Lisandra Paraguassu/Estadão
Lisandra Paraguassu/Estadão

Turismo é setor mais afetado por terremoto no Nepal

Cerca de 9% do PIB do país vem dos visitantes que, desde a tragédia do dia 25 de abril, desapareceram

Lisandra Paraguassu, Enviada Especial

09 de maio de 2015 | 19h26

KATMANDU - Uma semana após o terremoto que devastou o Nepal, dia 25, Rabindra Shresta recebeu o dinheiro da primeira venda que fez em sete dias com uma oração. O comerciante, que sustenta seis pessoas da família com o que tira na pequena loja de souvenirs de Bhaktapur, não esconde o desespero pelo que virá nos próximos meses. O desaparecimento dos turistas é um severo revés para a economia de um país que já está entre os mais pobres do mundo. 

Dados do governo revelam que até 9% do PIB do país vem do turismo. Em 2014, foram cerca de 800 mil estrangeiros que chegaram ao Nepal para visitas de, em média, dez dias, e deixaram cerca de US$ 50 ao dia. O valor não parece muito, mas em um país cuja renda per capita é pouco mais de US$ 700, ele representa o suficiente para preocupar o governo, que calcula uma perda de 75% das receitas com o turismo. 

Nos dias seguintes ao terremoto, a lotação e o caos no aeroporto de Katmandu davam uma dimensão da fuga de turistas. Enquanto uns poucos ainda mantinham a viagem, a maioria havia desistido mesmo antes de embarcar, como mostrava a procura intensa por mudanças nas passagens no aeroporto de Abu Dabi, nos Emirados Árabes. Outros decidiram cortar a viagem pela metade e aguardavam no aeroporto de Katmandu qualquer oportunidade de embarcar. 

“Todas as minhas reservas foram canceladas, não sobrou ninguém”, disse Buddish Manandhar, dono da agencia de trekkings Crystal Adventures. Desde o terremoto, ele tem ajudado a levar socorro aos nepaleses que foram mais atingidos. “Nesta época, costumamos estar lotados. Serão anos muito duros daqui para a frente”, disse. 

A expectativa do governo nepalês era que este ano aumentassem em 5,8% os recursos trazidos pelo turistas, mas o mais provável é que o Nepal veja encolher os tão necessários dólares. Para quem trabalha com o turismo – até 180 mil pessoas, segundo dados do Escritório de Turismo do Nepal –, a perspectiva é cada vez pior. 

Ravindra, o dono da loja em Bhaktapur, conta que, logo depois do terremoto, tentou abrir sua loja, mas ninguém apareceu para ver seu artesanato. Na cidade, pouca coisa sobrou intacta das dezenas de prédios milenares. 

Uma das joias do Nepal e patrimônio da humanidade, Bhaktapur sofreu duramente as consequências do tremor. “Hoje, os estrangeiros que estão por aqui são os que vieram ajudar o Nepal”, disse. Logo, essas equipes de resgate – que hoje ao menos garantem a lotação dos hotéis – também irão embora. 

“O PIB do Nepal hoje tem duas fontes de renda básicas: o turismo e o trabalho dos imigrantes no Oriente Médio. A menos que alguma grande indústria se instale nas terras baixas, menos afetadas pelo terremoto, o que veremos é um aumento da migração”, afirma George Varughese, representante no Nepal da Asia Foundation. 

O trabalho dos imigrantes nepaleses representa cerca de 25% do PIB do Nepal. Entre todos os países da região que fornecem mão de obra barata para países como Catar, Emirados Árabes e Kuwait, o Nepal é o que mais depende das remessas de dinheiro que seus cidadãos enviam para casa. No aeroporto, há filas separadas na imigração apenas para os “imigrantes trabalhadores”. 


Recomeço. Chakma Tamang, de 31 anos, era um desses imigrantes. Trabalhava como cozinheiro em Dubai até seis meses atrás e voltou quando conseguiu juntar algum dinheiro. No entanto, sua casa em Chautara, no Distrito de Sindhupalchowk, foi completamente destruída pelo terremoto. “Vou ter de tentar de novo. Tenho dois filhos pequenos e agora aqui no Nepal não haverá mais ter trabalho”, afirmou. 

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