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Turcos e israelenses se aproximam, mas há conflito de interesses

O presidente de Israel, Shimon Peres, celebrou a retomada das relações entre seu país e a Turquia. "Posso pensar em mil razões pelas quais a Turquia e Israel devem ser amigos", disse Peres à CNN em turco. "Não vejo nenhuma razão pela qual não deveriam ser."

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2013 | 02h10

O descongelamento das relações foi possibilitado pelo pedido de desculpas, na sexta-feira, do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, ao colega da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, pela morte em 2010 de nove pessoas durante abordagem de fuzileiros de Israel a um navio turco que tentava levar mantimentos para moradores da Faixa de Gaza, furando o bloqueio imposto por Israel ao território palestino. Trabalhista, Peres está bem à esquerda do Likud de Netanyahu.

Israel e Turquia têm interesses comuns na região, como apressar o fim do conflito na Síria e influir no desfecho, e evitar que o Irã adquira armas nucleares. E uma história de cooperação militar que permitiu, no passado, troca de informações e uso do espaço aéreo turco por Israel. Entretanto, a reconciliação praticamente imposta pelo presidente americano, Barack Obama, não levará necessariamente a uma parceria entre seus dois principais aliados na região.

"O pedido de desculpas de Netanyahu é mais uma prova de que, nas relações internacionais, os interesses de Estado prevalecem sobre percepções ou falta de afinidade pessoal", disse ao Estado o analista Hillel Frisch, do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat, no distrito de Tel-Aviv. "Entretanto, apesar da desculpa, as relações turco-israelenses continuarão tensas", advertiu, na mesma linha de analistas turcos ouvidos na sexta-feira, para os quais elas não voltarão a ser como eram antes da ascensão, em 2002, do partido islâmico moderado Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan.

"A Turquia, uma locomotiva econômica, está flexionando seus músculos na região, e sob Erdogan, está determinada a realizar ambições imperialistas que caracterizavam o Império Otomano", analisa Frisch. Ele lembra que, no mesmo dia das desculpas, um alto funcionário da Chancelaria turca sugeriu que o Chipre, mergulhado em uma crise que preocupa a zona do euro, adotasse a lira turca, como faz a parte norte da ilha, sob domínio da Turquia.

Israel explora gás natural em seu mar territorial vizinho ao do Chipre, e apoia a soberania dos cipriotas gregos sobre as jazidas da costa, na disputa com os turcos, aponta Frisch. "O antijudaísmo de Erdogan é outro irritante no relacionamento", acrescenta.

"Esse conflito de interesses prevalecerá sobre o interesse comum de livrar-se de Bashar Assad na Síria ou conter um Irã nuclear", prevê o analista. "Mas esses interesses serão suficientemente fortes para evitar um conflito entre os dois Estados mais poderosos da região."

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