérea nacional Tunis Air cancelou todos os seus voos.

O Exército, uma das poucas instituições que ainda contam com o respeito do povo, fez a segurança do funeral. Belaid acusava o Ennahda de recorrer a criminosos para atacar comícios da oposição. Sua família e seus aliados acusam o partido de cumplicidade em seu assassinato. Embora não tenham oferecido qualquer prova, as acusações aumentaram a insatisfação popular com o governo.

"Não podemos aceitar o fato de eles terem assassinado a liberdade, que assassinem a democracia, e é isso que eles estão fazendo. Estamos enterrando um mártir", declarou Mohammed Souissi, veterinário de 63 anos, que compareceu do funeral. A multidão que foi ao local parecia não se importar com a chuva intermitente e cantou o hino nacional, além de gritar "Ghannouchi, assassino!", numa referência a Rachid Ghannouchi, líder do Ennahda.

Nas proximidades da casas dos pais de Belaid, onde teve início a procissão do funeral, políticos opositores e advogados usando roupas pretas se juntaram a outros milhares de pessoas que gritavam "interrompam a violência" e "somos todos Chokri Belaid''''.

Mais de dez sedes do Ennahda foram atacadas durante a noite em cidades de todo o país, informaram meios de comunicação do país. Escolas, lojas, bancos e outras instituições ficaram fechadas por causa d greve geral.

O Ministério do Interior lançou um comunicado nesta sexta-feira pedindo calma, a polícia tem sido o principal alvo dos manifestantes nos últimos dias. O prédio do Ministério foi cercado na manhã desta sexta-feira por vários camadas de arame farpado que se estende pela avenida Bourguiba. A área também era fortemente patrulhada por veículos blindados.

A morte de Belaid ocorreu num momento em que as relações entre governo e oposição se deterioraram. O

Ennahda foi reprimido durante o governo secular de Ben Ali, mas após a sua queda, o movimento venceu as eleições seguintes. No geral, o Ennahda é considerado um grupo moderado, que é combatido pelos radicais islâmicos, conhecido como salafistas.

A greve desta sexta-feira foi convocada pelo maior sindicato do país, a União Geral dos Trabalhadores da Tunísia (UGTT), numa clara expressão de sua oposição ao governo do Ennahda.

Novo governo - O primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, disse nesta sexta-feira que mantém sua decisão de formar um novo governo de tecnocratas para governa o país, apesar da oposição de setores de seu próprio partido.

"Eu mantenho minha decisão de formar um novo governo de tecnocratas e para isso não preciso do apoio da Assembleia", disse ele à agência de notícias TAP. As informações são da Associated Press e da Dow Jones.

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