Turistas teriam funcionado melhor

Embargo americano prejudicou os cubanos comuns, rebaixando seu padrão de vida, mas não a elite

NICHOLAS D. KRISTOF, THE NEW YORK TIMES

19 de dezembro de 2014 | 02h02

Existirá algum elemento de política externa dos Estados Unidos que tenha falhado de maneira mais clamorosa que o nosso embargo contra Cuba? Quando ouço os falcões de Washington denunciando o presidente Obama por decidir estabelecer as relações diplomáticas com Cuba e abrandar o embargo, não compreendo a lógica. Será que eles acham que a política americana não funcionou na primeira metade do século, mas poderá começar a funcionar depois de cem anos?

Provavelmente, os Estados Unidos contribuem para manter o regime de Castro no poder oferecendo-lhe um bode expiatório por seus fracassos econômicos e políticos.

Basta olhar o que acontece no mundo: os antigos regimes ditatoriais que sobreviveram - Cuba e a Coreia do Norte - são os que foram isolados e submetidos a sanções. Por que achamos que isolar um regime significa puni-lo, e não protegê-lo?

Poucas operações fracassaram de maneira mais catastrófica que a invasão da Baía dos Porcos em Cuba, em 1961, com os mais de 1,5 mil cubanos treinados pela CIA (Agência de Inteligência Americana). Se a invasão armada fracassou, no entanto, aposto que teria sido melhor se os Estados Unidos tivessem permitido invasões de turistas, empresários e investidores na ilha.

Visitas. Os turistas americanos em Havana já se queixam da conexão de internet sem fio - que é rara - ou do papel higiênico muito áspero. Precisamos de hordas deles, rindo dos antigos automóveis remendados com fita adesiva, ou comparando salários com os cubanos.

Às vezes, o poder das armas desaparece diante do poder do gracejo.

Quando estudava Direito, no início dos anos 80, paguei minha visita à União Soviética contrabandeando jeans e "walkman" que vendia no mercado negro. Meus clientes russos olhavam para minha mercadoria com reverência e, para mim, com inveja.

O desejo intenso por esses maravilhosos bens de consumo foi talvez um fator preponderante na derrubada do império soviético, tanto quanto o anseio pelo direito ao voto.

O embargo econômico americano prejudicou os cubanos comuns, rebaixando seu padrão de vida, mas não as elites cubanas. O embargo manteve viva a chama do esquerdismo na América Latina, e criou o grito de guerra dos que dizem combater o imperialismo.

Com o tempo, os EUA conceberam bizarros planos para assassinar Fidel Castro, como a explosão de uma concha.

Também foram apresentadas propostas para humilhá-lo, por exemplo, drogando-o com um alucinógeno, ou com o uso de um produto que provocaria a queda de sua barba. Tudo financiado pelo dinheiro dos impostos dos americanos.

O senador Robert Menéndez, um democrata cubano-americano, afirma que "os atos do presidente Obama justificam o comportamento brutal do governo cubano".

Do mesmo modo, o senador Marco Rubio, republicano cubano-americano, denuncia o enfoque que considera "calcado numa ilusão, numa mentira, a mentira e a ilusão de que o aumento do intercâmbio e o acesso ao dinheiro e aos bens se traduzirão em liberdade política para o povo cubano".

Os críticos estão absolutamente certos quando afirmam que o regime cubano é repressivo e economicamente incompetente. Mas o desejo de derrubar governos que não agradam não tem um grande histórico.

Formei minhas convicções morando na China por algum tempo nos anos 80, quando o país estava se abrindo para o Ocidente. As sucessivas ondas de visitantes estrangeiros perturbaram profundamente os chineses que acreditavam no sistema.

Novidades. Em 1983, um amigo britânico voltou ao seu hotel e constatou que suas lentes de contato tinham desaparecido do estojo. Perguntou aos funcionários do hotel, e um faxineiro afirmou orgulhosamente que tinha despejado o conteúdo do estojo das lentes na pia.

Seguiu-se uma celeuma. Toda a equipe chinesa do hotel ficou sabendo, com enorme surpresa, que os ocidentais tinham acesso a óculos minúsculos e invisíveis, que podiam colocar e tirar. Eles absorveram a informação com espanto e inveja.

O senador Rubio tem razão quando diz que o encontro com novas tecnologias e com a riqueza não será imediatamente letal para o autoritarismo. Afinal, o Partido Comunista Chinês continua firme em seu lugar, e até pôs na cadeia o vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Liu Xiaobo.

Se esses encontros, no entanto, não são letais, exercem no mínimo uma ação corrosiva. A China tornou-se menos monolítica interagindo com o mundo. Não existe pluralismo político na China, mas há pluralismo econômico e cultural. Os dias do maoismo acabaram para sempre.

Contatos. Do mesmo modo, pasmo com a frequência com que os que fogem da Coreia do Norte contam que eles mudaram suas posições simplesmente visitando a China ou a Rússia e ao perceberem que estavam sendo tratados com condescendência como seres inferiores.

Durante a carestia na Coreia do Norte, nos anos 90, o governo do país tentou consolar a população que morria à míngua com programas de televisão sobre os perigos do superaquecimento, inclusive um documentário sobre um homem que comeu tanto arroz que acabou explodindo.

Na época, os norte-coreanos olhavam surpresos para os raros visitantes estrangeiros, principalmente os que eram um tanto gorduchos, com uma variedade transparente de emoções: inveja, espanto, e talvez até preocupados com a possibilidade de uma explosão.

Então, congratulações a Cuba por sua nova política. O envio de homens para libertar a Baía dos Porcos falhou. Talvez devêssemos ter enviado bandos de diplomatas, turistas e investidores, de preferência gorduchos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É colunista

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