Turcos protestam em apoio ao secularismo

Mais de 40 mil pessoas saíram às ruas de Ancara nesta quinta-feira para protestar contra o assassinato de um juiz por um extremista islâmico e manifestar apoio ao secularismo do Estado.Em um aparente alerta ao governo de raízes islâmicas do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, o presidente da Turquia, Ahmet Necdet Sezer, disse que "ninguém conseguirá derrubar o regime" laico.Nesta quinta-feira, a alta cúpula do Exército, que no passado liderou três golpes de Estado e considera-se o "guardião do secularismo", perfilou-se ao lado do caixão do juiz Mustafa Yucel Ozbilgin, coberto por uma bandeira da Turquia.O comportamento dos líderes militares foi interpretado como uma mensagem de que eles defenderão o secularismo constitucional. Erdogan não compareceu aos funerais.Na quarta-feira, um militante invadiu o Tribunal Superior Administrativo da Turquia, em Ancara e baleou cinco juízes. Ozbilgin morreu e quatro magistrados ficaram feridos.O agressor, que invadiu a corte gritando "eu sou um soldado de Deus", disse que o ataque foi uma retaliação a uma recente decisão do tribunal contra a promoção de uma professora que vestia um tradicional véu islâmico quando não estava em sala de aula, disseram autoridades locais.O episódio chocou o establishment secular da Turquia. Hoje, mais de 15 mil pessoas participaram de uma passeata até o mausoléu de Mustafa Kemal Ataturk, fundador da Turquia moderna e laica, numa demonstração de lealdade ao secularismo. "A Turquia é laica e continuará laica", gritavam os manifestantes.Horas mais tarde, mais de 40 mil pessoas foram até a principal mesquita de Ancara, onde ocorreu a cerimônia fúnebre de Ozbilgin. Diversos participantes exigiam a renúncia do governo. A multidão vaiou a chegada dos ministros de Interior e da Justiça, Abdulkadir Aksu e Cemil Cicek, respectivamente, e do vice-primeiro-ministro Abdullatif Sener.Tensão O véu islâmico é um constante foco de tensão entre os islâmicos e os seculares. A Turquia proíbe o uso dos véus em universidades, repartições públicas e em cerimônias do governo pelo temor de que o paramento simbolize um desejo de enfraquecer a identidade secular do Estado.A esposa de Erdogan, Ermine, utiliza o véu em público, por exemplo, o que a impede de participar de cerimônias do Estado ao lado do marido. O governo Erdogan prometera empenhar-se para aliviar as restrições e dar mais destaque ao Islã neste país majoritariamente muçulmano. Em sua Constituição, a Turquia é um Estado laico.Hoje, a procuradoria-geral da Turquia denunciou o jornal pró-islâmico Vakit, acusando-o de "apoiar o terrorismo" por ter publicado as fotografias dos cinco juízes atacados, quatro dos quais votaram contra a promoção da professora.O Vakit condenou o atentado, mas levantou a hipótese de o establishment secular estar se aproveitando do episódio para reprimir os movimentos islâmicos. Ozbilgin, o juiz assassinado, votara contra a promoção.A polícia capturou o suspeito, um advogado de 28 anos, logo depois do crime. Três supostos cúmplices foram detidos nesta quinta-feira e a polícia está em busca de outros suspeitos de participação, informaram emissoras locais de televisão.M

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.