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Guam cria o 'AirVnV' para atrair turismo da vacina

Território americano com amplo estoque de vacinas e sem necessidade de quarentena tem mais de 80% da população elegível completamente vacinada

Lyric Li / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 10h00

GUAM - Usando uma máscara N95 e face shield, Jimmy Lin carregava sua sacola cheia de macarrão instantâneo e roupas de praia na saída do modesto aeroporto de Guam em uma tarde recente. “É meio surreal estar aqui”, disse o taiwanês de 37 anos, dono de uma estação de esqui no Japão que ele não visita desde o começo de 2020 por conta das restrições a viagens. “Eu costumava viajar para o exterior pelo menos a cada dois meses, e então, de repente, o mundo se fechou para mim.”

Assim como milhares de turistas asiáticos que visitaram esse posto avançado americano no Pacífico no começo deste verão, Lin estava em Guam para tomar suas vacinas preferidas contra o coronavírus – as doses de RNA mensageiro da Pfizer BioNTech – em uma iniciativa de turismo vacinal criada para compensar as perdas pandêmicas.

Embora um número crescente de países que dependem do turismo, como a Itália e a Tailândia, reconheçam os registros da vacinação para viagens, férias no exterior continuam proibidas para milhões de não vacinados. Conheça Guam, um território americano com amplo estoque de vacinas e sem necessidade de quarentena, onde mais de 80% da população elegível está completamente vacinada. Para residentes de Taiwan, Coreia do Sul e outros lugares, três semanas em uma ilha tropical somada à chance de tomar as duas doses significam uma oportunidade que eles nem sempre têm em casa por conta da falta de suprimentos e problemas de acessibilidade.

“Posso escolher a vacina”, disse Lin, que tomou sua primeira dose da Pfizer no dia 3 de agosto pelo programa “férias e vacinação” patrocinado pelo governo de Guam, ou AirVnV (em alusão ao famoso site de hospedagem AirBnb), pagando US $100 por uma dose. “Aqui em Guam eu posso escolher a vacina que quero por um preço acessível, mas em Taiwan, eu teria de esperar pela vacina disponível, sabe-se lá quando.”

Ao redor do mundo, lugares que dependem do turismo inventaram ideias criativas para tentar impulsionar os negócios devastados pela pandemia. Alguns tentaram atrair nômades digitais ou permitiram que os viajantes fizessem quarentena nos resorts. Outros tentaram bolhas de viagem que colapsaram quando novos surtos começaram.

E embora a iniciativa AirV&V de Guam tenha pouca chance de resgatar os dólares turísticos perdidos – mais de 1,6 milhão de visitantes internacionais alegraram essas praias em 2019 – as empresas dizem que vale a pena arriscar.

“Com o programa AirV&V, começamos a ver um aumento dos hóspedes internacionais de Taiwan, Coreia e Japão", disse Honoka Yamazaki, gerente de planejamento na sofisticada Tsubaki Tower, acrescentando que as reservas de quarto e as vendas subiram em comparação com o ano passado.

Cerca de 2000 visitantes de Taiwan, onde apenas 4% da população está completamente vacinada, visitaram Guam desde o primeiro voo fretado em 6 de julho, de acordo com a Taiwan’s Lion Travel, que realiza excursões em grupo para Guam e Palau.

Os turistas da vacina agendam suas doses online e tomam as injeções em um quiosque  no centro turístico de Tumon, que abriga hotéis sofisticados e lojas de luxo. Empresas de tecnologia incluindo a TSMC, a maior fabricante de chips do mundo, agendaram excursões em grupo para seus funcionários, que chegam em voos fretados e hospedam-se em uma rede de hotéis chamada AirV&V.

Shoppings e restaurantes nos pontos turísticos de Guam reabriram nas últimas semanas na medida em que mais moradores foram vacinados. E agora, o modesto fluxo de turistas está estimulando outros locais a fazerem o mesmo. Para manter este fluxo de entrada, as autoridades de Guam propuseram dar um cupom de compras no valor de US$ 500 para os turistas AirV&V.

“Uma recuperação completa deve demorar muito tempo, mas trazer os turistas de volta é um começo vital para essa recuperação”, disse Anna Kao, proprietária do Ocean Villa, localizado à beira-mar em Tamuning, um vilarejo perto de Tumon. Sua pousada, que ficou fechada por meses em 2020 após um lockdown, reabriu antes do Natal e recebeu mais turistas de Taiwan, Japão e Filipinas neste verão.

Mas mesmo aqui, a aproximadamente 2.400 quilômetros de Tóquio e 6.000 quilômetros do Havaí, a pandemia nunca está longe.

Neste verão (Hemisfério Norte), assim que as autoridades de Guam abrandaram as restrições, os casos de coronavírus voltaram a aumentar em agosto. Na segunda-feira, o governo local reintroduziu a obrigatoriedade das máscaras e as regras de distanciamento social. As instalações militares americanas – incluindo a Base Naval de Guam e a Base da Força Aérea em Andersen – também redefiniu o protocolo de máscaras. Agora os restaurantes exigem comprovante de vacinação para clientes que fazem refeições e aumentaram os controles.   

“A pandemia, como pode ver, não vai embora tão cedo”, disse Brandon Kinsella, coordenador de projetos do programa Air V&V. Mas, ele disse, “sempre haverá a necessidade de vacinas e um mercado turístico”. Guam, assim como o restante dos Estados Unidos, vai implementar doses de reforço nas próximas semanas.

A nova onda de infecções tirou um pouco da animação dos turistas procurando por férias com sol e areia. Alguns grupos taiwaneses que vêm a Guam para a vacinação estão optando pela quarentena em seus quartos de hotel, saindo apenas para buscar comida.

“Eu não quero pegar covid vindo aqui me vacinar contra o vírus”, disse Richard Chang, um recém aposentado de Taipei, que acabou de tomar sua segunda dose da Moderna no Hyatt Regency de Guam e estava pressionando o braço seguindo a instrução de um guia local falante de mandarim.  

Acompanhando sua noiva durante as três semanas de férias e vacinação, Shin Hee-sok, um acadêmico sul-coreano, disse que a variante Delta o lembrou da ameaça dos mísseis norte-coreanos a Guam em 2017, que assustou muitos visitantes e fez com que os preços dos voos e dos hotéis despencassem.

“Os sul-coreanos superaram o medo das ameaças dos mísseis norte-coreanos e agora estão aprendendo a viver com o coronavírus”, disse Shin, uma pesquisadora de leis internacionais na Universidade Yonsei, em Seul.

A Coreia do Sul, uma das principais fontes de turistas da ilha, tem registrado mais de mil infecções por dia. E embora a nova onda de casos em Guam – com população de 170 mil – seja pequena comparada a outros lugares, os turistas da vacina enfrentam preocupações mais prosaicas.

“Fiz tudo que ainda estava aberto para os turistas, de tiro e caminhada a jet ski, caiaque, mergulho e surf”, disse Lin, o taiwanês proprietário do resort, na noite anterior à volta para casa, no fim de agosto, completamente vacinado, e entrando em uma quarentena obrigatória de duas semanas. “Para alguém acostumado à vida urbana, Guam é como um paraíso, mas apenas na primeira ou nas duas primeiras semanas. Se tivesse de ficar mais tempo aqui, provavelmente ficaria entediado.” /TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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