Turcos não temem vitória de Stoiber na Alemanha

Turcos residentes na Alemanha demonstraram alguma preocupação no primeiro semestre do ano, quando o candidato conservador à chancelaria, Edmond Stoiber, parecia destinado a vencer as eleições do domingo com sua coligação democrata-cristã CDU/CSU. Mas em Munique, capital do Estado da Baviera - do qual Stoiber é o governador -, a comunidade turca local não acredita que sua rotina mudará se o conservador, acusado por seus opositores de defender teses xenófobas, chegar à chefia do governo federal. "Stoiber governa a Baviera desde 1993 e nunca tomou nenhuma atitude que nos prejudicasse", disse ao Estado Atark Golshu, um dos poucos turcos da Bayerstrasse - a rua onde se concentra boa parte dos turcos de Munique - que fala, ou se dispõe a falar, inglês. "Quase todos os turcos daqui que têm direito a voto vão votar em Gerhard Schroeder (o atual chanceler alemão, do social-democrata SPD), mas não por temer que Stoiber possa nos expulsar daqui ou algo parecido", afirmou. "Nós preferimos o SPD porque somos a fatia mais pobre da população alemã e os social-democratas defendem a manutenção de programas sociais." A Bayerstrasse, atrás da central ferroviária do centro de Munique, é a "rua dos turcos" da cidade. Eles se reúnem ali, às dezenas, em bares, cafés e restaurantes, onde conversam e riem nas mesas da calçada. Até mesmo o "Ristorante Italiano" é administrado e freqüentado por eles. Mas são avessos a estranhos, especialmente a quem lhes aborda em inglês fazendo perguntas sobre política alemã. "O imigrante turco tem a desonfiança como característica", explica Golshu, que trabalha numa agência de viagens representante da Turkish Airlines. "Mesmo que entendam o que você está perguntando em inglês, é pouco provável que se disponham a falar sobre política, principalmente os mais velhos. Os turcos costumam viver bem por aqui porque os alemães são muito introspectivos. Se eles não conversam e não perguntam nada, nada temos a responder. E todos adoramos isso." A relação entre os alemães e os cerca de 1,8 milhão de imigrantes turcos do país não é exatamente de cortesia. Grupos de extrema direita alemães promovem a cada ano milhares de ataques a imigrantes em geral e aos turcos em particular. Na visão dessas organizações extremistas - que se espalham por todo o país, mas são particularmente ativas na Baviera -, os estrangeiros são os responsáveis pelo desemprego que atinge quase 10% da população economicamente ativa do país. Os turcos começaram a migrar em grande número para a Alemanha no início da década de 70, atraídos pelo déficit de mão-de-obra não qualificada. Antes deles, portugueses, espanhóis e outros europeus haviam migrado para a Alemanha, mas retornavam a seus países de origem depois da aceleração do processo de desenvolvimento da Europa Ocidental. Os adversários acusam Stoiber de compartilhar das idéias dos grupos racistas ilegais, uma acusação que ele rejeita. Mas o componente discriminatório está presente na atual campanha até entre os alemães do norte e do sul. Durante a campanha, líderes do CDU/CSU de Munique afirmaram que chegariam ao poder para "ensinar aos prussianos" como administrar a economia da Alemanha. Em resposta, a ministra da Saúde Ullah Giller, do PSD, disse num comício em Aachen que "não havia nada que os prussianos pudessem aprender sobre administração com os bávaros". No discurso que fez no Bundestag, em Berlim, na sexta-feira, o próprio Schroeder fazia questão de se referir a Stoiber, em tom pejorativo, como "o candidato da Baviera".

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