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Turco acusado de terrorismo é solto e diz 'confiar na Justiça'

Preso desde o dia 5 de abril, Ali Sipahi terá de aguardar julgamento do pedido de extradição, usar tornozeleira eletrônica e não poderá sair de São Paulo sem autorização judicial

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2019 | 17h03

O turco naturalizado brasileiro  Ali Sipahi deixou nesta quarta-feira, 8, por volta de 12h41, a sede da Justiça Federal em São Paulo. Ele estava preso desde o dia 5 de abril na Polícia Federal na capital paulista, acusado de terrorismo pelo governo turco. Na saída, Sipahi disse que quer voltar à vida normal, que é um cidadão normal e que acredita na Justiça brasileira. "Sou uma pessoa normal, sou empresário que tem restaurantes, quero seguir a minha vida normal. Quero continuar vivendo normal no Brasil como brasileiro naturalizado. Brasil é um país que tem Justiça, acredito na Justiça Brasileira. Continuo confiando na Justiça brasileira, e acho que vai dar certo", afirmou.

Na manhã desta quarta-feira, Sipahi foi levado da sede da Polícia Federal, na Lapa, em São Paulo, para o prédio da Justiça Federal, onde colocou a tornezeleira eletrônica e entregou seu passaporte. Ele não poderá sair de São Paulo sem autorização judicial e terá de cumprir recolhimento domiciliar noturno.

Na terça-feira, 7, o ministro ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, revogou a prisão do empresário turco.  No despacho de sua decisão, o ministro determina que a prisão preventiva seja substituída pela “instalação de equipamento pessoal de monitoração eletrônica”, apreensão do passaporte, proibição de sair da cidade onde mora até o julgamento do pedido de extradição, recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folgas.  

Ali é ligado à organização turca Hizmet, considerada um grupo terrorista pelo governo do presidente Recep Tayyip Erdogan. A entidade, que não é considerada um risco fora da Turquia, é liderada pelo clérigo muçulmano moderado Fethullah Gülen. Ele vive nos EUA e conta com a proteção do governo americano.

Segundo Fachin, o pedido foi aceito “considerando os elementos pessoais que ligam o extraditando ao Brasil, a residência em território brasileiro desde 2007, a nacionalidade brasileira desde 2016, suas atividades empresariais e a inexistência de antecedentes criminais e ainda a necessidade de manter sua família, mulher e filho que vivem sob sua dependência”.

A decisão de Fachin foi contrária ao parecer da Procuradoria Geral da República. No texto da PGR, Luciano Mariz Maia, vice Procurador-Geral da República, afirma que “as circunstâncias do caso, no entanto, não indicam situação de excepcionalidade

apta a ensejar a revogação da custódia cautelar. “Embora o extraditando tenha residência fixa no Brasil e trabalho lícito, certo é que este fato não é hábil, por si só, a afastar a medida contra ele imposta (...) já que tem por finalidade precípua a entrega do requerido à autoridade estrangeira”

Na sexta-feira, 3, Sipahi foi ouvido na Justiça Federal em São Paulo. O governo da Turquia pediu ao Brasil a extradição de Sipahi. Ele é acusado pelo presidente da Turquia, Recep Erdogande fazer transações financeiras em um banco do grupo Hizmet, de oposição ao líder turco, ligado ao clérigo Fethullah Gülen.

Na ocasião, a linha apresentada pela defesa, segundo o porta-voz do Hizmet Kamil Ergin, teve como base contestar a versão do governo turco de que o Hizmet é um grupo terrorista. Segundo ele, apenas países de maioria muçulmana com relações comerciais próximas com a Turquia, como a Somália e o Marrocos, aceitaram extraditar militantes do grupo. “É a primeira vez que um pedido desse chega ao Brasil, mas quando pedidos similares foram feitos em países democráticos como os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália Reino Unido, a Justiça desses países negou todos eles.”

Sipahi tem 31 anos e mora no Brasil desde 2007. Naturalizado brasileiro, tem um filho nascido no País e é dono de dois restaurantes em São Paulo. Sipahi é acusado pela Procuradoria de Ancara de ser membro da organização do clérigo por ter conduzido atividades no Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) e na Câmara de Comércio e Indústria Turco-Brasileira (CCITB), entidades que têm vínculos com o Hizmet e recebem verba do grupo. 

O Hizmet, que significa “servir” em turco, foi considerado uma organização terrorista em 2016, após Erdogan acusar o movimento de tramar o golpe de Estadoque tentou tirá-lo do poder. Em julho daquele ano, as Forças Armadas colocaram tanques nas ruas para tentar derrubar Erdogan, que conseguiu reverter o movimento. 

O movimento de Gülen foi essencial para a ascensão de Erdogan e de seu Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), no início dos anos 2000, mas os dois grupos se distanciaram. De 2013 para cá, Gülen e Erdogan se tornaram inimigos. 

Até 2016, a perseguição era velada, afirma o Hizmet. “Jornais foram fechados, algumas pessoas eram vigiadas e presas”, afirma Kamil Ergin. Mas depois da tentativa de golpe, Erdogan classificou o Hizmet como grupo terrorista, o que permitiu ao Estado decretar prisões e perseguir os integrantes do movimento. “O governo cassou passaportes, prendeu milhares de pessoas, e os que conseguiram fugiram para não ser presos”, diz Kamil.

Nenhum outro país ou organismo internacional considera o Hizmet, também chamado de Movimento Gülen, uma organização terrorista. O movimento se denomina uma iniciativa civil mundial, enraizada na tradição espiritual e humanística do Islã. Presente em 160 países, patrocina escolas, centros culturais e diversas atividades comerciais. 

A Embaixada da Turquia no Brasil afirmou que não responderia a perguntas específicas sobre Sipahi “uma vez que ele está sujeito a um processo legal em andamento”. Em nota, a embaixada afirma que o Hizmet é uma fachada para as “atividades da organização criminosa e terrorista FETÖ”, grupo que estaria por trás da tentativa de golpe na Turquia em 15 de julho de 2016.

Em 2016, o governo turco exigiu a extradição do clérigo, que vive desde 1999 nos Estados Unidos. Em sua residência na Pensilvânia, ele nega qualquer envolvimento na tentativa de golpe. O governo americano rejeita deportar Güllen e diz que as acusações contra ele são “sem fundamento”.

O governo de Ancara cita como evidência para a prisão de Sipahi depósitos feitos pelo empresário, entre 2013 e 2014, de 1.721,31 liras turcas (cerca de R$ 1.168) no Banco Asya, que Erdogan fechou em 2015 por ser ligado ao Hizmet. A Justiça turca ordenou o fechamento do banco e decretou que seus correntistas podem ser considerados membros do Hizmet e suspeitos de terrorismo.

Segundo integrantes do movimento no Brasil, o depósito foi feito em uma conta no nome do próprio Sipahi. O pedido de prisão preventiva de Sipahi estava decretado desde 19 de março pelo STF. Os advogados de Sipahi pediram para que ele aguarde o julgamento do pedido de extradição fora da prisão – com a retenção de passaporte ou tornozeleira eletrônica. A Procuradoria, no entanto, foi contrária ao pedido.

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