Turquia acusa França de genocídio argelino

Medida de Ancara é retaliação à decisão do Congresso francês de criar uma lei que pune 'negacionismo'

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h00

O governo da Turquia acusou ontem a França de ter cometido genocídio na Argélia durante os anos de colonização no país, no século 20. Segundo Ancara, 15% da população argelina teria sido exterminada pela ação francesa, que tentava evitar a independência. O tema é de fato uma das páginas sombrias da história da França, mas foi usado pela Turquia como retaliação à decisão da Assembleia Nacional de criar uma lei que pune toda a negação de genocídios.

O alvo da nova legislação é o genocídio de 1,5 milhão de armênios, supostamente cometido por turcos entre 1915 e 1917. Na quinta-feira, o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, havia anunciado o congelamento das relações políticas e militares e retirado seu embaixador de Paris. Ontem, foi mais longe e acusou a França de ter exterminado argelinos no pós-2.ª Guerra.

Erdogan chegou a envolver o pai de Nicolas Sarkozy, Pal, em seus ataques, acusando-o de ter integrado forças legionárias na Argélia durante o conflito dos anos 40. "Se o presidente francês não sabe que houve um genocídio, ele pode perguntar ao seu pai. Tenho certeza de que ele tem muito a dizer a seu filho sobre os massacres."

Constrangimento. Em Paris, a inesperada polêmica causa constrangimento entre líderes políticos. Durante visita a Praga, onde participou do funeral do ex-presidente Vaclav Ravel, Sarkozy concedeu entrevista na qual afirmou que a França "tem suas convicções sobre direitos humanos" e "não precisa pedir autorização de ninguém" para agir. "Eu respeito as convicções de nossos amigos turcos. Da mesma forma, eles devem respeitar as nossas."

Nos bastidores diplomáticos, a decisão do Parlamento - apoiada pelo Palácio do Eliseu - foi vista como um atrito desnecessário, capaz de minar a relação entre os dois governos em temas estratégicos e em um momento delicado, quando ocorrem as revoluções no mundo árabe. Em público, o chanceler Alain Juppé voltou a reprovar a iniciativa, batendo de frente com Sarkozy: "Esta iniciativa não era oportuna, mas o Parlamento aprovou. Tentemos agora retomar relações pacíficas".

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